IBGE e ONU-Habitat debatem desafios na América Latina
Fonte: wikifavelas.com.br | Data: 14/08/2026 21:30:01

O verbete detalha uma série de webinários organizados pelo IBGE e pela ONU-Habitat, em abril de 2026, voltados ao intercâmbio de dados sobre favelas e assentamentos informais na América Latina. Representantes do Brasil, Argentina e Colômbia discutem como o mapeamento geográfico e a precisão estatística são fundamentais para tirar essas populações da invisibilidade e fundamentar políticas públicas eficazes.
Autoria: Equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco.
Apresentação
O Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [1](IBGE) promovem uma série de webinários dedicada ao fortalecimento da produção e gestão de dados urbanos — desagregados, territorializados e comparáveis — essenciais para orientar políticas públicas baseadas em evidências e monitorar o progresso rumo aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Essa agenda é especialmente relevante para favelas e comunidades urbanas, onde vivem mais de um bilhão de pessoas no mundo, mas que ainda permanecem sub-representadas nos sistemas estatísticos tradicionais.
Na América Latina e no Sul Global, a produção de dados sobre esses territórios enfrenta desafios estruturais, metodológicos e institucionais, incluindo limitações na coleta, na delimitação territorial, na integração entre dados estatísticos e geoespaciais e na harmonização de conceitos. Como resultado, os dados disponíveis são frequentemente pouco comparáveis e insuficientes para análises integradas em diferentes escalas.
Avançar no monitoramento do ODS 11 — especialmente da Meta 11.1, relacionada à habitação adequada e à urbanização de assentamentos informais — exige maior interoperabilidade entre fontes de dados, alinhamento metodológico e diálogo contínuo entre atores que atuam em diferentes níveis. Nesse contexto, o ONU-Habitat desempenha um papel central de articulação entre agendas globais, sistemas estatísticos nacionais e realidades locais.
Esses desafios vêm sendo discutidos em iniciativas como a Coalizão Global de Dados Urbanos (GUDC) e o Grupo de Trabalho Intergovernamental sobre Moradia Adequada para Todos (OEWG-H), que buscam fortalecer a colaboração internacional e promover um ecossistema de dados mais integrado e eficaz.
Diferentes atores — como institutos nacionais de estatística, governos locais, instituições de planejamento e organizações da sociedade civil — desempenham papéis complementares na produção de dados. A articulação entre esses níveis é fundamental para ampliar a cobertura, a qualidade e a relevância das informações, mas ainda constitui um desafio central.
A série de webinários busca promover o diálogo técnico e institucional entre esses atores, fomentar a troca de experiências e apoiar a convergência de conceitos, métodos e padrões. Ao reunir experiências da América Latina e do Sul Global e articular perspectivas globais, nacionais e locais, a iniciativa contribui para o fortalecimento de sistemas de dados urbanos mais integrados e para a formulação, implementação e monitoramento de políticas públicas voltadas à redução das desigualdades urbanas.
Participantes
- Marcio Pochmann
Instituição: IBGE
Cargo: Presidente do IBGE
Economista brasileiro, com trajetória acadêmica e atuação em políticas públicas e gestão estatal. Presidiu instituições de pesquisa e planejamento no Brasil e tem histórico ligado à formulação de políticas de desenvolvimento, trabalho e economia. À frente do IBGE, atua na coordenação da produção estatística oficial do país e na integração de dados para políticas públicas.
Destacou o compromisso do IBGE e do ONU-Habitat com a produção de dados que deem visibilidade a favelas e assentamentos informais, defendendo o fortalecimento da cooperação internacional para gerar políticas públicas mais adequadas e cidades mais justas e sustentáveis.
- Ana Cláudia Rossbach
Instituição: ONU-Habitat
Cargo: Diretora-executiva do ONU-Habitat
Economista brasileira, com ampla experiência internacional em habitação, políticas urbanas e assentamentos informais. Atua em agendas globais ligadas ao desenvolvimento urbano sustentável, com foco em redução de desigualdades urbanas e implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Enfatizou que produzir dados mais precisos e inclusivos sobre favelas e assentamentos é essencial para orientar políticas públicas eficazes, acelerar a Agenda 2030 e evitar que comunidades sejam invisibilizadas nos sistemas estatísticos.
- Letícia Giannella
Instituição: IBGE (Diretoria de Geociências)
Cargo: Gerente de Favelas e Comunidades Urbanas
Pesquisadora e gestora na área de geociências aplicadas a estatísticas territoriais. Atua na produção de dados urbanos e no mapeamento de favelas e comunidades, contribuindo para o desenvolvimento de metodologias de análise territorial no IBGE.
