Clientela comum das canetas emagrecedoras ilegais esconde rede criminosa organizada
Fonte: gazetadopovo.com.br | Data: 16/08/2026 15:34:42
Quem compra uma caneta emagrecedora ilegal em um camelô ou em um grupo de bairro dificilmente se vê como cliente do crime organizado. Por trás dessa aparência de informalidade, uma rede vem se profissionalizando: depósitos no Paraguai despacham cargas de milhares de ampolas direto para caminhões, sem passar pelo varejo.
A Polícia Federal (PF) apreendeu 165,6 mil unidades de medicamentos para emagrecimento no Brasil de janeiro até o início de junho. O volume é quase o triplo das 60,9 mil unidades recolhidas durante todo o ano de 2025.
Pelas dimensões relativamente pequenas dos produtos, o trabalho de fiscalização tem feito flagrantes das mais variadas formas: neste início de agosto, a Receita Federal detectou um motorista que transportava remédios para emagrecer em esconderijo na própria bota, por exemplo.
O levantamento por estado enviado pela PF à Gazeta do Povo classifica os produtos de forma ampla como emagrecedores. A relação não informa quantas unidades eram canetas, ampolas ou outras apresentações, mas mostra a velocidade com que esses medicamentos ganharam espaço no mercado ilegal.
O estado do Paraná responde por 56,2% do volume apreendido, com quase 93 mil unidades. São Paulo aparece depois, com 40,9 mil. Os dois estados concentram 80,9% do total. A PF registrou apreensões em 26 unidades da Federação; apenas Tocantins não aparece no levantamento (veja mapa abaixo).

Contrabando de emagrecedores cresce em ritmo mais acelerado que o de cigarros
O contrabando de medicamentos emagrecedores está crescendo mais rápido do que o de cigarros no Brasil — um mercado ilegal consolidado há décadas. Em 22 de julho, a Receita Federal encontrou cerca de 5.820 ampolas de medicamentos emagrecedores em um veículo abordado perto de São Miguel do Iguaçu, no oeste do Paraná. Avaliada em aproximadamente R$ 800 mil, a carga seguia para Cascavel.
A entrada e a circulação dos produtos ilegais não se limitam às fronteiras terrestres. No dia seguinte à apreensão registrada acima, a PF apreendeu 273 ampolas de tirzepatida no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, com dois passageiros que haviam embarcado em Foz do Iguaçu.
O avanço que já aparecia nas apreensões realizadas em Foz ganhou outra escala. Pequenas remessas continuam atravessando a fronteira, mas agora dividem espaço com carregamentos de milhares de unidades e com a distribuição por voos domésticos.

Há depósitos vendendo diretamente ao contrabandista as canetas emagrecedoras no Paraguai, sem passar pelo varejo. (Foto: Divulgação/Receita Federal)
Um levantamento da Receita Federal reforça esse movimento. O órgão informou ter apreendido 158,3 mil canetas emagrecedoras no primeiro semestre de 2026, mais que o dobro das 78,7 mil recolhidas durante todo o ano anterior.
São números que não devem ser somados. A PF reuniu diferentes medicamentos para emagrecimento, enquanto a Receita forneceu um recorte específico das canetas apreendidas em suas ações. Como não há elementos para verificar uma eventual sobreposição entre as bases, os resultados são apresentados de forma independente.
Foz do Iguaçu concentra mais de 45,2% das canetas emagrecedoras apreendidas pela Receita
Na contagem da Receita, a cidade de Foz do Iguaçu, na fronteira com o Paraguai, concentra 71,6 mil canetas emagrecedoras ilegais apreendidas no primeiro semestre. O número representa 45,2% das apreensões do órgão no país. O Paraná chegou a 96,9 mil unidades e respondeu por 61,2% do total nacional.
A Receita começou a identificar as canetas emagrecedoras ilegais em março de 2025, ainda em baixo volume. As apreensões cresceram a partir de maio e avançaram até novembro. Em dezembro, houve uma nova alta: em Foz, o valor mensal passou de cerca de R$ 850 mil para quase R$ 2,8 milhões.
O patamar elevado continuou em 2026, com média próxima de 12 mil unidades por mês na cidade. Segundo a Receita, cresceram tanto o número de ocorrências quanto a quantidade encontrada em cada carga.

