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Nansen inaugura fábrica de R$ 265 milhões em Betim

Fonte: otempo.com.br | Data: 08/08/2026 07:02:52

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Ciro Lima, diretor comercial da Nansen, é o entrevistado de hoje na temporada Minas S/A Protagonismos, disponível em todas as plataformas de O TEMPO.

A Nansen foi fundada em 1930, em Belo Horizonte, num pequeno barracão, como produtora de instrumentos científicos e hospitalares.

Ao longo da sua trajetória, a empresa migrou de segmento e, há poucas semanas, inaugurou sua maior fábrica de transformadores, em Betim (MG), com investimento de R$ 265 milhões.

“Na visão do grupo AUX (controlador da Nansen), o Brasil é um país de oportunidades. Com tamanho continental, tem particularidades em cada região, ou seja, são vários países dentro de um, o que diversifica a produção dos equipamentos para diferentes usos e clientes”, avaliou Lima.

Outra unidade industrial da Nansen fica em Manaus (AM), além do escritório em São Paulo. A fábrica de Betim está estruturada para produzir 144 mil transformadores por ano.

A seguir, entrevista de Ciro Lima e vídeo na íntegra:

Com quase um século de atividades, a Nansen tem uma história inspiradora.

A Nansen começou com uma pequena fábrica em Belo Horizonte, há 96 anos, pelo médico, professor, empresário e líder industrial mineiro Dr. Nansen Araújo, que decidiu investir na produção artesanal de instrumentos para uso hospitalar. A partir de 1937, ele passou a produzir hidrômetros (medidores de água). Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), apoiou o Exército Brasileiro ao desenvolver e fabricar um temporizador mecânico para projéteis de artilharia antiaérea. Nos anos 1970, ingressou no setor de medidores de energia elétrica e tornou-se líder do setor na América Latina. 

Em 2015, a Nansen mudou de dono? 

Em 2015, a Nansen migrou do modelo de empresa familiar para multinacional e passou a integrar o conglomerado chinês Grupo AUX. Atualmente as áreas de atuação são: infraestrutura para recarga de veículos elétricos, plataformas de gestão, soluções smart grid (redes de energia inteligentes), transformadores, sensores para iluminação pública, switchgear, Ring Main Unit (RMU), energia solar e sistemas de armazenamento de energia por baterias (Bess), que compõem um ecossistema de eletrificação.

Podemos dizer que a cultura do Dr. Nansen, de encontrar novas oportunidades e inovar, é um dos aspectos que atraíram o Grupo AUX?

Sim. A união com o Grupo AUX é parte da estratégia da Nansen para melhorar a performance tecnológica, processos e a cadeia de suprimentos da companhia. A estruturação foi um movimento natural que nos possibilitou ter uma fábrica mundial na China, o país que é a fábrica do mundo.

Como foi o encontro entre Nansen e o Grupo AUX?

O Grupo AUX foi criado em 1986 e está entre as 500 maiores empresas chinesas. Presente em 53 países, tem uma atuação diversificada em setores como home appliance, com produção local e mundial de ares-condicionados, real estate (divisão imobiliária), tecnologia e potência (transformadores e soluções de medição). Apesar de o Brasil ter muitas particularidades, é um mercado que demanda tecnologia e funcionalidades distintas. Então, quando a Nansen apresenta produtos adaptados para as diversas exigências nacionais, passa a ter um item que, se retornar para a Europa, Ásia ou Estados Unidos, terá novas funcionalidades.

Como o Grupo AUX, enquanto acionista, enxerga o Brasil?

Na visão do Grupo AUX, o Brasil é um país de oportunidades. Com tamanho continental, tem particularidades em cada região, ou seja, são vários países dentro de um, o que diversifica a produção dos equipamentos para diferentes usos e clientes.

Qual é a importância do mercado brasileiro para o Grupo AUX?

Na vertical de medição, esse percentual chega a 50% no mundo todo e temos capacidade de crescer ainda mais. 

Por que ingressar nesse ramo?

Em 2020, entendemos que a demanda por eletrificação e eletromobilidade vai crescer muito na próxima década. Em números, no primeiro semestre de 2026 foram emplacados 215 mil novos veículos eletrificados. Quando falamos de eletropostos, falamos de 25 mil novas instalações do gênero. Nessa vertical, temos oportunidades com eletropostos, carregadores de alta potência e também no varejo, para quem deseja ter, em casa, o seu próprio carregador veicular.

Como é a estrutura física da Nansen no Brasil?

Em 2020, apesar das incertezas da pandemia, a empresa abriu uma fábrica na Zona Franca de Manaus (AM). Toda a nossa produção de medidores foi para lá, mas a parte de desenvolvimento e nosso “head quarter” (quartel-general) ficaram em Contagem (MG). Na mesma época, abrimos escritório em São Paulo, onde temos várias bases de negócios. Em julho deste ano, ampliamos nosso espaço no país com uma nova fábrica, em Betim (MG).

Como foi essa decisão?

Foi um momento de sucesso trazer a fábrica para Betim. Primeiro, fizemos um estudo logístico e muitos municípios se interessaram nesse investimento da Nansen, que nos possibilita ter a estrutura administrativa e a fabril juntas e ainda controlar custos logísticos da produção de transformadores e carregadores para veículos elétricos. A área também permitirá futuras ampliações.

Onde fica a nova fábrica?

Encontramos uma área de 165 mil metros quadrados em frente à rodovia Fernão Dias, que nos leva aos grandes mercados consumidores. Outro ponto é que Betim já é uma área industrial que tem uma mão de obra qualificada para o nosso projeto.

Quanto custou esse projeto?

