Morte de jovem após cirurgias plásticas chama atenção para segurança em procedimentos estéticos
Fonte: oliberal.com | Data: 15/08/2026 16:36:44
A busca por procedimentos estéticos pode representar a realização de um sonho, mas também exige uma decisão cercada de cuidados. Antes de escolher uma cirurgia plástica, o paciente precisa conhecer os riscos, pesquisar a formação e o histórico do profissional, verificar as condições do local onde o procedimento será realizado e entender como será o acompanhamento no pós-operatório. Quando algo dá errado, a situação pode envolver não apenas consequências para o paciente, mas também direitos e responsabilidades que precisam ser esclarecidos.
O Brasil está no topo do ranking mundial de cirurgias plásticas. Segundo o novo relatório da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), principal organização global da área, divulgado em maio deste ano, o país realizou 2.354.513 procedimentos cirúrgicos em 2024, o maior número do mundo. Quando são considerados procedimentos cirúrgicos e não cirúrgicos juntos, porém, os Estados Unidos aparecem na liderança.
Entre os brasileiros, a lipoaspiração foi o procedimento cirúrgico mais realizado em 2024, correspondendo a 9,2% do total de procedimentos estéticos feitos no país. Na sequência aparecem aumento das mamas (7,4%), blefaroplastia (7,4%), abdominoplastia (6,2%) e gluteoplastia com implante (5,4%). Os números mostram a dimensão de um mercado que envolve milhões de pessoas e reforçam a importância de discutir não apenas os resultados buscados, mas também os riscos e os cuidados necessários antes de uma intervenção.
Em Belém, o debate ganhou ainda mais repercussão após a morte de Giovanna Coelho Gomes, no dia 8 deste mês, um dia depois de ela realizar cirurgias plásticas em um hospital da capital. Segundo a família, Giovanna pagou R$ 70 mil pelo procedimento realizado pelo cirurgião plástico André Melo, juntamente com o anestesista Cesar Collyer. O caso é investigado pela Polícia Civil. O Conselho Regional de Medicina do Estado do Pará (CRM-PA) também acompanha a situação. A causa exata da morte ainda não foi divulgada.
Sete dias após a morte da jovem, familiares e amigos se reuniram nesta sexta-feira (14) para a missa de sétimo dia de Giovanna, realizada na Igreja Santo Antônio Maria Zacarias, no bairro do Umarizal, em Belém. A cerimônia foi marcada por momentos de oração, emoção e homenagens à jovem.
Durante a celebração, a irmã de Giovanna, Ana Coelho, falou à reportagem sobre a dor da família diante da perda. Bastante emocionada, ela afirmou que os primeiros sete dias foram marcados pela intensidade do luto e pela dificuldade de lidar com a ausência da irmã. “Uma grande dor, um grande vazio, estamos totalmente devastados, sem saber o que fazer. Passaram-se sete dias e tem sido dias muito intensos. Cada vez mais a ausência da minha irmã é sentida. A gente não vai mais encontrar com ela aqui em carne e isso dói muito. Só quem já passou por essa dor pode falar o que é isso”, diz Ana Coelho.
Ana Coelho, irmã de Giovanna (Foto: Cristino Martins | O Liberal)
A irmã também relembrou momentos da convivência com Giovanna e falou sobre a dificuldade de imaginar a vida sem a presença dela. Entre as lembranças, citou a relação da jovem com o filho e os cuidados que ela tinha com a mãe da família. “Não consigo acreditar que ela não vai mais entrar pela porta da minha casa e falar: ‘E aí, mana? Eu vim ver o Tutuco’ [que é o meu filho]. Que eu não vou poder pedir para ela cuidar da nossa mãe, que ela sempre cuidou. Que ela não vai mais estar aqui com a gente, que ela não vai envelhecer comigo, que ela não vai mais poder partilhar a vida com a gente. É muito difícil. Só Deus para segurar as nossas mãos e nos dar forças nesse momento”, fala Ana Coelho.
