Operação Omertá: o que se sabe sobre facção nas eleições e vereadores presos no Ceará
Fonte: gcmais.com.br | Data: 12/08/2026 08:19:21
Operação prendeu sete pessoas, incluindo três vereadores, e apura suspeita de coação de eleitores, cobrança de valores e ameaças a eventos políticos

A Operação Omertá prendeu sete pessoas em Sobral, no norte do Ceará, nesta terça-feira (11), em uma investigação que apura a suposta interferência de uma facção criminosa nas eleições municipais de 2024 e no processo eleitoral de 2026. Entre os presos estão três vereadores do município: Carlos do Calisto (PSB), Junim do Povo (Podemos) e Mário Vicktor (União).
Segundo a investigação, integrantes do Comando Vermelho teriam utilizado ameaças e coação para influenciar a escolha de eleitores em determinadas áreas da cidade. O inquérito também apura a suspeita de que candidatos precisariam pagar valores para realizar campanhas em bairros sob influência da organização criminosa.
Os valores citados pelos investigadores chegam a R$ 60 mil. Conforme os elementos reunidos na apuração, candidatos sem mandato teriam que pagar R$ 30 mil, enquanto aqueles que já exerciam mandato seriam cobrados em R$ 60 mil.
A operação foi realizada pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Ceará (FICCO/CE), em conjunto com o Ministério Público Eleitoral, por meio da 3ª Promotoria Eleitoral e do Grupo Auxiliar Eleitoral (GAEL).
O que é a Operação Omertá
A Operação Omertá foi deflagrada para aprofundar uma investigação iniciada em 2024 sobre a possível participação de integrantes de uma organização criminosa na tentativa de interferir nas eleições municipais de Sobral.
O trabalho reuniu depoimentos e outros elementos para apurar como os criminosos teriam atuado durante o período eleitoral. A investigação também avançou sobre fatos relacionados ao processo eleitoral de 2026. Segundo os investigadores, eventos e reuniões políticas teriam sido cancelados depois de ameaças atribuídas à facção. Entre as ameaças citadas estão riscos de morte e ataques contra estabelecimentos ligados a pessoas responsáveis pela organização dos eventos.
A operação alcançou integrantes da organização criminosa e pessoas ligadas à atividade política que, segundo a investigação, teriam se beneficiado ou participado do suposto esquema. Ao todo, a Justiça autorizou 14 mandados de prisão preventiva, 25 mandados de busca e apreensão e cinco medidas de afastamento cautelar de cargos públicos.
Dos 14 mandados de prisão, sete foram cumpridos em Sobral. Outros sete alvos não foram localizados e são considerados foragidos. Conforme as informações da investigação, existe a suspeita de que parte deles esteja no Rio de Janeiro.
Como a facção teria interferido nas eleições em Sobral
A investigação aponta que a organização criminosa teria buscado controlar a atuação de candidatos em determinados bairros de Sobral. Uma das formas de interferência investigadas seria a cobrança de valores para permitir que candidatos entrassem em determinadas áreas para realizar atividades de campanha.
Além da questão financeira, os investigadores identificaram situações em que eventos políticos teriam sido cancelados depois de ameaças. A suspeita é de que a medida buscasse limitar a circulação de determinados candidatos e influenciar a escolha dos moradores dessas regiões.
O inquérito também apura possível coação de eleitores. Nesse cenário, a atuação atribuída à organização criminosa teria ultrapassado a tentativa de obter vantagens financeiras de candidatos e alcançado diretamente o processo de escolha dos eleitores.
As autoridades ainda buscam identificar a extensão dessa suposta interferência e quais pessoas teriam participado de cada etapa.
Quanto seria cobrado dos candidatos
Um dos pontos de destaque da investigação é a suposta cobrança de um “pedágio” para permitir a realização de campanhas em áreas sob influência da facção. Os valores mencionados na apuração chegam a R$ 60 mil. Segundo os investigadores, candidatos que não tinham mandato seriam cobrados em R$ 30 mil, enquanto aqueles que já exerciam mandato teriam que pagar R$ 60 mil.
A suspeita é de que o pagamento funcionasse como uma espécie de autorização para que candidatos pudessem circular e realizar atividades de campanha em determinados bairros. Os três vereadores presos são investigados sob a suspeita de terem efetuado pagamentos desse tipo. Conforme a apuração, os valores estariam relacionados à tentativa de permitir a realização de campanhas nas áreas sob influência da organização criminosa.
