Homens gays transformam sonho antes considerado impossível em novas formas de paternidade
Fonte: www1.folha.uol.com.br | Data: 08/08/2026 23:14:29
Quando Leo nasceu, em 20 de março deste ano, Felipe Barros, 37, e Rafael Amaral, 35, realizaram um sonho que achavam ser impossível: o de serem pais. A chegada de Mia, há 10 meses, também concretizou um desejo que parecia distante ou até “impensável” para o casal de influenciadores Lucas Rangel, 29, e Lucas Bley, 34.
Neste domingo (9), os dois casais celebram o primeiro Dia dos Pais com os filhos nos braços, um momento que, durante boa parte da vida deles, sequer parecia possível de imaginar.
Durante décadas, a ideia de paternidade esteve socialmente associada ao modelo heterossexual. Para muitos homens gays, crescer significou não apenas lidar com preconceitos sobre sua sexualidade, mas também com a ausência de imagens possíveis de si ocupando o lugar de pai.
Ator, roteirista e produtor, Felipe chegou a imaginar que precisaria reprimir sua sexualidade e se relacionar com uma mulher para realizar o sonho de ser pai. “Eu cresci na década de 1990. Esse debate de um homem gay ter filho simplesmente não existia.”
Felipe só encontrou possibilidade de conciliar sonho e sexualidade anos mais tarde. Aos 23 anos, assumiu-se gay. Três anos depois, conheceu o engenheiro Rafael, com quem está junto há dez anos e é casado desde 2019.
Foi na pandemia que começaram a pensar de forma mais concreta na paternidade. Diferentemente do parceiro, Rafael conta que não se enxergava no papel de pai. O desejo foi amadurecendo aos poucos, dentro da relação.
Já Bley sempre teve a paternidade como um sonho de vida. Desde criança imaginava ser pai, amadureceu essa ideia ao longo dos anos e encarava o processo como algo que aconteceria em algum momento, “mesmo que aos 40 anos”.
Rangel não tinha esse desejo inicialmente. Não pensava em casar nem ter filhos, mas o relacionamento com Bley, com quem está junto há seis anos e casado desde 2024, transformou essa perspectiva. “Quando eu me encontrei numa relação em que eu estava feliz e que eu podia também celebrar isso, eu embarquei nesse sonho com ele.”
Para muitos homens gays, não se trata, necessariamente, da falta de desejo de ter filhos. O que falta é a possibilidade de imaginar esse futuro, diz a psicóloga Natália Aguilar, especialista em parentalidade e autora do livro “Psicologia perinatal: caminhos do planejar, conceber, gestar e cuidar”.
“Sem referências concretas, muitos homens gays cresceram sem uma autorização simbólica para projetar o lugar de pai para si”, afirma Aguilar.
Mas se para casais heterossexuais a gravidez pode acontecer de uma forma mais natural ou até imprevisível, para casais gays a parentalidade costuma ser resultado de anos de decisões médicas, financeiras e emocionais.
A primeira delas é qual dos caminhos jurídicos possíveis escolher: a gestação por substituição (popularmente conhecida como barriga de aluguel ou barriga solidária) no Brasil ou no exterior e a adoção. Cada uma tem regras e exigências diferentes.
No Brasil, o agenciamento comercial de gestantes é proibido. Mas a cessão temporária do útero —termo jurídico para barriga por substituição— é permitida, desde que algumas regras sejam seguidas. A gestante deve ter pelo menos um filho vivo e ser parente de até quarto grau de um dos integrantes do casal.
Quando não há uma familiar que possa realizar a gestação, é possível recorrer a outra mulher, mas é necessária autorização prévia do CRM (Conselho Regional de Medicina). O processo não pode ter finalidade comercial e a doadora dos óvulos não pode ser a mesma mulher que realizará a gestação.
“Atendo um casal que pegamos os óvulos da irmã de um com sêmen do outro e transferimos em uma amiga deles”, diz o ginecologista Gustavo Teles, membro da SBRA (Associação Brasileira de Reprodução Assistida).
Segundo Teles, houve uma busca gradual por esse procedimento por casais gays no país, impulsionada por avanços tecnológicos, mas principalmente por normas do CFM (Conselho Federal de Medicina), que passaram a garantir formalmente o direito de acesso da comunidade LGBTQIA+ aos tratamentos.
Esse movimento também foi precedido por uma transformação jurídica e cultural mais ampla. Um dos principais foi o reconhecimento de 2011 por parte do STF (Supremo Tribunal Federal) de que as uniões entre pessoas do mesmo sexo constituem entidades familiares e devem receber a mesma proteção jurídica conferida às uniões heteroafetivas, segundo Amanda Helito, especialista em direito de família e sucessões.