O pai da jovem, Roberto Carlos Pires Gomes, afirma que a filha tinha o desejo de realizar os procedimentos havia algum tempo e que a família não era contrária à decisão. Para ele, o problema teria sido a escolha do profissional. “Na verdade, isso era um sonho da Giovana. Ela batalhou, correu atrás para realizar o sonho dela. Isso já estava na mente dela há algum tempo”, conta.
Segundo Roberto, Giovanna inicialmente fazia acompanhamento com outro médico e já havia pago uma parcela para realizar o procedimento. De acordo com o pai, posteriormente ela teria conhecido Karol Cardoso, apontada pela família como secretária de André Melo, e sido convencida a mudar de profissional. “A gente tem informação de que a Giovanna vinha fazendo um acompanhamento com outro médico e, em determinado momento da vida dela, ela conheceu a secretária do André Melo e essa secretária teria incentivado ela a fechar contrato com o André e fazer todos esses procedimentos com ele”, relata.
Roberto afirma que a filha e Karol mantiveram uma relação de proximidade durante alguns meses e que a jovem teria sido convencida a realizar os procedimentos com o médico. “Ela foi induzida por essa secretária”, acusa.
A história de Giovanna, segundo o pai, também serve de alerta para quem pretende realizar uma cirurgia plástica. Para ele, pesquisar a formação e o histórico do profissional é uma etapa que não pode ser ignorada. Roberto afirma que, após a morte da filha, a família encontrou relatos e informações na internet que considera preocupantes sobre o médico. Ele também diz ter identificado processos judiciais relacionados ao profissional. Essas informações, porém, precisam ser verificadas individualmente e não significam, por si só, que tenha havido erro médico ou responsabilidade pelas ocorrências relatadas.
Para o pai, uma pesquisa mais aprofundada poderia ter influenciado a decisão da filha. “Pesquise. Busca. Hoje a internet está mostrando tudo aí. Puxa se tem processo. Puxa se tem denúncia. Puxa o histórico do médico”, orienta.
Escolha do profissional é fundamental para uma cirurgia segura
A cirurgiã plástica Elizângela Rodrigues de Oliveira, docente do Instituto de Educação Médica (Idomed), também considera fundamental que o paciente verifique a formação do profissional antes de tomar uma decisão. “O primeiro passo é verificar se o profissional possui registro ativo no CRM e se é, de fato, especialista em Cirurgia Plástica. O paciente pode consultar essas informações nos canais oficiais do Conselho Regional de Medicina ou no site da SBCP”, orienta.
Além da formação, segundo a médica, o paciente deve conhecer a indicação do procedimento, a técnica que será utilizada, os riscos e as possíveis complicações. “É importante avaliar a responsabilidade do profissional naquele procedimento específico, conversar sobre indicação, técnica, riscos, possíveis complicações e resultados esperados. Também é fundamental que o paciente desconfie de promessas de resultados perfeitos ou garantidos”, afirma.
Quatro procedimentos de uma vez?
No caso de Giovanna, outro ponto questionado pela família é a realização de quatro procedimentos na mesma cirurgia. Segundo Roberto, André Melo teria sido o único profissional que aceitou fazer todos de uma só vez. “Foi o único que aceitou e outra coisa: em um curto período de tempo”, afirma o pai.
A possibilidade de combinar procedimentos, entretanto, não pode ser definida apenas pela quantidade de cirurgias. De acordo com Elizângela, em alguns casos é possível associar procedimentos, mas não existe um número universal considerado seguro para todos os pacientes. “Em alguns casos, sim, mas não existe um número universal de procedimentos que seja considerado seguro para todos os pacientes”, explica.
A médica afirma que a decisão deve considerar fatores como estado de saúde, idade, exames pré-operatórios, porte e duração das cirurgias, perda sanguínea esperada, necessidade de internação, risco de trombose e capacidade de recuperação no pós-operatório. “Combinar procedimentos de menor porte pode ser muito diferente de realizar várias cirurgias extensas simultaneamente, o que aumenta os riscos”, comenta.
