Hidrogênio verde atrai investimentos estrangeiros, sai do ‘hype’ e entra na fase de negócios no Brasil
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 11/08/2026 15:37:20
Investimentos avançam, mas especialistas apontam custo de produção e busca por compradores como principais entraves ao desenvolvimento do mercado
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O desenvolvimento do mercado brasileiro de hidrogênio verde é estratégico a nível mundial e tem atraído investimentos estrangeiros relevantes, mas ainda há gargalos a serem ultrapassados para o avanço do setor no Brasil. É o que apontaram especialistas no debate “Hidrogênio verde: promessa, aposta estratégica ou hype?”, realizado nesta terça-feira.
O evento faz parte do projeto Transição Energética, promovido pelo GLOBO e pelo Valor Econômico.
Os aportes externos mais recentes foram anunciados em junho pela União Europeia, que vai investir € 3 milhões para o desenvolvimento de nove projetos de hidrogênio verde no Brasil. Os investimentos acontecem por meio do programa H2Uppp, implementado pela Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ, na sigla em inglês).
Coordenadora da H2UPPP Brasil, Isabela Santos explica que os nove projetos se somam a outras oito iniciativas apoiadas pela entidade no país, que além de fazer a ponte com o setor privado europeu presta assistência técnica aos empreendimentos.
As empresas apoiadas atuam em toda a cadeia do hidrogênio verde, ou seja, desde a produção até o consumo final do combustível.
Há iniciativas como desenvolvimento de e-metanol (ou metanol verde, produzido a partir da combinação do hidrogênio verde e CO2), SAF (biocombustível que substitui o querosene de aviação) e projetos de descarbonização da indústria automotiva.
— Nosso trabalho é apoiar e alavancar o mercado de hidrogênio verde e já atuamos em nove países, mas o Brasil é muito estratégico — detalha Isabela.
Os nove novos projetos que receberão investimentos europeus devem ser anunciados na Semana Europeia de Hidrogênio, que acontece em outubro, em Bruxelas, na Bélgica. Na lista, há projetos de corredores verdes entre portos europeus e brasileiros, para a exportação de hidrogênio verde, amônia e aço verde.
Atender a demanda externa de hidrogênio verde é estratégica, mas há ainda um enorme potencial no mercado interno, observou Paulo Emilio Valadão de Miranda, professor da Coppe-UFRJ e diretor-presidente da Associação Brasileira do Hidrogênio (ABH2).
Um estudo da associação mapeou 34 projetos em curso no Brasil com perspectiva projetada de produção anual de até 4,6 milhões de toneladas de hidrogênio de baixa emissão a partir de 2035, enquanto a demanda anual será em torno de 3,7 milhões de toneladas no mesmo período.
Entre os projetos mapeados estão cinco iniciativas de desenvolvimento de produção e consumo interno que recebem apoio do Ministério de Minas e Energia (MME). Alguns deles são iniciativas de grandes empresas, como a CSN e a Petrobras.
Além disso, 95% dos projetos mapeados pela ABH2 planejam também produzir amônia a partir do hidrogênio verde, que pode ser exportada para consumo pelo setor marítimo ou ainda ser usada na produção interna de fertilizantes, que têm alta demanda no país, mas cujos preços subiram drasticamente desde o conflito entre Rússia e Ucrânia.
Outra oportunidade é usar o hidrogênio verde para descarbonizar produtos já atualmente exportados pelo Brasil. Um deles, segundo o professor, é o minério de ferro. Empresas como Vale a Green Energy Park (GEP) já trabalham com a redução direta de minério com hidrogênio.
Além de aumentar o valor agregado do produto final exportado, isso torna o aço mais competitivo principalmente no mercado europeu, que tem uma política dura de taxação a itens que usam combustíveis fósseis no processo de produção.
— Isso pode ser feito em outros produtos, o que quer dizer que nós reforçamos o mercado interno, reindustrializamos o país e atraímos investimentos estrangeiros. É uma estratégia beneficia o Brasil, o meio ambiente e que permite ainda ajudar a descarbonizar países que não têm a capacidade produtiva necessária, e que por isso precisam importar hidrogênio ou produtos descarbonizados — analisa Valadão de Miranda.
Apesar do imenso potencial brasileiro no setor, dada a disponibilidade de matéria prima e energias para produzir hidrogênio de baixa emissão de carbono, um dos principais gargalos é o custo.
Isso porque o principal método de produção é a eletrólise da água, processo que usa eletricidade para separar a molécula (H₂O) em hidrogênio e oxigênio. O problema é que esse método tem custo mais elevado de produção, variando de R$ 10 a R$ 70 por quilo.
Por isso, o professor da Coppe avalia que é preciso ampliar investimentos em iniciativas que usem outras metodologias, como a partir da biomassa, que custa de R$ 7 a R$ 20 por quilo.
Um dos projetos nessa frente é apoiado pelo programa H2Uppp. A matéria-prima usada para a produção de SAF são os resíduos da produção de suínos na região de Toledo, no Paraná, que antes tinham o risco de contaminar o solo e o lençol freático da região com fosfato.
— O gargalo é encontrar compradores, dentro e fora do Brasil, para produzir cada vez mais e baratear o hidrogênio verde e os combustíveis sintéticos (que demandam hidrogênio na produção). Nos últimos anos, os projetos no Brasil têm deslanchado. Houve um hype, mas estamos agora com o “crème de la crème”: quem quer fazer negócio nesse setor, vai fazer — destaca Isabela.
O projeto Transição Energética tem patrocínio da Vale.
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Evento do GLOBO e do Valor debate investimentos e oportunidades no mercado de hidrogênio verde no Brasil