Anac havia sido alertada por ex-funcionário que Voepass reaproveitava peças, diz TV
Fonte: dgabc.com.br | Data: 09/08/2026 22:32:44
Anos antes do acidente do avião da Voepass matar 62 pessoas em Vinhedo (SP) em agosto de 2024, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) já havia sido alertada sobre graves falhas de manutenção nas operações da companhia aérea, diz reportagem do Fantástico. A partir de 2019, um ex-inspetor do órgão regulador denunciou, segundo o programa da TV Globo, reaproveitamento irregular de peças sem laudo de segurança e falta de aeronavegabilidade de aviões da empresa. Em vez de suspender as operações da Voepass, a Anac teria ignorado as recomendações e exonerado o agente.
O Estadão não conseguiu localizar as assessorias de imprensa da agência e da Voepass na noite deste domingo. Ao Fantástico, a Anac disse que vai abrir processo interno para verificar a responsabilidade de servidores. Já a companhia área, também à TV, disse que a segurança era uma prioridade da empresa.
O ex-funcionário move uma ação judicial contra a Anac em que relata os relatos sobre as falhas e também relata perseguição por parte de dirigentes da companhia.
A Polícia Federal, na conclusão do inquérito na semana passada, citou suspeita de falhas na fiscalização, mas não indiciou funcionários da Anac. A responsabilidade da agência ainda será investigada pelas autoridades federais.
Documentos obtido pelo Fantástico revelam que um ex-inspetor da Anac, exonerado em 2025 após 16 anos de serviço, já alertava sobre falhas graves na Voepass e reclamava de perseguição por parte de dirigentes da agência reguladora.
Ele recomendou, em 2019, suspender a autorização de voo da MAP Linhas Aéreas (que se fundiu à Passaredo para criar a Voepass). O motivo, segundo a reportagem, seriam evidências de que peças estavam sendo usadas pela companhia sem avaliação de aeronavegabilidade. E, de acordo com esse inspetor, essa recomendação não foi seguida pela agência.
Em 2022, houve uma nova denúncia. O então inspetor alertou que peças de um avião que sofreu um acidente em Rondonópolis, Mato Grosso, em 2016, teriam sido reaproveitadas ilegalmente. Sobre este caso, a Anac afirmou à TV Globo que houve verificação das peças na ocasião e a conclusão foi de que foram seguidas as normas regulatórias.
Ele também enviou e-mails para órgãos internacionais, como a FAA e EASA, agências dos Estados Unidos e da União Europeia, respectivamente. A Anac, no entanto, desautorizou o inspetor perante essas agências e fez com que ele respondesse a um processo interno por insubordinação em 2023. Depois, ele acabou exonerado após 16 anos de trabalhos na agência.
Testemunha citou suspeita de propina à Anac
Na semana passada, a PF informou que um mecânico de pista da Voepass – testemunha na investigação – citou a suspeita de pagamento de propina pela Voepass a funcionários da Anac. Segundo o relato, ele estranhou após ter sua carteira de autorização de trabalho suspensa mesmo após ser aprovado em um curso de reciclagem exigido. Para o mecânico, a motivação era retirá-lo da pista por “criar muito caso”, já que se recusava a liberar aviões que supostamente apresentavam problemas.
A Polícia Federal vai encaminhar a íntegra da investigação à Procuradoria da República no Distrito Federal (MPF) para que seja apurada eventual prática de atos de improbidade administrativa por integrantes da agência.
Conforme o relatório, a investigação identificou que a agência havia encontrado, antes do acidente, “diversas não conformidades técnicas e não procedimentais relacionadas à manutenção das aeronaves” da companhia.