Por isso, a recomendação não é buscar o maior número possível de procedimentos em uma única operação. “O objetivo não deve ser realizar o máximo de procedimentos possível em uma única cirurgia, mas encontrar o equilíbrio entre segurança, indicação e benefício para o paciente”, frisa.
Segurança também depende da estrutura
A escolha do profissional é apenas uma parte da preparação. Antes da cirurgia, o paciente também precisa conhecer o local onde será atendido e saber se existe estrutura para lidar com possíveis intercorrências. “O paciente deve conhecer previamente onde será realizada a cirurgia e qual é a estrutura disponível para atender eventuais intercorrências”, orienta Elizângela.
Segundo a médica, o estabelecimento deve ser regularizado e possuir estrutura compatível com o porte do procedimento, equipe treinada, condições adequadas de esterilização, suporte anestésico e capacidade de atendimento em situações de emergência.
Também é importante saber quem será responsável pela anestesia, quem integra a equipe cirúrgica e como será feito o acompanhamento depois da cirurgia. “Também é importante saber quem será responsável pela anestesia, quem compõe a equipe cirúrgica, como será feito o acompanhamento pós-operatório e para onde o paciente será encaminhado caso ocorra uma complicação”, destaca.
Para Elizângela, preço, localização e aparência da clínica não devem ser os principais critérios. “Preço, localização e aparência da clínica são aspectos secundários. Segurança e estrutura devem estar sempre em primeiro lugar”, frisa.
Os sinais de alerta
A médica também aponta comportamentos que devem fazer o paciente repensar a decisão de realizar um procedimento com determinado profissional ou estabelecimento. Entre eles estão a impossibilidade de comprovar formação ou especialização, promessas de resultados garantidos ou de procedimentos “sem riscos”, pressão para realizar a cirurgia rapidamente ou efetuar o pagamento imediatamente, valores muito abaixo do habitual sem justificativa clara e falta de informações sobre o hospital, o anestesista ou a equipe.
“Existem alguns sinais que merecem bastante atenção: profissional que não consegue comprovar sua formação ou especialização; promessa de resultado garantido ou ‘sem riscos’; pressão para realizar a cirurgia rapidamente ou fazer o pagamento imediatamente; oferta de valores muito abaixo do habitual sem uma justificativa clara”, alerta.
Ela também recomenda cautela com imagens utilizadas para divulgar resultados. “Fotos de resultados sem contexto, sem explicação ou utilizadas como promessa de que o mesmo resultado ocorrerá com todos os pacientes” são outro sinal de alerta, afirma.
A orientação é não escolher apenas pelo preço ou pela promessa de transformação. “Em cirurgia plástica, o paciente não deve escolher apenas pelo preço ou pela promessa de resultado. Deve escolher segurança, formação, estrutura e uma relação de confiança com o profissional”, pontua.
A médica resume a orientação em uma frase: “Um bom resultado começa muito antes da cirurgia: começa na escolha consciente do profissional, na indicação correta e em uma estrutura preparada para oferecer segurança ao paciente”, conclui.
Quando a aparência vira sofrimento
A decisão de realizar um procedimento estético, porém, não envolve apenas questões médicas. A relação do paciente com a própria imagem também pode influenciar a escolha. Para o psicólogo Marcelo Moraes Moreira, a busca pelo corpo ou pelo rosto considerados perfeitos pode estar relacionada não apenas à beleza, mas também à necessidade de aprovação e aceitação.
“A busca pelo corpo, pelo rosto e por essa aparência perfeita não é só pela beleza em si, mas por amor e aprovação. Nós nascemos, segundo Freud, totalmente dependentes do olhar do outro para nos sentirmos seguros”, afirma.