O aporte foi de R$ 265 milhões, com recursos próprios, conforme o plano estratégico global do Grupo AUX.

Qual é a produção atual?

A fábrica de Betim está estruturada para produzir 144 mil transformadores por ano, o que corresponde a 30% do mercado nacional. Também temos um turno para entregar 1.800 carregadores (elétricos) por ano, mas podemos abrir o segundo e o terceiro turno de trabalho. Nosso compromisso agora é vender para fazer jus ao aporte realizado.

Quais são os planos para o futuro?

Hoje, temos capacidade instalada para a produção de transformadores e carregadores de veículos elétricos para suprir o mercado até a próxima década.

Como essas redes de energia inteligentes funcionam? 

Temos 1 milhão de medidores instalados, com rede que cobre 2 milhões de consumidores na RMBH. Em tempo real, a concessionária de energia consegue ver a qualidade de energia que está na minha casa, se está dando 127 volts ou 220 volts. Se faltar energia, ela já sabe, não precisa ninguém ligar para avisar. Então, cada residência é um sensor. Além das casas, há sensores nos transformadores e na iluminação pública que geram dados que, trabalhados por cientistas de dados, possibilitam a tomada de decisões com mais precisão. Nesse sistema entram os data centers que vão estruturar as Inteligências Artificiais (IA) como ferramentas atreladas.

O Brasil já está pronto para esse movimento?

Estamos prontos para produzir, mas há investimentos que as concessionárias ainda não fizeram porque ainda não performam suas metas em sintonia com as da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Como está o setor de carregadores para veículos elétricos?

Na eletromobilidade, trabalhamos junto com os municípios. Temos um eletroterminal inaugurado ano passado, para a frota de Cascavel (PR). Trabalhamos de forma consultiva desde o projeto até a captação dos recursos, que nesse caso foi via Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

E as redes de recarga?

Esse já é outro projeto, para empresários que têm postos de combustíveis e que pretendem investir para incluir a eletrificação entre os serviços prestados, para veículos híbridos ou 100% elétricos.

Para ter essa oferta na rua, como já acontece na Europa, serão quantos anos? 

Em dez anos chegaremos lá. Quem experimenta o veículo elétrico não volta. Tem a economia no dia a dia para trecho urbano, porque os novos modelos estão com mais tecnologia embarcada e maior autonomia. Paralelamente, há estados que já oferecem benefícios, como isenção de IPVA.

Como a Nansen avalia a viabilidade desse tipo de projeto? Pelo PIB, tíquete médio da cidade, dados do IBGE, população etc?

Somos procurados por empresários que querem investir e nós oferecemos serviços que incluem desde a consultoria inicial até a instalação, para que a decisão do investimento seja segura. Também estruturamos uma rede de pós-venda com parceiros que garantem uma retaguarda técnica, seja para um problema que possa surgir durante a operação, seja para que uma troca, apesar da qualidade e segurança do produto, não comprometa o funcionamento.

Se o investidor não dispõe do recurso necessário, a Nansen oferece algum subsídio ou financiamento?

Temos benefícios para investimentos superiores a R$ 70 milhões. Para outros casos, trazemos bancos parceiros para auxiliar no processo de financiamento, quando necessário.

Depois do boom da energia solar, como está o setor agora?

Os incentivos geraram megainvestimentos em usinas solares, mas muitas empresas têm reclamado dos cortes do fornecimento – curtailment ou constrained-off – que acontecem quando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determina reduções temporárias para proteger a estabilidade elétrica.

Como a Nansen tem atuado nesse caso?

Convertemos a falta de sintonia entre os investimentos que foram realizados pelas empresas, mas que não foram acompanhados pelas distribuidoras de energia, para gerar uma grande oportunidade de negócios para a linha de sistemas de armazenamento de energia em baterias (Bess). No momento do corte, aquela geração em tempo real de uma eólica ou solar carrega as baterias e, quando o ONS libera, a planta tem a produção continuada e fornece o que foi armazenado.

 Como é a cadeia de fornecedores da empresa?

Uma média de 70% da nossa matéria-prima é importada e 30% é nacional. Mas isso não é uma particularidade da Nansen. Conseguimos otimizar o custo logístico com uma rede de fornecedores próximos que trazem uma competitividade fantástica para o negócio, mas, como o Grupo AUX está em mais de 50 países, temos a possibilidade de comprar em escala com preços melhores e fazemos a montagem aqui.

São quantos funcionários hoje?

Temos um time de 1.300 funcionários no Brasil e até o final de 2027 serão mais de 200 ou 300 empregos diretos gerados para a nova fábrica. Desses, 100 já ingressaram no nosso time. No mundo, somos 40 mil funcionários.

Como foi o faturamento do Grupo AUX em 2025?

Foi de US$ 20 bilhões no mundo. O Brasil atende toda a América Latina com expectativa de entrar no mercado norte-americano.

O tarifaço dos Estados Unidos impacta as operações?

Sim. Estávamos em uma linha de fornecimento para os Estados Unidos, mas, com a taxação, a fábrica de Guadalajara, no México, passou a ser mais vantajosa para atender país do que nós, do Brasil.

Como é, para você, estar à frente de um projeto como a Nansen?

Sou engenheiro eletricista de formação, formado na Universidade Federal do Ceará. Comecei nas concessionárias de energia, no Ceará, e depois desbravei o mercado de mineração em Vitória (ES). Foram oito anos de muitos aprendizados na Vale. Retornei ao mercado de energia, em Fortaleza, onde fiquei dois anos, e fui convidado para participar da transição da Nansen. Gostei muito do desafio e me considero um aprendiz. Eu todo dia aprendo, todo dia vivencio e estou em um mercado que é apaixonante.