Apontou que a produção de dados urbanos é um grande desafio global e que o IBGE busca avançar nesse campo, embora ainda enfrente limitações para garantir que nenhum território fique de fora das estatísticas oficiais.
- Claudio Stenner
Instituição: IBGE / ONU (grupo técnico internacional)
Pesquisador do IBGE, com atuação em geoinformação, estatísticas geoespaciais e integração de dados. Participa de grupos técnicos internacionais ligados à padronização e integração de informações estatísticas e espaciais.
Segundo a programação do evento, participou como painelista discutindo integração de dados estatísticos e geoespaciais e metodologias de produção de informações comparáveis entre países.
- Carlos Alberto Durán Gil
Instituição: DANE (Colômbia)
Especialista do Departamento Administrativo Nacional de Estatística da Colômbia. Atua em produção e análise de estatísticas públicas, especialmente em temas urbanos e sociais.
Painelista representando e trazendo a experiência colombiana na produção de dados urbanos e seus desafios estatísticos em assentamentos informais.
- Juan Manuel D’Attolli
Instituição: Registro Nacional de Bairros Populares (Argentina – RENABAP)
Técnico ligado ao sistema argentino de registro de bairros populares, com atuação em políticas de mapeamento e formalização de assentamentos urbanos.
Apresentou a experiência argentina na construção de registros nacionais de bairros populares e uso de dados para políticas de urbanização.
- Diego Aulestia (moderador)
Instituição: CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe)
Economista com atuação em políticas públicas, desenvolvimento urbano e planejamento regional na América Latina. Trabalha na CEPAL com foco em desigualdades urbanas e integração de políticas sociais.
Atuou como moderador do debate, conduzindo as discussões entre os representantes latino-americanos.
Resumo
O debate apresentado aborda uma iniciativa conjunta entre o IBGE e a ONU-Habitat voltada à discussão de metodologias de produção de dados sobre favelas e comunidades urbanas na América Latina. O tema evidencia a importância da construção de estatísticas mais precisas para compreender as condições de vida nesses territórios e subsidiar políticas públicas voltadas à redução das desigualdades sociais.
Segundo representantes do IBGE, o instituto acompanha o crescimento das periferias urbanas brasileiras desde a década de 1950. Contudo, uma mudança significativa ocorreu no Censo Demográfico de 2022, quando a expressão “aglomerados subnormais” foi substituída pela denominação “favelas e comunidades urbanas”. Essa alteração terminológica ultrapassa uma simples revisão técnica, configurando-se como um reconhecimento político e social das reivindicações de moradores, lideranças comunitárias e movimentos sociais, com o objetivo de reduzir a invisibilidade histórica dessas populações.
A produção de dados específicos sobre esses territórios é considerada fundamental para o desenvolvimento de políticas públicas mais eficientes. De acordo com representantes da ONU-Habitat, aproximadamente 1 bilhão de pessoas vivem em favelas no mundo. No Brasil, esse contingente corresponde a cerca de 16,4 milhões de habitantes, equivalente a aproximadamente 8% da população nacional. A ausência de dados territorializados tende a ocultar desigualdades estruturais, especialmente em indicadores relacionados ao acesso ao saneamento básico, à educação superior e a outros direitos sociais.
O processo de mapeamento dessas áreas combina recursos tecnológicos e trabalho de campo. Entre os principais instrumentos utilizados estão as imagens de satélite, empregadas para identificar padrões urbanos e características espaciais das moradias; os dados fornecidos por prefeituras e planos diretores municipais; e, sobretudo, a participação de lideranças comunitárias, responsáveis por contribuir na delimitação territorial e na validação das informações coletadas.
Experiências semelhantes também vêm sendo desenvolvidas em outros países da América Latina. Na Argentina, foi criado o Registro Nacional de Barrios Populares (Renabap), destinado ao mapeamento de bairros sem acesso formalizado a serviços básicos, como água e energia elétrica, além de atuar na proteção das populações contra remoções forçadas. Na Colômbia, iniciativas recentes têm incorporado o uso de inteligência artificial para identificar assentamentos urbanos informais que frequentemente não são captados pelos censos tradicionais realizados em intervalos de dez anos.
Em síntese, a produção e a qualificação de dados sobre favelas e comunidades urbanas representam instrumentos essenciais para promover inclusão social e planejamento urbano mais equitativo. O reconhecimento estatístico desses territórios possibilita que o poder público desenvolva ações voltadas à garantia de direitos fundamentais, como saneamento, saúde, infraestrutura e segurança da posse da terra, contribuindo para a integração efetiva das favelas ao espaço urbano formal.
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