Seca global avança e mobiliza discussões na COP17 sobre impactos e soluções
Fonte: portalpoa.com.br | Data: 16/08/2026 11:37:21
A ocorrência de secas deixou de ser um desafio exclusivo das regiões áridas e passou a atingir áreas anteriormente consideradas menos suscetíveis, afetando diversas partes do mundo. Conforme dados da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), houve um aumento de quase 30% na frequência e duração desses eventos desde o ano 2000.
Este aspecto da crise climática será um dos pontos principais na 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), programada para ocorrer em Ulaanbaatar, na Mongólia, entre os dias 17 e 28 de agosto. A secretária executiva da UNCCD, Yasmine Fouad, destaca a necessidade urgente de implementar medidas concretas nos territórios para enfrentar o problema.
“A questão já não é reconhecer a seca como um risco global, mas agir cedo o suficiente para evitar que seus impactos se espalhem pelas comunidades, economias e fronteiras”, afirmou Fouad em entrevista à Agência Brasil.
Estimativas indicam que até 2050, três a cada quatro pessoas no planeta poderão sofrer os efeitos da seca. Além disso, a demanda mundial por água deve superar a oferta em até 40% até 2030.
No contexto brasileiro, todas as cinco regiões do país registraram episódios de seca em julho de 2026, apresentando intensidades variadas. Ao menos 157 municípios foram classificados em situação de seca severa, caracterizada por queda acentuada da umidade no solo, estresse hídrico na vegetação e prejuízos para a agricultura.
O país acompanha esse fenômeno por meio do Monitor de Secas, coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), além dos boletins mensais do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). José Antonio Marengo, coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Cemaden, ressalta que a tendência é de agravamento da situação nos meses seguintes.
“Observamos em todo o território nacional uma tendência de ressecamento, com redução dos volumes de chuva e aumento das temperaturas. Esse desequilíbrio entre precipitação e evaporação pode resultar em intensificação das secas”, analisou Marengo.
Alcance mundial da estiagem
O Observatório Global da Seca destacou que, em julho, a Europa enfrentou temperaturas superiores à média devido a uma prolongada onda de calor. No entanto, a seca tem se manifestado com maior intensidade em diversas outras regiões:
- Europa: Reino Unido, Itália, França, Alemanha, Hungria e Romênia;
- África: Sul e Centro, incluindo Sudão, Etiópia, Zâmbia e Madagascar;
- Oriente Médio: Irã e Omã;
- Ásia Central e Sudeste: Cazaquistão, China e Filipinas.
Esse fenômeno se manifesta de diferentes formas, como a seca meteorológica, caracterizada pela persistência de precipitações abaixo da média por longo período.
A seca agrícola representa a redução da umidade disponível para as plantas, comprometendo lavouras e pastagens.
Já a seca hidrológica afeta rios, reservatórios e aquíferos, causando impactos no abastecimento humano, geração de energia, transporte fluvial e biodiversidade.
Vulnerabilidades regionais e sociais
Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, alerta que a seca não pode ser tratada como um problema isolado.
“Analisando dados do Cemaden dos últimos 30 anos, constatamos episódios severos de seca nas cinco macrorregiões brasileiras”, afirmou o diretor.
Ele acrescentou que determinadas áreas, como o Nordeste e o Norte de Minas Gerais, enfrentam desafios mais graves. No período de 2012 a 2017, o semiárido registrou uma seca com impacto significativo nas reservas hídricas e na alimentação animal.
Populações que dependem diretamente dos recursos naturais para sobreviver são as mais afetadas, incluindo indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, pescadores artesanais e agricultores familiares.
Na Amazônia, a maior floresta tropical e bacia hidrográfica do planeta, a região tem registrado secas históricas. Em 2023 e 2024, diversas cidades apresentaram níveis recordes baixos nos rios, causando isolamento de comunidades, interrupção do transporte fluvial e dificuldades no abastecimento de alimentos e medicamentos.
A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) lançou um boletim em 2025 que alerta para os impactos da seca nos povos tradicionais.
De acordo com o coordenador-geral da Coiab, Toya Manchineri, secas e queimadas colocam em risco territórios e modos de vida essenciais para o planeta.