Segundo Marcelo, a sociedade alimenta a ideia de que alcançar determinado padrão de beleza seria suficiente para garantir aceitação e afastar a rejeição. “Atualmente, a sociedade vende a ideia ilusória de que, se você tiver um corpo perfeito — e esse ‘perfeito’ é muito relativo —, será finalmente amado, aceito, livre de qualquer rejeição”, comenta.
O espelho das redes sociais
As redes sociais, segundo o psicólogo, podem agravar essa relação ao apresentar imagens modificadas por filtros e edições. “Quando os filtros e as edições presentes nas redes sociais entram em cena, nós passamos a nos comparar com uma versão irreal de nós mesmos”, diz.
Para Marcelo, a consequência pode ser uma rejeição da própria aparência real. “A gente acaba obviamente se apaixonando por essa imagem, entre aspas, perfeita que a tela nos mostra. Obviamente, a gente passa a odiar e rejeitar o próprio rosto no espelho da vida real”, alerta.
O problema aparece quando o cuidado com a aparência deixa de ser uma escolha e passa a dominar a vida da pessoa. Segundo o psicólogo, cancelar compromissos, evitar situações sociais ou pensar constantemente em supostos defeitos físicos são sinais que merecem atenção. “O problema é quando insistentemente a gente cede a uma pressão interna extremamente cruel e punitiva que faz com que a gente comece a sentir que não tem valor algum se não estiver dentro de um determinado padrão”, afirma.
Ele acrescenta: “Quando o nosso corpo paralisa nossa rotina, nos faz cancelar passeios ou consome os nossos pensamentos o dia inteiro, essa dor deixa de ser estética e vira um sofrimento psicológico profundo e, portanto, precisa de uma atenção técnica profissional”, alerta.
Uma cirurgia não resolve necessariamente uma insatisfação
Para Marcelo, quando a insatisfação com a própria aparência tem origem emocional, uma mudança física pode não ser suficiente para resolver o problema. “Se essa insatisfação nasce de um vazio no peito ou de uma baixa autoimagem, nenhuma cirurgia vai resolver. O procedimento mexe na pele, no nariz, no busto, mas não muda o jeito que a pessoa se sente por dentro”, explica.
Ele afirma que, nesses casos, a insatisfação pode simplesmente migrar para outra parte do corpo. “Se a mente continuar programada para se concentrar nos ‘defeitos’, assim que o inchaço da cirurgia passar, a insatisfação vai simplesmente mudar para outra parte do corpo”, comenta.
Por isso, o psicólogo considera importante que o paciente reflita sobre a motivação antes de decidir realizar uma intervenção. “O suporte psicológico ajuda a responder algumas questões preliminares importantes: eu estou fazendo isso por um desejo meu de me cuidar ou para tentar agradar ou provar algo para alguém?”, questiona.
A preparação também pode ajudar a alinhar expectativas. “A pessoa tem que entender que a cirurgia pode até modificar o corpo, mas não vai assegurar sucesso instantâneo ou simplesmente fazer sumir uma tristeza profunda”, pontua.
Para Marcelo, falar sobre a relação com o próprio corpo em um espaço adequado pode ser mais importante do que tentar solucionar uma questão emocional por meio de novas intervenções. “Em vez de a gente tentar esculpir essa tristeza nesse corpo ou essa ansiedade pelo momento seguinte, o melhor caminho seria falar sobre isso em um espaço seguro adequado, como no caso a terapia”, orienta.
Ele defende uma relação menos pautada pela aparência. “A gente precisa entender nossos limites, aceitar nossas marcas, aceitar o processo de envelhecimento e as imperfeições como algo que faz parte da vida real”, diz.
Segundo o psicólogo, a aparência é apenas uma parte da identidade. “Nós somos muito superiores a uma imagem. A imagem nos apresenta, mas o que de fato nos vincula às pessoas, o que faz a gente cativar o outro, é a nossa inteligência, o afeto que a gente consiga demonstrar, o nosso senso de humor, a nossa história, a nossa experiência, a nossa trajetória”, afirma.
