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Secas Globais Impactam Diversas Regiões e São Destaque na COP17 na Mongólia

Fonte: boavistanoticias.com.br | Data: 16/08/2026 11:55:55

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A seca, antes restrita a áreas áridas, hoje ameaça regiões que outrora pareciam menos propensas a esse fenômeno, com aumento de quase 30% na frequência e duração desde 2000, conforme a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD).

O tema da seca será um dos assuntos centrais da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que será realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia, de 17 a 28 de agosto. Yasmine Fouad, secretária executiva da UNCCD, enfatiza a necessidade de ações concretas e urgentes nos territórios afetados.

“A questão já não é reconhecer a seca como um risco global, mas agir cedo o suficiente para evitar que seus impactos se espalhem pelas comunidades, economias e fronteiras”, destacou Fouad em entrevista.

Estima-se que até 2050, 75% da população mundial será afetada pela seca, enquanto a demanda global por água pode ultrapassar a oferta em até 40% até 2030.

No Brasil, as cinco regiões do país registraram secas em julho de 2026, com diferentes graus de severidade. Pelo menos 157 municípios foram classificados em situação de “seca severa”, caracterizada por queda significativa da umidade do solo e estresse hídrico na vegetação, acarretando prejuízos na agricultura.

O Monitor de Secas, coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), e boletins mensais do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) acompanham o fenômeno. José Antonio Marengo, coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Cemaden, alerta para a intensificação do problema nos próximos meses.

“O que observamos em todo o país é uma tendência de ressecamento. Vemos a diminuição dos totais de chuvas e o aumento da temperatura. Há um risco de que o desequilíbrio entre precipitação e evaporação leve a situações de agravamento das secas”, explicou Marengo.

Panorama das Secas no Contexto Global

O Observatório Global da Seca indicou que, em julho, a Europa experimentou temperaturas acima da média devido a uma prolongada onda de calor. Contudo, a crise se estende além do continente europeu.

As regiões mais afetadas pela seca incluem:

  • Europa: Reino Unido, Itália, França, Alemanha, Hungria e Romênia;
  • África: partes do Sul e Centro, como Sudão, Etiópia, Zâmbia e Madagascar;
  • Oriente Médio: Irã e Omã;
  • Ásia: áreas centrais e sudeste, incluindo Cazaquistão, China e Filipinas.

Os tipos de seca abrangem a seca meteorológica, caracterizada por chuvas abaixo da média prolongadas; a seca agrícola, que reduz a umidade disponível para plantas comprometendo lavouras e pastagens; e a seca hidrológica, que impacta rios, reservatórios e aquíferos, afetando o abastecimento humano, a geração de energia, a navegação e a biodiversidade.

Distribuição e Vulnerabilidade no Brasil

Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), enfatiza que a seca não pode mais ser vista isoladamente. Dados do Cemaden indicam que, nos últimos 30 anos, o Brasil enfrentou secas severas em todas as cinco macrorregiões.

“Se pegarmos dados do Cemaden, que faz o monitoramento das secas no Brasil, nos últimos 30 anos, nós tivemos secas severas nas cinco macrorregiões do país”, afirmou o diretor.

Segundo ele, algumas regiões, como o Nordeste e o Norte de Minas Gerais, enfrentam problemas mais graves. Entre 2012 e 2017, houve uma seca muito intensa no semiárido, com impactos significativos nas reservas hídricas e na alimentação animal.

Populações que dependem diretamente dos recursos naturais, como indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, pescadores artesanais e agricultores familiares, são as mais afetadas pela seca.

A Amazônia, com a maior floresta tropical e a maior bacia hidrográfica do planeta, tem sofrido secas históricas. Nos anos de 2023 e 2024, níveis dos rios em vários municípios atingiram mínimas históricas, causando isolamento de comunidades, interrupção do transporte fluvial e dificuldades no abastecimento de alimentos e medicamentos.

Para destacar os impactos sobre os povos tradicionais, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) divulgou um boletim em 2025 alertando para os efeitos da seca e queimadas sobre os territórios.

Toya Manchineri, coordenador-geral da Coiab, afirmou que as secas e queimadas ameaçam os modos de vida que sustentam o planeta.

“O que vivenciamos não foi uma estiagem isolada, mas um colapso ambiental em curso”, declarou Toya no lançamento do boletim.

