Sobrevivente de queda de avião, casado com uma Kardashian: Travis Barker conta sua história em doc
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 12/08/2026 05:28:54
O baterista Travis Barker é uma estrela do pop-punk que também se tornou um colaborador requisitado no hip-hop e uma referência em grandes cerimônias de premiação. Uma celebridade tímida e de perfil relativamente discreto que entrou para a “família real” dos reality shows ao se casar. Um ex-roqueiro de vida intensa que amadureceu e adotou uma rotina de corridas, exercícios de respiração e a criação de uma família composta por sete filhos (de diferentes relacionamentos).
A única constante ao longo de uma carreira marcada por álbuns multiplatina, uma experiência de quase morte e uma linha de streetwear tem sido a percussão. Barker é um dos bateristas mais emblemáticos da era moderna, um músico de batida feroz e ouvido versátil. Com formação em jazz e bandas marciais durante a adolescência em Fontana, na Califórnia, ele levou esse dinamismo técnico a bandas de diversos gêneros: ska, country e, claro, os heróis do pop-punk Blink-182 e o grupo de rap-rock Transplants.
As viradas de bateria de Barker são reconhecíveis de imediato e, ao longo de três décadas de carreira, ele sempre preferiu se expressar através do instrumento — com volume alto, velocidade e força física máxima.
— Acho que cicatrizes são legais — disse Barker em entrevista ao “Popcast”, programa de conversas sobre cultura pop do New York Times. — Nunca saí de um show com as mãos em frangalhos pensando: “Queria não ter tocado com tanta força hoje à noite.”
Mas, aos 50 anos, Barker está encontrando outras maneiras de compartilhar sua trajetória. Amanhã, o Hulu lançará o documentário “Travis Barker: louder than fear”, biografia que levou uma década para ser produzida; ela aborda desde sua criação rigorosa até o auge da fama na MTV com o Blink, passando pelo acidente aéreo de 2008 — que matou quatro das seis pessoas a bordo, incluindo grandes amigos. Barker passou anos em processo de recuperação física e psicológica desde então. Encerrando com uma nota de renascimento — incluindo seu casamento com Kourtney Kardashian e seu primeiro voo em quase 20 anos —, o documentário oferece um olhar íntimo e direto sobre uma celebridade que raramente permitiu um escrutínio mais próximo, mas que, ainda assim, viu-se constantemente sob os holofotes.
Em conversa com Jon Caramanica e Joe Coscarelli, do “Popcast”, Barker falou sobre a bateria como disciplina; sobre se manter um pouco à margem dos holofotes que cercavam seus famosos colegas de banda e familiares; sobre quais partes de sua vida ele está disposto a expor às câmeras; e sobre as mudanças de vida que escolheu fazer para proteger sua dedicação à música.
— É por isso que treino, é por isso que corro, é por isso que pratico boxe e é por isso que faço as coisas que faço — disse Barker. — Porque quero ser capaz de tocar do jeito que quero tocar.
JOE COSCARELLI: Quando você decidiu fazer este filme e por quê? Há imagens muito intensas do seu acidente de avião, das mais de 20 cirurgias posteriores, da sua recuperação e jornada de sobriedade, momentos íntimos com sua família…
As conversas começaram depois do meu livro (“Can I say: living large, cheating death, and drums, drums, drums”, de 2015). As feridas ainda estavam muito recentes — foi algo realmente difícil. Mas tanto o livro quanto o filme são terapêuticos, certo? Foi mais ou menos em 2017; o documentário deveria ter sido concluído naquela época. E o objetivo dos diretores e do produtor para o final era: “Você poderia, por favor, ir a um aeroporto para encerrarmos lá?” Eles só queriam me filmar embarcando em um avião, talvez insinuando que um dia eu voltaria a voar. E eu disse: “De jeito nenhum. Não tem a menor chance de eu chegar perto de um avião.” Naquela época, eu nem sequer ficava em hotéis próximos a aeroportos. Fiquei quase 20 anos sem ir a um aeroporto. Eu pensava: “Só lancem isso um dia, quando eu já tiver partido, ou algo assim. Não quero mais lidar com isso.” Então, o projeto ficou parado. De repente, me apaixono, foco no autoconhecimento, faço exercícios de respiração… Resumindo a história: volto a voar.
COSCARELLI: Outra coisa que aconteceu entre 2017 e 2026 foi que você entrou para uma família de reality show ao se casar. Você está em “The Kardashians” agora e, imagino, aprendendo a compartilhar mais da sua vida pessoal nesse formato. Como isso o preparou para contar essa história no filme?
Nem percebo que estou no programa. Acho que a melhor maneira de lidar com coisas assim — ou de participar delas — é não ficar pensando que estou sendo filmado ou que algo diferente está acontecendo. Amo minha esposa, a família dela, as meninas e todo mundo. Às vezes ela está gravando e eu estou por perto. Mas eu nunca aprovo episódios nem os assisto.
CARAMANICA: Sério? Você não aprova nada?
Sou um coadjuvante. Mas o programa não foi um processo de aprendizado para me abrir. O que me ajudou a lançar o doc foi conseguir superar as grandes questões que tinham poder sobre mim.