Quando algo dá errado
Mesmo com todos os cuidados, procedimentos médicos podem apresentar complicações. Entre as possíveis ocorrências estão sangramento, hematoma, infecção, seroma, abertura de pontos, alterações de cicatrização, alterações de sensibilidade, assimetrias, trombose venosa profunda e embolia pulmonar.
Elizângela ressalta que cada procedimento também possui riscos específicos e que sintomas inesperados não devem ser ignorados. “Toda cirurgia possui riscos. Em procedimentos específicos, existem ainda complicações próprias de cada técnica”, afirma.
A médica orienta que o paciente procure ajuda quando perceber alterações inesperadas ou que estejam evoluindo rapidamente. “Diante de um sintoma inesperado ou que esteja evoluindo rapidamente, o paciente não deve esperar para ver se melhora sozinho. Deve entrar em contato com a equipe responsável ou procurar atendimento de urgência quando necessário”, alerta.
No caso de Giovanna, a família afirma que a jovem teria apresentado sinais de sofrimento e pedido ajuda após o procedimento. Roberto diz ter recebido relatos de que, em determinado momento, o médico e o anestesista não estariam no local. “Ela estava agonizando na maca, pedindo ajuda. ‘Me ajuda aqui, pelo amor de Deus’. […] O médico não estava, o anestesista não estava e essa secretária estava lá, mas não fez nada”, relata.
Roberto também afirma que André Melo teria comparecido ao hospital após uma parada cardíaca, mas, segundo a avaliação da família, não teria participado diretamente das manobras de reanimação. “Ele foi e só olhou. Não ficou meia hora lá e foi embora”, afirma.
O pai também acusa o médico e o anestesista de terem deixado o local em determinado momento e critica a ausência de contato posterior com a família. “Ele não nos procurou. […] Mandou uma notinha lá na rede social. A gente não quer saber de nota. Por que ele não nos procurou?”, questiona.
Complicação não é sinônimo de erro médico
A distinção é importante também do ponto de vista jurídico. A advogada Marina Bordallo explica que um resultado adverso, por si só, não comprova a existência de erro profissional. “Complicação não é sinônimo de erro médico. A Medicina trabalha com riscos inerentes e, mesmo quando todos os protocolos são corretamente observados, determinados eventos adversos podem ocorrer”, pontua.
Segundo Marina, para avaliar eventual responsabilidade é necessário analisar uma série de fatores, desde a indicação da cirurgia até o atendimento prestado diante de uma complicação. “A análise deve verificar, entre outros aspectos: se o paciente foi corretamente avaliado antes do procedimento; se havia indicação adequada; se os riscos e alternativas foram devidamente explicados; se houve consentimento esclarecido; se o profissional possuía habilitação e qualificação compatíveis; se foram observados os protocolos e cuidados técnicos; se o estabelecimento apresentava condições adequadas; se houve acompanhamento pós-procedimento; e se a intervenção adotada diante de uma complicação foi rápida e tecnicamente adequada”, explica.
A advogada diferencia ainda os conceitos de negligência, imprudência e imperícia. “Negligência está relacionada, em termos gerais, à omissão ou falta de cuidado; imprudência, à atuação precipitada ou sem a cautela necessária; e imperícia, à falta de conhecimento ou habilidade técnica para a realização do ato”, esclarece.
O advogado Bruno Marcelo de Jesus Martins, especialista em Direito Médico e Hospitalar, também destaca a necessidade de diferenciar risco previsto de eventual falha profissional. Segundo ele, nas cirurgias plásticas estéticas, existe entendimento jurisprudencial específico sobre a chamada obrigação de resultado. “A jurisprudência, especialmente do STJ, pacificou o entendimento de que a cirurgia plástica puramente estética é uma obrigação de resultado”, afirma.
Marina, entretanto, ressalta que esse entendimento não significa responsabilidade automática do profissional em qualquer intercorrência. “Isso não significa responsabilidade automática por qualquer intercorrência: o profissional pode demonstrar que o resultado decorreu de fator imponderável, caso fortuito, força maior ou outra circunstância capaz de afastar sua responsabilidade”, pontua.