“A crise climática se manifesta no cotidiano das comunidades. Quando o rio seca, o peixe desaparece, o barco não chega e a floresta, antes úmida, passa a queimar”.

O monitoramento recente do Cemaden mostrou aumento dos territórios indígenas afetados por seca severa, que passaram de três em junho para 17 em julho de 2026, com destaque para os distritos sanitários especiais indígenas de Alto Rio Negro (AM), Parintins (AM), Kaiapó do Pará (PA), Tocantins (TO) e Araguaia (MT e TO).

Nos assentamentos rurais, as áreas atingidas pela seca extrema cresceram de duas para 44, e as afetadas por seca severa subiram de 102 para 309, concentrando-se nos estados do Pará, Tocantins, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas.

Variedades e Dinâmicas das Secas

Com o aquecimento global, não apenas a frequência e intensidade das secas aumentaram, mas também sua duração, conforme explica Humberto Alves Barbosa, pesquisador e fundador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Ele destaca ainda a ocorrência da seca-relâmpago, um tipo de estiagem breve e intensa, geralmente no verão, com início rápido e forte calor.

“Essas secas costumam ocorrer durante o verão, acompanhadas de aumento do calor, com início rápido e forte intensidade. O fenômeno dura apenas alguns dias ou semanas. Porém, o efeito combinado da redução da cobertura vegetal e do aumento das temperatura durante as secas piora ainda mais a condição de aridez da região”, explicou o pesquisador.

Impactos do Fenômeno El Niño

As preocupações com a seca aumentaram em 2026 diante da previsão de um El Niño mais intenso que os anteriores. Esse fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, modifica a circulação atmosférica e a distribuição das chuvas globalmente.

De acordo com as previsões da Organização Meteorológica Mundial (OMM), o El Niño deverá se fortalecer entre agosto e outubro de 2026, provocando condições mais secas que o normal em regiões como Índia, sul da Ásia, Austrália Meridional e Oriental, América Central e Caribe, noroeste da América do Sul e norte da Europa.

Humberto Barbosa alerta que, no Brasil, o fenômeno pode agravar secas em algumas regiões.

“Historicamente, um El Niño de intensidade muito forte está associado à redução das chuvas e ao aumento das temperaturas no Norte, Nordeste e áreas do Centro-Oeste. Ele deve afetar tanto a umidade do solo quanto a vazão dos rios. Estas regiões ficam mais vulneráveis às secas prolongadas ou às secas relâmpagos e às queimadas”, afirmou Barbosa.

O Programa Mundial de Alimentos (PMA) projeta que a seca e os impactos climáticos relacionados ao El Niño podem intensificar a insegurança alimentar aguda em 45 países.

Estimativas indicam que a população em condição de insegurança alimentar aguda pode crescer de aproximadamente 225 milhões para 275 milhões de pessoas, com os maiores aumentos previstos para as Américas Central e do Sul, Caribe e Sul da África.

Medidas e Debates na Conferência COP17

Ao invés de focar apenas em respostas emergenciais, governos vêm sendo incentivados a investir em monitoramento, sistemas de alerta precoce, recuperação de áreas degradadas, gestão integrada dos recursos hídricos e fortalecimento da capacidade de adaptação das comunidades.

Alexandre Pires antecipa que a temática da seca deve ganhar relevância durante a COP17.

“Existe hoje um fórum político, a Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA, na sigla em inglês), da qual o Brasil passou a fazer parte em 2024. A expectativa é que essa articulação influencie as negociações e estimule os países a investir mais recursos para enfrentar as secas, porque esse é um problema que precisa ser tratado antes de virar uma emergência ainda maior”, declarou Alexandre.

A IDRA, criada na COP27 do Clima em 2022, reúne governos e organizações internacionais e visa fortalecer a cooperação global, ampliar o compartilhamento de informações e incentivar investimentos em adaptação às secas.

A Agência Brasil realizará cobertura da COP17 diretamente da Mongólia, em parceria com a UNCCD, que selecionou seis jornalistas de diferentes continentes para cobrir o evento durante duas semanas, com bolsas de jornalismo.

Ao longo dos próximos dias, serão publicadas diversas matérias detalhando as discussões da conferência e os impactos dos temas debatidos para o Brasil.