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Antártida’ no Festival de Gramado: um suspense sem tensão

Fonte: otempo.com.br | Data: 16/08/2026 09:39:51

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GRAMADO. Filme de abertura da 54ª edição do Festival de Cinema Brasileiro de Gramado, exibido na noite desta sexta-feira (14) no Palácio dos Festivais, na cidade da serra gaúcha, “Antártida” teve uma recepção tão fria quanto as imagens do cenário de neve e gelo do continente que dá título à produção dirigida por Bruno Safadi.

Realizado longe das locações reais, no maior estúdio virtual da América do Sul, construído no Rio de Janeiro, o longa tem uma narrativa que sofre por sua superficialidade, sem alcançar aquilo que Safadi propôs no palco: um filme de gênero com abordagem intimista. Não consegue ser eficaz como suspense, nem traz profundidade à história.

A trama tem elementos suficientes para elevar a temperatura a partir de um crime ocorrido num lugar inóspito. A base científica brasileira na Antártida passará por uma nevasca intensa, que a deixará praticamente isolada, e é neste momento adverso que uma bela cientista recém-chegada, vivida por Marina Ruy Barbosa, é violentada.

A narrativa se desorienta naquilo que seria a sua espinha dorsal: como a virada do tempo irá expor a fragilidade da organização de uma base de orientação militar. Perde-se de vista a possibilidade de transformar a questão climática na inevitabilidade das transformações socioculturais, mesmo num lugar tão isolado e controlado.

A subcomandante interpretada por Andréa Beltrão terá que enfrentar os colegas oficiais para encontrar o culpado, além de lidar com traumas pessoais. Essas duas situações – a externa e a interna – dialogam pouco, desperdiçando o que seria a força-motriz da história, na qual a personagem poderia ter a sua sanidade colocada à prova.

Na primeira cena, esboça-se algo nesse sentido quando ela parece confusa em meio à neve, à procura do comandante (Antonio Calloni). Essa dubiedade, aliada à questão de gênero num ambiente em que as mulheres estão numericamente em desvantagem (quatro contra oito), amplificaria elementos caros ao suspense, como dúvida e tensão.

Essa opressão nunca é plenamente percebida, primeiramente por conta do roteiro, cujos diálogos pouco colaboram para a criação de um embate psicológico que é fruto de um preconceito estrutural, fazendo da base o microcosmo de um país. Em segundo lugar, a própria direção se revela incapaz de estabelecer uma atmosfera de perigo.

A construção desse clima, fundamental para dar ritmo, poderia ser feita de fora para dentro, com a Antártida se transformando em personagem e levando à exposição de sentimentos e segredos. Os problemas se colocam, porém, de maneira mecânica, por meio de diálogos superficiais que não conseguem impulsionar a narrativa, mas apenas constatar o óbvio.

Se o objetivo era dar um ar claustrofóbico pelo fato de os personagens não poderem sair da base, o artifício também pouco funciona devido às escolhas de câmera, que parece estar ali apenas para registrar as falas. O filme ressente-se da ausência de um olhar onipresente – como se soubesse que algo está para acontecer, algo típico do suspense.

Ao tentar discutir o julgamento moral sofrido pela vítima por ter uma personalidade mais livre – contrastando com a rigidez militar, aqui entendida como reprodutora de preconceitos machistas -, “Antártida” remete-nos prontamente ao drama “Acusados”, filme de Jonathan Kaplan que deu o Oscar de melhor atriz a Jodie Foster em 1989.

Diferentemente de “Acusados”, o longa de Safadi falha ao desenvolver de maneira frouxa essa questão, assim como outro caso de violência contra a mulher dentro da base. O problema é o mesmo: concentrar as ações em diálogos sem intensidade. Faltou mais inquietação e ousadia a um diretor que iniciou sua carreira no cinema autoral.

(*)O repórter viajou a convite da organização do Festival de Cinema de Gramado