Prontuário é fundamental
Quando existe suspeita de irregularidade, a documentação pode ser determinante para esclarecer o que aconteceu. Por isso, os advogados recomendam que pacientes e familiares preservem todos os registros relacionados ao procedimento. “O prontuário médico é uma das provas mais importantes em uma investigação dessa natureza”, afirma Marina.
Segundo ela, devem ser preservados também exames, prescrições, termo de consentimento, contrato, orçamento, comprovantes de pagamento, fotografias, mensagens, e-mails, publicidade do profissional ou da clínica, informações sobre medicamentos ou produtos utilizados e documentos referentes a atendimentos posteriores. “É recomendável também preservar os arquivos digitais em seu formato original, evitando alterações ou edições que possam gerar discussão sobre sua autenticidade”, alerta.
Bruno também considera o prontuário fundamental. “O prontuário médico é a prova mais fundamental em uma ação de erro médico. Ele é o registro cronológico de todo o tratamento e a principal ferramenta para a perícia técnica avaliar a conduta adotada”, destaca.
Em casos de morte, segundo ele, também podem ser importantes documentos como certidão de óbito, laudo do Instituto Médico Legal (IML) e boletim de ocorrência.
Quem pode ser responsabilizado?
A responsabilidade também precisa ser analisada caso a caso. Não necessariamente apenas o médico pode ser responsabilizado por um problema ocorrido durante um procedimento.
Marina explica que o profissional pode responder por sua própria conduta quando ficar demonstrada culpa. “O médico pode responder pessoalmente quando ficar demonstrada sua culpa, isto é, conduta negligente, imprudente ou imperita”, afirma.
A advogada acrescenta que outros integrantes da cadeia de atendimento também podem ser analisados. “Também podem existir outros responsáveis, dependendo do caso concreto: médico anestesista, equipe profissional, empresa responsável por determinado serviço, fabricante ou fornecedor de produto ou equipamento defeituoso, entre outros”, afirma.
Bruno reforça que a análise precisa considerar a participação de cada envolvido. “O médico responde pessoalmente pela falha na sua conduta. A clínica e o hospital respondem como fornecedores de serviço […] quando a falha é do estabelecimento: estrutura inadequada, equipe mal treinada, falta de equipamentos de emergência”, explica.
Direitos em caso de morte
Quando um paciente morre após um procedimento, a família pode buscar esclarecimentos sobre as circunstâncias da morte e ter acesso à documentação necessária para a apuração. Dependendo das conclusões da investigação, podem existir consequências nas esferas civil, ética e criminal.
O advogado Raimundo Fabrício Paixão Albuquerque, que também é psicólogo, explica que uma eventual reparação pode envolver diferentes tipos de danos. “O paciente que sofre uma complicação grave tem direito à reparação integral, considerando os danos materiais, danos morais e, quando há marca ou deformidade permanente, o dano estético, que a Justiça indeniza de forma autônoma”, explica.
Em caso de morte, segundo Raimundo, os familiares também podem ter direitos próprios. “Em caso de morte, a família herda esses direitos e soma os seus próprios, tais como indenização pelo dano moral da perda, custeio do funeral e, se a vítima sustentava a casa, pensão aos dependentes, como prevê o Código Civil”, afirma.
Ele também recomenda que familiares tenham cautela antes de assinar documentos oferecidos após uma complicação. “As medidas imediatas são três. Primeiro, buscar atendimento médico e documentar tudo, do estado clínico às despesas. Segundo, requerer por escrito a cópia integral do prontuário. Terceiro, procurar um advogado antes de assinar qualquer acordo ou termo oferecido pela clínica”, orienta.