“O que vivenciamos não foi uma estiagem isolada, mas um colapso ambiental em curso”, destacou Manchineri no lançamento do boletim.
“A crise climática se manifesta no cotidiano das comunidades. Quando o rio seca, o peixe desaparece, o barco não chega e a floresta, antes úmida, passa a queimar”.
Dados recentes do Cemaden indicam que o número de territórios indígenas afetados por seca severa subiu de três, em junho, para 17, em julho. Os distritos sanitários especiais indígenas mais impactados incluem Alto Rio Negro (AM), Parintins (AM), Kaiapó do Pará (PA), Tocantins (TO) e Araguaia (MT e TO).
Quanto aos assentamentos rurais, houve aumento de áreas atingidas pela seca extrema, de duas para 44, e crescimento das regiões em seca severa, de 102 para 309, concentradas principalmente nos estados do Pará, Tocantins, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas.
Características e novos tipos de seca
O pesquisador Humberto Alves Barbosa, coordenador e fundador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) da Universidade Federal de Alagoas, destaca que as secas têm apresentado variações significativas na duração, com episódios mais longos impulsionados pelo aquecimento global.
Ele chama atenção para um tipo recente conhecido como seca-relâmpago, caracterizada por curta duração, iniciando-se rapidamente e com intensidade elevada durante o verão, acompanhada de ondas de calor.
Barbosa explica que o efeito combinado da redução da cobertura vegetal e do aumento das temperaturas durante essas secas agrava ainda mais as condições de aridez da região.
Influência do El Niño nas condições climáticas
O alerta para a seca se intensificou neste ano diante da previsão de um El Niño mais forte do que os anteriores. Esse fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, altera a circulação atmosférica global e modifica os padrões de chuvas.
De acordo com as previsões recentes da Organização Meteorológica Mundial (OMM), o El Niño deve atingir seu auge entre agosto e outubro de 2026. Espera-se que as condições de chuva fiquem abaixo da média em regiões como Índia, sul da Ásia, Austrália Meridional e Oriental, América Central e Caribe, noroeste da América do Sul e norte da Europa.
No Brasil, o fenômeno pode intensificar secas em algumas áreas, segundo o pesquisador Humberto Barbosa.
“Historicamente, El Niños muito fortes estão associados à redução das chuvas e aumento das temperaturas no Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste, afetando a umidade do solo e a vazão dos rios. Essas regiões ficam mais vulneráveis a secas prolongadas, secas-relâmpago e queimadas”, explica Barbosa.
O Programa Mundial de Alimentos (PMA) alerta que a seca, juntamente com outros impactos climáticos do El Niño, pode agravar a insegurança alimentar em 45 países.
Uma análise recente aponta que a população em situação de insegurança alimentar aguda pode crescer de aproximadamente 225 milhões para 275 milhões de pessoas, caso as projeções se confirmem. Os maiores aumentos são previstos para as Américas Central e do Sul, Caribe e Sul da África.
Resposta internacional e perspectivas na COP17
Em vez de focar exclusivamente na gestão de emergências, os governos têm sido encorajados a investir em monitoramento, sistemas precoces de alerta, recuperação de áreas degradadas, gestão integrada dos recursos hídricos e no fortalecimento da capacidade de adaptação das populações.
Alexandre Pires prevê que o tema da seca ganhará maior destaque durante a conferência.
“Hoje contamos com um fórum político, a Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA), da qual o Brasil passou a fazer parte em 2024. Espera-se que essa articulação influencie as negociações e estimule os países a direcionar mais recursos para enfrentar as secas, um problema que deve ser tratado antes de se tornar uma emergência ainda maior”, afirmou o diretor.
Criada durante a COP27 do Clima, em 2022, a IDRA reúne governos e organizações internacionais com o objetivo de fortalecer a cooperação entre países, ampliar o intercâmbio de informações e incentivar investimentos em ações de adaptação.
A Agência Brasil fará a cobertura da COP17 na Mongólia ao longo das duas semanas do evento. A parceria com a UNCCD, que selecionou seis jornalistas de diferentes continentes por meio de bolsas de jornalismo, permitirá informar sobre os debates e suas repercussões para o Brasil.