A visibilidade de famílias homoafetivas, como a do ator Paulo Gustavo com o médico Thales Bretas e seus dois filhos, também contribuiu para tornar a paternidade gay um caminho mais conhecido.
Não há dados oficiais sobre barriga por substituição no país, mas, segundo Teles, 6% dos tratamentos de reprodução assistida realizados no Brasil hoje envolvem casais homoafetivos.
Quando o casal não encontra uma mulher que possa realizar a gestação dentro das regras brasileiras, uma alternativa é recorrer a países onde o procedimento é permitido. Estados Unidos, Colômbia, México e Argentina são destinos que permitem o processo para casais gays.
Os custos podem variar bastante. O processo na Colômbia, por exemplo, gira em torno de R$ 334 mil, enquanto nos Estados Unidos pode chegar a R$ 741 mil, segundo estimativas da agência Tammuz Family, empresa especializada no acompanhamento desses programas.
“Nosso trabalho é orientar os futuros pais e garantir que os procedimentos estejam alinhados às regras do país escolhido e às exigências brasileiras”, explica Larissa Mocelin Vaz, representante da área jurídica da empresa, que já facilitou mais de 2.000 nascimentos pelo mundo, dos quais mais de 250 para casais brasileiros.
A adoção é o terceiro caminho possível e segue, para casais homoafetivos, as mesmas regras aplicadas aos casais heterossexuais. Os interessados precisam solicitar habilitação à Justiça, passar por preparação e avaliação psicossocial e, se considerados aptos, ser incluídos no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento.
“O critério central da Justiça é o melhor interesse da criança, e não a orientação sexual ou a composição familiar dos pretendentes”, explica o advogado Luan Mazzali Braghetta, especialista em direito de família e sucessões.
Na avaliação da psicóloga Camila Ribeiro, especialista em inteligência emocional, essas trajetórias complexas de paternidade podem gerar desgaste emocional para os pais, mas pondera que, por outro lado, favorece um alto nível de preparação e amadurecimento.
“Ao chegar, essa criança é fruto de um desejo altamente elaborado e consciente, o que consolida uma base de compromisso muito consistente por parte dos pais”, diz.
Para Aguilar, essa paternidade intencional e refletida tende a formar pilares reais de cuidado, presença emocional e a construção de vínculos seguros. É a qualidade dessas relações, e não a configuração da família, que pesa no desenvolvimento da criança, afirma a psicóloga.
“A gente pode ter famílias formadas casais gays que oferecem um ambiente muito mais afetivo e favorável ao desenvolvimento da criança do que famílias tradicionais que não conseguem proporcionar esse mesmo cuidado”, diz.
Felipe e Rafael passaram meses pesquisando alternativas. Optaram pela gestação por substituição na Argentina. Contrataram uma empresa especializada, que cuidou de toda a burocracia. Foram cerca de dois anos entre exames, contratos, acompanhamento médico, jurídico, viagens a Buenos Aires e cerca de R$ 500 mil até o nascimento de Leonardo.
“Ele nasceu com 50 centímetros e 3,6 quilos. Foi uma das coisas mais lindas que vivi, ver a vida acontecendo. Foi aquele choque do tipo ‘cara, sou pai'”, diz Felipe.
Quase um ano antes, os influenciadores Lucas Rangel e Lucas Bley viveram uma experiência parecida nos Estados Unidos.
“É como se você fosse retirado do planeta. Você entra em um estado quase anestésico e fica completamente imerso naquele momento do nascimento. Parece que você está vivendo em uma espécie de realidade paralela. É difícil explicar. A natureza tem algo de muito bonito”, diz Rangel.
A chegada de Mia, dizem, deu “razão e propósito” para a vida do casal, contrastando com a realidade anterior, extremamente centrada no trabalho.
“Eu não consigo falar o que mudou, porque mudou tudo: a forma como você lida com a vida, como você se cuida. Porque não penso mais só em mim. Penso nela. Ela precisa de mim, e eu preciso estar bem por ela”, afirma Bley.
Para os influenciadores, expor a paternidade nas redes sociais não é apenas um relato pessoal, mas uma forma de provocar mudança, ainda que pequena, na forma como a sociedade enxerga famílias formadas por casais gays. Juntos, eles somam mais de 30 milhões de seguidores no Instagram.
“Eu vivo meu sonho, eu sou casado, eu tenho uma família. Se a gente consegue representar isso, falar sobre o nosso amor e sobre uma família gay, talvez a gente consiga normalizar ou mudar 0,1% da cabeça de alguém. Quem sabe, a gente consiga mostrar para um menino gay, que sonha em ter uma família, que é possível”, diz Rangel.