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Cuba: a Gaza do hemisfério que Trump chama de seu

Fonte: brasil247.com | Data: 16/08/2026 13:29:41

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Uma pequena ilha do Caribe atravessa uma das mais graves crises de sua história recente. Faltam combustível, medicamentos, alimentos. Falta tudo. Apagões chegam a vinte horas diárias. Hospitais lutam para manter equipamentos funcionando. A falta de energia compromete o bombeamento de água, o transporte, a conservação dos alimentos e massacra a rotina de 11 milhões de pessoas. 

No início deste mês, a ONU advertiu para o risco de Cuba transformar-se numa “Gaza silenciosa”, caso continue o estrangulamento das condições materiais de sobrevivência da população. É diante desse quadro que surge uma pergunta desconcertante: Por que uma pequena ilha empobrecida do Caribe continua sendo tratada como ameaça pela maior potência militar do planeta? 

Os Estados Unidos dispõem do mais poderoso aparato militar e de inteligência do mundo. Cuba luta para manter as luzes acesas. Ainda assim, há mais de seis décadas Washington mantém contra a ilha um cerco econômico que atravessou administrações republicanas e democratas.  Agora, Donald Trump decidiu apertar ainda mais o torniquete. 

O petróleo impedido de chegar 

A crise adquiriu outra dimensão depois da intervenção norte-americana na Venezuela, em janeiro, que sequestrou e transportou o presidente Nicolás Maduro e sua mulher, Cilia Flores, para Nova York, onde continuam presos há sete meses. Durante anos, a Venezuela foi um dos principais fornecedores de petróleo de Cuba. 

Uma das primeiras consequências da mudança ocorrida em Caracas, após a invasão dos Estados Unidos, foi a interrupção desse fluxo para a ilha, atingindo um país que já enfrentava uma profunda crise energética.  

Sem petróleo suficiente, não falta apenas gasolina. Falta eletricidade. E, quando falta eletricidade, não se apagam apenas as lâmpadas. Param bombas de água, sistemas de refrigeração, meios de transporte, equipamentos hospitalares. É o caos. 

A revista médica britânica The BMJ encontrou hospitais submetidos a apagões de até vinte horas e profissionais tentando preservar serviços vitais em meio à falta simultânea de energia, combustível, medicamentos e insumos.  

Associated Press encontrou famílias que passaram a organizar a vida em torno dos raros momentos em que a eletricidade retorna. Quando a luz chega, começa uma corrida. Cozinhar. Lavar roupa. Bombear água. Carregar o celular. Tentar conservar os alimentos. Dormir pode esperar. 

Uma ilha a ver os navios 

Roberto Amaral, no artigo publicado pela CartaCapital às vésperas do centenário de Fidel Castro, passa a palavra a seu amigo Jorge Ferrera, ex-adido cubano no Brasil, que lhe escreveu de Havana em 6 de agosto. O relato é devastador. Entre janeiro e junho de 2026, seriam necessários cerca de quarenta navios para garantir a geração de eletricidade no país. Apenas um chegou. Cuba está literalmente a ver navios. E os navios não chegam nunca. 

Depois de passar algum tempo em Cuba produzindo um vídeo reportagem, o jornalista Leandro Demori escolheu um título preciso para sua série documental: Revolução no Escuro. A expressão descreve a nova rotina da ilha.  

Talvez exista algo ainda mais cruel do que o próprio cerco. A sensação de que Cuba está desligada do resto do mundo. E que o mundo esqueceu que Cuba existe e luta desesperadamente pela sobrevivência de seus habitantes. 

Ajudas ainda possíveis 

A China continua enviando ajuda. Remessas de alimentos, recursos financeiros e equipamentos destinados à geração de energia solar chegaram à ilha para restabelecer o fluxo energético necessário para o funcionamento normal do país devastado. 

 Mas nem mesmo a segunda maior economia do mundo consegue fazer mais, por força da primeira maior economia e do maior poderio militar do planeta. E uma simples ilha do Caribe envolvida numa tragédia sem nada poder fazer. 

O Brasil condena historicamente o embargo, mas tampouco consegue furá-lo. O endurecimento das sanções norte-americanas tornou praticamente inviável o envio de petróleo por empresas expostas ao sistema financeiro dos Estados Unidos. A Petrobras, por exemplo, mantém ações negociadas na Bolsa de Nova York e seria diretamente atingida por medidas punitivas. 

Cuba resiste há mais de seis décadas. Agora resiste quase sozinha. 

Médicos cubanos 

O Brasil conhece uma outra Cuba. É a Cuba dos médicos. O governo Dilma Roussef lançou o Programa Mais Médicos, em 8 de julho de 2013, que levou milhares de profissionais cubanos para municípios do interior, periferias, comunidades indígenas e regiões historicamente desassistidas.  