CARAMANICA: Fiquei impressionado com a forma como seus filhos falaram no filme sobre o medo, o trauma e a ansiedade relacionados a voar. Quando você finalmente disse “Eu e a Kourtney vamos pegar um avião e fazer essa viagem”, seus filhos disseram: “Por favor, não vá.” Quais conversas teve com eles para deixá-los tranquilos em relação à sua decisão?
Bem, minha trajetória até chegar lá envolveu uma massoterapeuta; lembro dela me dizendo: “Você precisa fazer exercícios de respiração.” E eu pensava: “Do que você está falando?” Ela dizia: “Você carrega muito trauma, consigo sentir isso no seu corpo.” Eu não sabia exatamente como lidar com as coisas depois do meu acidente — conversei com um especialista em traumas, fiquei sóbrio, corria, fazia exercícios, fazia tudo aquilo que eu sentia que precisava fazer. Um fã, que era muito legal e muito persistente, sempre entrava em contato comigo dizendo: “Ei, faça exercícios de respiração.” Mas o cara se parecia comigo — tinha tatuagens na cabeça. E eu pensava: “Cara, me sinto tão estranho… não conheço essa pessoa. Vou ficar bem fechado.” Cara, com dez minutos de prática, eu estava chorando copiosamente. Eu estava totalmente desestabilizado. E foi assim nas cinco sessões seguintes. Mas eu também sentia que estava progredindo, sabe? Eu simplesmente me sentia diferente. Então, no fim das contas, isso me levou a dizer à minha esposa: “Se você for me levar a algum lugar, não me avise com antecedência. Só me conte na noite anterior.” E foi o que ela fez; fiz os exercícios de respiração na noite anterior e acabei voando. Felizmente, tive uma ótima experiência. Mas meus filhos eram muito, muito protetores comigo e tinham muito medo, a ponto de implorarem para que eu não entrasse no avião. Então, eu precisava mostrar a eles como quebrar esse ciclo, para que eles também tentassem. Infelizmente, meus filhos tinham cerca de 3 e 5 anos quando meu acidente aconteceu e nunca mais voaram depois disso. É triste, mas eles basicamente cresceram achando que é assim que as pessoas morrem.
COSCARELLI: No documentário, enquanto a história do acidente aéreo é narrada, você executa um solo de bateria que reflete o momento mais terrível da sua vida.
O produtor do filme disse: “Olha, tem uma cena em que vamos mostrar imagens do seu acidente de avião e quero que você faça um solo de bateria que meio que espelhe essa sensação.” Cheguei a um galpão iluminado, com fogo por toda parte. E não falei muito, sinceramente; apenas sentei na bateria e comecei a me expressar.
COSCARELLI: Quando terminou, você sentiu que tinha liberado algo?
Sim. É algo muito cru, muito catártico e intenso. Acho que fiz dois solos, totalmente improvisados, direto da cabeça. Sabe quando você vê uma luta de MMA e o lutador sabe que nocauteou o oponente? Ele nem precisa ver o outro cair, e simplesmente vai embora… Eu fiz isso: saí direto. Pensei: “É isso.” Foi difícil. Mais difícil do que consegui expressar em palavras. Mas achei que o melhor a fazer era canalizar aquela energia através da bateria.
COSCARELLI: A jornada de vocês — sua e de sua esposa, Kourtney — em busca da gravidez é documentada em “The Kardashians”, mas não por completo. Em “Louder than fear”, vocês compartilham a história angustiante de um aborto espontâneo que ela sofreu antes de terem o Rocky, que hoje tem 2 anos. Como vocês decidiram que aquele era o espaço ideal para compartilhar essa parte da trajetória do casal?
Acho que, quando há algo que pode beneficiar as pessoas ou ajudá-las a se identificar com uma situação, é sempre um sinal verde. Ela está sempre tentando fazer coisas assim. Então, nossa jornada — passando por abortos espontâneos, depois pela fertilização in vitro (que não deu certo) e, finalmente, pela gravidez natural — é uma história com a qual muita gente consegue se identificar.
CARAMANICA: Seus filhos mais velhos, especialmente o Landon e a Alabama, são muito populares na internet. Você tem esse histórico na TV de reality show e é uma estrela. Como você conversa com eles sobre lidar com essa parte do amadurecimento?
É muito difícil. Quer dizer, meu filho me ligou outro dia e disse: “Ei, me convidaram para participar do ‘The Voice’.” E eu respondi: “Cara, você é estiloso demais para isso.” Tenho que dizer a ele — e você pode achar que estou me contradizendo, já que me viu tocando bateria no “American Idol” com a Mary J. Blige, mas enfim, eu sou diferente… Você tem que pensar nos seus ídolos. Se o seu ídolo é o Kurt Cobain, será que o Kurt Cobain participaria do “The Voice”?
CARAMANICA: Você se sente protetor em relação à forma como eles se expõem na internet? Às vezes a gente vê um deles se envolvendo em alguma confusão on-line.
Eu dou o exemplo. Antigamente, eu quase brigava com paparazzi. Não me orgulho nada disso. Eu costumava perder a cabeça quando as pessoas nos seguiam ou por coisas bobas; eu reagia rápido ou partia para o confronto. Mas hoje penso: não é por aí. É tudo apenas ruído. Continue seguindo o caminho que você está trilhando.