Os caminhos para quem busca respostas
Os especialistas explicam que existem diferentes caminhos para pacientes ou familiares que suspeitam de irregularidades. A conduta de um médico pode ser levada ao Conselho Regional de Medicina; irregularidades sanitárias podem ser encaminhadas à Vigilância Sanitária; suspeitas de crime podem ser investigadas pelas autoridades policiais; e eventuais pedidos de indenização são discutidos na Justiça.
Marina explica que a apuração ética é independente de uma eventual ação judicial. “No âmbito ético-profissional, se houver suspeita de infração praticada por médico, o paciente ou a família pode procurar o Conselho Regional de Medicina (CRM) competente. A apuração perante o Conselho possui natureza ético-profissional e é independente da eventual ação judicial”, afirma.
Em relação às condições do estabelecimento, a advogada orienta: “Quando houver suspeita de irregularidades sanitárias, como estabelecimento sem licença, condições inadequadas de higiene, utilização de produtos vencidos ou equipamentos irregulares, deve-se procurar a Vigilância Sanitária local”, explica.
Já em situações que possam configurar crime, pode haver investigação policial. “Na esfera criminal, havendo indícios de que uma conduta culposa tenha causado a morte, pode haver investigação policial e atuação do Ministério Público”, afirma Marina.
Raimundo também destaca a importância de reunir documentos e buscar orientação especializada. “No campo ético, a representação ao Conselho Regional de Medicina apura a conduta do profissional e pode levar de advertência à cassação do registro. No campo criminal, o boletim de ocorrência na delegacia abre a investigação”, explica.
Para Marina, o mais importante é investigar sem antecipar conclusões. “Não presumir imediatamente que houve erro, mas também não aceitar uma explicação genérica de que ‘foi apenas uma complicação’. É necessário investigar”, frisa.
Segundo ela, a conclusão sobre eventual responsabilidade precisa ser construída com base em elementos técnicos. “A resposta juridicamente adequada nasce da conjugação entre documentos, prontuário, consentimento informado, protocolos, registros do atendimento, prova técnica e perícia médica”, conclui.
O alerta da família
No caso de Giovanna, Roberto afirma que a família registrou boletim de ocorrência, buscou assistência jurídica e encaminhou representação ao Conselho Regional de Medicina. Segundo ele, a intenção é esclarecer as circunstâncias da morte e buscar responsabilização caso sejam constatadas irregularidades. “Nós estamos aqui lutando é pela justiça. Giovana não vai voltar mais. Minha filha não vai estar aqui entre a gente mais. Mas o que nós estamos fazendo aqui é para salvar vidas”, afirma.
Roberto afirma que a família busca respostas e não pretende deixar o caso sem esclarecimento. “A gente só quer justiça. Só isso. […] Que seja esclarecido. Que seja muito bem esclarecido”, pontua. “Eu só peço justiça, em nome da Giovana. Para que não se percam outras vidas”, pede.
Posicionamentos
A reportagem procurou a Sociedade de Anestesiologia do Estado do Pará (Saepa) e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. Também foram procurados André Melo, Cesar Collyer e Karol Cardoso para que apresentassem suas versões sobre as circunstâncias da morte de Giovanna.
Em nota enviada por sua assessoria de imprensa, o cirurgião plástico André Melo lamentou a morte da jovem e manifestou solidariedade aos familiares e amigos. Diante da repercussão do caso, o médico afirmou que “as circunstâncias relacionadas ao óbito ainda dependem de análise técnica adequada” e declarou que, neste momento, “não existem elementos conclusivos que permitam antecipar suas causas ou atribuir responsabilidades”.
Segundo Melo, os esclarecimentos necessários serão prestados às autoridades e aos órgãos competentes, com a apresentação das informações e dos documentos pertinentes. O cirurgião também afirmou que não divulgará informações clínicas ou detalhes do atendimento, “por respeito à paciente, à sua família e ao dever de sigilo médico”.
Ao final da manifestação, Melo disse confiar que o caso será esclarecido “com a seriedade, a cautela e o rigor técnico que uma situação tão sensível exige”.