Cerca de 12 mil médicos cubanos vieram para o Brasil por meio do acordo Brasil, Cuba e OPAS – Organização Pan-Americana da Saúde.  Não vieram disputar consultórios nas capitais e nos bairros ricos das grandes cidades. Foram para 4.058 municípios e 34 distritos indígenas.  

Em novembro de 2018, Jair Bolsonaro rompeu o acordo com Cuba e os médicos cubanos foram forçados a deixar o Brasil. Com a volta de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, em 2023, o programa foi retomado, novamente com prioridade para regiões vulneráveis e desassistidas.  

Há uma ironia cruel nessa história. Cuba, o país que formou médicos para cuidar dos pobres do mundo, enfrenta hoje dificuldades para oferecer aos próprios médicos medicamentos, equipamentos e energia para cuidar do seu povo. Os Estados Unidos de Trump não permitem. Cuba ajudou muita gente quando podia ajudar. Agora Cuba precisa de ajuda. 

Afinal, qual é a ameaça? 

Em 28 de julho, o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio voltou a afirmar que Cuba representa uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos. A declaração produz inevitavelmente outra pergunta: 

Que ameaça uma Cuba devastada pode representar para os Estados Unidos? 

A pergunta torna-se ainda mais intrigante diante da nova ofensiva de Washington. A CIA criou uma força-tarefa especialmente dedicada a Cuba, mobilizando agentes, analistas e especialistas em operações cibernéticas e de influência. 

 A ilha voltou ao primeiro escalão das prioridades da inteligência norte-americana, 66 anos depois da criação de outra força-tarefa da CIA dedicada a Cuba, no período que antecedeu a fracassada invasão da Baía dos Porcos. Mas a obsessão permanece. Por quê?  

Cuba não assusta Washington pelo poder militar que possui. Assusta pelo que representa. Em 1959, a Revolução retirou da esfera de influência norte-americana um país situado a apenas 150 quilômetros da Flórida. Washington tentou derrubar o novo governo, fracassou na Baía dos Porcos e impôs o embargo.  

Para sobreviver, Cuba aproximou-se da União Soviética. Veio a crise dos mísseis. Depois, mais de seis décadas de confronto. A União Soviética acabou. Cuba permaneceu. Pequena. Pobre. Mas independente de Washington. 

A Doutrina Donroe 

Na terça-feira, 11 de agosto, o Departamento de Estado publicou um vídeo que provocou forte repercussão internacional ao reafirmar na frase atribuída a Donald Trump: “This is our hemisphere.” “Este é o nosso hemisfério.” Cuba aparece repetidamente nessa narrativa. 

 A captura de Nicolás Maduro, em janeiro deste ano, foi descrita pelo próprio governo norte-americano como uma “manobra calculada”, destinada a enviar um sinal a toda a América Latina. A disputa já não envolve apenas Cuba. Envolve o futuro do continente. 

Se a Venezuela foi a demonstração do poder militar norte-americano, Cuba tornou-se a demonstração do poder econômico. Uma mostra o que acontece quando Washington decide usar a força. A outra mostra o que pode acontecer quando decide fechar o cerco. 

Ambas transmitem a mesma mensagem: “Este hemisfério é nosso.” E, dentro desse hemisfério que Washington voltou a reivindicar como seu, existe uma pequena ilha que há 67 anos insiste em dizer não. 

A Gaza silenciosa 

Na semana em que Cuba celebrou o centenário de Fidel Castro, Havana recebeu delegações de dezenas de países para discutir o legado da Revolução. O contraste é inevitável. Enquanto dirigentes políticos, intelectuais e militantes debatiam o passado e o futuro, milhões de cubanos enfrentavam apagões, escassez de alimentos, falta de medicamentos e a mais grave crise econômica desde 1959. Talvez o centenário seja uma oportunidade para falar de outra coisa. 

Dos cubanos. Dos médicos. Das crianças. Dos idosos. Das mães procurando medicamentos. Das famílias esperando a eletricidade voltar. Dos hospitais tentando permanecer abertos. Dos milhões de seres humanos que não decidiram a política externa de Washington nem a política interna de Havana, mas sofrem as consequências de ambas. 

Que perigo representa essa pequena ilha? 

A resposta não está nos poucos aviões sem combustível, navios ou soldados que Cuba possui. Talvez esteja simplesmente no fato de que Cuba continua ali. Depois de Eisenhower. Depois de Kennedy. Depois da Baía dos Porcos. Depois da crise dos mísseis. Depois da União Soviética. Depois de Fidel.  

Depois de mais de seis décadas de embargo. Cuba continua ali. Mas, desta vez, há uma diferença. A ilha que enviou médicos, professores e soldados para ajudar povos distantes atravessa uma de suas horas mais difíceis. E olha ao redor.  

Os navios petroleiros não chegam. A eletricidade não chega. Os medicamentos não chegam. 

Cuba está só. Ou quase. 

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.