Mirando portos e Baía de Guanabara, CV disputa controle das rotas do tráfico no Rio
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 10/08/2026 04:46:42
Mais do que dominar territórios, facção busca abrir caminhos para exportar drogas
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Maior facção criminosa do estado, o Comando Vermelho (CV) atua em pelo menos quatro confrontos simultâneos no Rio, onde disputa áreas com a milícia e com o Terceiro Comando Puro (TCP). Dois deles acontecem em Rio das Pedras e em favelas das Vargens e do Recreio, na Zona Sudoeste. Um terceiro ocorre em Cordovil, na Zona Norte. E um quarto entre Campo Grande e Guaratiba, na Zona Oeste. O mapeamento das tentativas de expansão do CV, aliado ao cruzamento de informações pela polícia, revela que o grupo criminoso quer ir além do controle de territórios. O objetivo é criar corredores de passagem por comunidades da Região Metropolitana para acesso aos Portos do Rio, de Itaguaí e à Baía de Guanabara.
Na Zona Oeste, região que se conecta com o município de Itaguaí, o CV controla parte de Bangu e disputa áreas como a Favela do Barbante, em Campo Grande. Em 27 de julho, 11 criminosos armados com fuzis e vestidos com roupas camufladas invadiram uma área de mata entre o bairro e Guaratiba para tentar chegar a uma comunidade controlada pela milícia. A ação foi flagrada por câmeras de segurança. Já em Santa Cruz, a facção criminosa ainda não conseguiu entrar em nenhuma comunidade controlada por milicianos.
Disputas com rivais
Na região do Itanhangá, na Zona Sudoeste, o grupo só não domina a favela de Rio das Pedras. Há disputas também com quadrilhas rivais na área das Vargens, no Terreirão (Recreio) e ainda nas favelas Tintas e Dourados, em Cordovil, na Zona Norte. Essas duas últimas vêm sendo atacadas por homens comandados por Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão. Um dos chefes do TCP, ele controla as favelas de Parada de Lucas, Vigário Geral, Pica-Pau, Cidade Alta e Cinco Bocas, apelidadas por Peixão de Complexo de Israel.
Segundo o delegado Paulo Saback, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca ou Urso, é o principal responsável por ordenar invasões para a expansão do CV. Integrante da cúpula da facção, Doca é alvo de 45 mandados de prisão expedidos pelo Tribunal de Justiça, segundo dados do site do Conselho Nacional de Justiça.
Para a polícia, a hegemonia territorial, que ainda não foi conquistada em sua totalidade pelo CV mas já alcança cerca de 60% das comunidades do Rio, poderia ocasionar, entre outras consequências, o aumento do poder econômico da facção e o incremento de ações como o envio de drogas para a Europa e a África.
— Se eles (traficantes do CV) avançarem nessas áreas, vão ter mais rentabilidade (com a cobrança de taxas e exploração de serviços). A partir do momento que ocuparem esse território, ele se tornaria uma passagem para armamento e droga. Eles conseguiriam construir um corredor de passagem. Então, o projeto de expansão do CV é muito maior do que o simples domínio do território. É também controle e hegemonia das rotas. Incluindo expansão marítima, alcançando o Porto de Itaguaí, o porto daqui da capital, a Baía de Guanabara, que tem ali próximo o Complexo do Salgueiro (São Gonçalo), onde o CV já está. Dali, já se consegue acessar a Niterói-Manilha, subir para Região Serrana, ir para o Norte do estado. Então, o objetivo deles também é o controle de rotas. Até para proporcionar um aumento do tráfico internacional, mandando droga para Europa, África, onde a monetização é muito maior — explica Saback.
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No sentido oposto, a criação de corredores paralelos com acesso ao mar também poderia facilitar a entrada de armas e munição para o arsenal do CV.
Atualmente, armamentos e drogas que vêm de países que fazem fronteira com o Brasil chegam ao Rio após percorrer três rotas diferentes. A principal é conhecida como Rota do Norte ou Transamazônica. O material sai da região próxima à Venezuela, corta a Amazônia, passando pelos rios Negro e Solimões e pelo Pará, até chegar ao Centro-Oeste e, depois, ao Sudeste.
Arsenal poderoso
Não há uma estimativa do arsenal utilizado nas guerras travadas pelo CV no Rio. No entanto, centenas de armas podem estar sendo usadas nos confrontos. Só na Rocinha, durante uma operação realizada em junho de 2025 pelo Ministério Público do Ceará e policiais do Rio, 400 homens armados com fuzis foram flagrados fugindo do cerco por uma área de mata. As imagens foram feitas por um drone com câmera capaz de filmar em baixa luminosidade.
Também em 2025, mais de 90 fuzis foram apreendidos pela polícia nos Complexos da Penha e do Alemão, após uma ação que deixou 122 mortos, sendo 117 suspeitos e cinco policiais.
Investigações mostram que, para financiar a compra de armas e munições, a facção utiliza recursos obtidos por meio de atividades ilícitas, como roubos e extorsões, incluindo a venda clandestina de sinais de TV a cabo e de internet.
Em março deste ano, uma investigação da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e de Inquéritos Especiais (Draco-IE) desbaratou um esquema de fraudes bancárias e lavagem de dinheiro, comandado por pessoas suspeitas de ligação com o CV, que movimentou R$ 136 milhões em um ano.
Já se sabe que o grupo lavava dinheiro de origem criminosa por meio de criptoativos. Em junho, a corporação anunciou a criação do Núcleo de Apoio às Investigações com Ativos Virtuais (NuCripto) para dar suporte às delegacias que investigam movimentações financeiras desse tipo por criminosos. A criação do núcleo ocorreu após investigações identificarem fazendas clandestinas de mineração de criptomoedas. Uma delas foi encontrada pela polícia em 22 de maio, no Complexo do Lins, em área com histórico de atuação do CV.
Durante a ação, agentes chegaram a uma fazenda de criptomoedas que funcionava no interior de um mercado.
Polícia diz fazer ações
A Polícia Civil informou atuar de forma permanente no combate às facções em todo o estado, por meio de ações de inteligência, investigações e operações integradas voltadas ao enfraquecimento das estruturas financeira, logística e operacional das organizações.
Segundo a corporação, as delegacias distritais e especializadas mantêm ações contínuas para identificar, investigar e responsabilizar chefes, integrantes e colaboradores desses grupos, com foco na prisão de criminosos, no cumprimento de mandados judiciais e na apreensão de armas, drogas e outros materiais utilizados na atividade ilícita.
Entre as ações permanentes está a Operação Contenção, uma ofensiva do governo para impedir o avanço territorial do CV. De acordo com a polícia, um balanço revela que mais de 370 criminosos foram capturados, enquanto outros 137 morreram em confronto. A operação também resultou na apreensão de cerca de 480 armas, sendo 190 fuzis, além de mais de 51 mil munições.
Responsável pelo policiamento ostensivo, a PM disse ter intensificado o patrulhamento e passado a atuar simultaneamente em blocos para evitar conflitos entre quadrilhas rivais e combater a expansão do CV. No espaço de uma semana, a corporação apreendeu 17 fuzis, 22 granadas e 60 armas curtas, entre revólveres e pistolas, em todo estado. Recentemente, durante operação na favela Nova Holanda, PMs do Batalhão de Ações com Cães estouraram uma gráfica responsável por imprimir notas falsas.
Ainda segundo a polícia, em apenas uma semana, durante a operação, 329 suspeitos foram presos, 59 adolescentes foram apreendidos e 139 toneladas de barricadas foram retiradas, gerando um total de 850 ocorrências.
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