As acusações, entretanto, permanecem no campo da investigação. A participação e a responsabilidade individual de cada investigado ainda deverão ser analisadas no decorrer do processo.
Quem são os vereadores presos na Operação Omertá
Entre os sete presos em Sobral estão três vereadores do município: Carlos do Calisto, do PSB; Junim do Povo, do Podemos; e Mário Vicktor, do União Brasil. Além da prisão preventiva, os três parlamentares foram afastados dos cargos por um período inicial de 180 dias.
De acordo com a investigação, os vereadores são suspeitos de terem efetuado o pagamento do chamado “pedágio” cobrado pela facção para permitir a realização de campanha em determinadas regiões. O objetivo atribuído ao suposto esquema seria interferir na escolha dos eleitores e favorecer candidatos que aceitassem as condições impostas pelo grupo criminoso.
Os outros quatro presos em Sobral não tiveram as identidades divulgadas. Entre eles está um homem apontado como chefe da organização criminosa e que já estava preso. Ele é marido de uma policial militar também investigada na operação.
Quais são os outros alvos da investigação
A Operação Omertá também atingiu pessoas que não ocupam cargos eletivos. Entre os investigados estão integrantes da organização criminosa, uma policial militar, um assessor jurídico da Câmara Municipal de Sobral, um advogado e outros agentes públicos.
A policial militar investigada é soldado da corporação e ingressou na Polícia Militar do Ceará em 2022. Ela é casada com um homem apontado como chefe de uma facção criminosa com atuação em Sobral. O marido já estava preso e foi novamente alvo de mandado de prisão durante a operação. A Justiça também determinou o afastamento da policial do cargo por 180 dias.
Durante o cumprimento das medidas judiciais, um telefone celular pertencente a ela foi apreendido. O papel que teria sido desempenhado pela policial dentro da suposta estrutura criminosa não foi divulgado. Também foi determinado o afastamento, pelo prazo de 180 dias, de um assessor jurídico da Câmara Municipal de Sobral. A identidade dele não foi divulgada, assim como os detalhes de sua possível ligação com os fatos investigados.
Outro alvo é um advogado que, conforme a investigação, seria suspeito de integrar a estrutura da organização criminosa. Segundo os investigadores, ele teria funções relacionadas aos núcleos de liderança e execução de ordens destinadas a interferir no processo eleitoral.
O que dizem partidos e defesa dos vereadores
A defesa do vereador Mário Vicktor, representada pelo advogado Wentony Morais, afirmou que ainda não teve acesso integral aos autos da investigação. “Assim que tivermos conhecimento do conteúdo e dos elementos do processo, faremos a devida análise. Após essa avaliação, nos manifestaremos oportunamente à imprensa”, informou a defesa.
A Federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas, informou que solicitou às direções estaduais das duas siglas a abertura de um procedimento interno para apurar a conduta de Mário Vicktor, filiado ao União Brasil.
O PSB, partido de Carlos do Calisto, afirmou que a abertura de eventual processo ético deve partir do diretório municipal da legenda. Segundo o partido, existe um procedimento previsto no estatuto para a análise de casos dessa natureza pela Comissão de Ética.
Como ficam as investigações sobre as eleições de 2026
A investigação não se limita às eleições municipais de 2024. As autoridades também analisam possíveis interferências no processo eleitoral de 2026. Segundo os investigadores, a atuação da facção teria continuado neste ano, com ameaças que resultaram no cancelamento de eventos e reuniões de políticos.
O Ministério Público Eleitoral participa da apuração por meio da 3ª Promotoria Eleitoral e do Grupo Auxiliar Eleitoral. A operação busca reunir elementos para identificar como a organização criminosa teria atuado, quais políticos teriam sido beneficiados e qual teria sido a extensão da eventual interferência sobre os eleitores.
Os sete alvos dos mandados de prisão que não foram encontrados continuam sendo procurados. Conforme as informações divulgadas, os investigadores acreditam que parte deles possa estar escondida no Rio de Janeiro.
O Ministério Público do Ceará informou que articula com forças de segurança de outros estados o cumprimento dos mandados contra os suspeitos que permanecem foragidos. A apuração ainda está em andamento e deverá avançar com a análise do material apreendido, depoimentos e demais elementos reunidos pelas autoridades.
O caso envolve a suspeita de utilização de uma organização criminosa para interferir na atividade política e na escolha dos eleitores em Sobral. Além da cobrança de dinheiro de candidatos, os investigadores apuram ameaças, coação e restrições à realização de eventos políticos.