Fiscalização da Receita Federal detectou um motorista que transportava remédios para emagrecer em esconderijo na sola da bota. (Foto: Divulgação/Receita Federal)
A diferença de ritmo aparece com clareza no Paraná. Os cigarros apreendidos no primeiro semestre de 2026 foram avaliados em R$ 138,1 milhões, o equivalente a 41,3% dos R$ 334,4 milhões registrados durante todo o ano de 2025. No caso dos medicamentos, o valor apreendido nos seis primeiros meses chegou a R$ 67,4 milhões, mais que o dobro dos R$ 32,7 milhões de todo o ano anterior.
O mesmo contraste aparece no país. Até junho, os cigarros apreendidos somavam R$ 385,6 milhões, ou 48,8% dos R$ 790,1 milhões de 2025. Os medicamentos chegaram a R$ 108,9 milhões, valor 63,6% maior que os R$ 66,6 milhões de todo o ano passado.
Esses dados abrangem todos os tipos de medicamento e não permitem calcular quanto desse crescimento veio das canetas emagrecedoras ilegais. A contagem específica delas, porém, indica que o produto tem participação relevante nessa alta.
Os medicamentos ainda não ultrapassaram os cigarros. Desconsiderado o grupo “outros”, que reúne mercadorias variadas, os eletroeletrônicos permanecem na liderança das apreensões da Receita por valor. Cigarros e veículos também aparecem à frente dos medicamentos, hoje na quarta posição.
Rapidez na conquista do mercado ilegal impressiona
Para o presidente do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf), Luciano Stremel Barros, a rapidez do avanço das canetas emagrecedoras ilegais está ligada às diferenças regulatórias e tributárias entre Brasil e Paraguai. A procura brasileira encontrou do outro lado da fronteira uma estrutura capaz de colocar novos produtos no mercado em pouco tempo.
“É um fenômeno único. Eu não me lembro de outro produto que, em tão pouco tempo, tenha conquistado mercados ilegais com tanta força. Nem os medicamentos para disfunção sexual tiveram um boom tão rápido quanto o que estamos vendo com essas canetas”, afirma.
Ampolas ocupam pouco espaço e alcançam preços elevados, o que aumenta o retorno de cada carga.
Segundo Barros, comerciantes que antes negociavam outras mercadorias migraram para os emagrecedores assim que perceberam a rentabilidade na região de fronteira. As ampolas ocupam pouco espaço e alcançam preços elevados no Brasil, o que aumenta o retorno de cada carga.
O negócio também deixou de depender apenas da compra em lojas paraguaias. “Já há depósitos vendendo diretamente ao contrabandista, sem passar pelo varejo. Quando uma carga de 6 mil ou 7 mil ampolas sai de um depósito direto para um caminhão, estamos falando de uma estrutura criminal bastante organizada”, aponta ele.
Da pequena remessa à rede organizada
O especialista em segurança pública e investigador aposentado da Polícia Rodoviária Federal Sérgio Leonardo Gomes avalia que a alta das apreensões tem duas explicações. Há mais produto circulando, enquanto os órgãos passaram a direcionar parte da fiscalização para esse mercado.
Pequenos transportadores continuam trazendo poucas unidades junto com outras compras. Ao mesmo tempo, grupos com maior estrutura assumiram carregamentos mais valiosos e passaram a usar caminhos já empregados no transporte de outras mercadorias ilegais.
“O retorno financeiro é o principal fator, mas a clientela final é formada por pessoas comuns, que não são do mundo do crime. Isso cria a falsa impressão de que o crime é menor”, afirma Gomes.
A caneta pode chegar ao comprador como uma alternativa barata a um medicamento caro. Essa aparência de normalidade ajuda a explicar a venda em camelôs ou grupos de bairro, canais citados pelo ex-investigador nos quais o produto circula sem despertar a mesma rejeição associada a outras mercadorias ilegais.
A busca por soluções rápidas para emagrecer começou muito antes das canetas. Dietas e fórmulas apresentadas como atalhos sempre encontraram público, impulsionadas pela pressão estética e pela dificuldade de perder peso.
Os medicamentos atuais aumentaram esse interesse porque podem produzir redução relevante de peso quando usados nas condições indicadas. Um artigo liderado por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) aponta que a procura também chegou a pessoas sem indicação clínica, estimulada pela promessa de resultados rápidos.
Mercado ilegal não oferece apenas marcas mais baratas
Os medicamentos Ozempic e Wegovy contêm semaglutida, enquanto o Mounjaro tem como princípio ativo a tirzepatida. Essas substâncias atuam em mecanismos ligados ao controle da glicose e à saciedade, reduzindo a fome e prolongando a sensação de satisfação depois das refeições.
O que circula no mercado ilegal não é necessariamente o Ozempic ou o Mounjaro vendido por um preço menor. As apreensões incluem produtos que afirmam conter semaglutida ou tirzepatida, mas foram manipulados fora das regras, importados sem autorização ou falsificados.
Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), produtos comprados fora de farmácias e drogarias autorizadas não oferecem garantia de procedência, composição ou conservação. Não há segurança de que o conteúdo corresponda ao rótulo nem de que o medicamento tenha sido mantido nas condições necessárias.
A retatrutida continua em fase de pesquisa e não possui registro sanitário em qualquer país, embora produtos identificados com esse nome já apareçam nas apreensões brasileiras.
A agência também relata casos de manipulação em larga escala ou sem prescrição, importações irregulares e falsificações. A venda clandestina dificulta a identificação da origem do produto e a responsabilização em caso de problemas.
A Anvisa passou a exigir a retenção da receita em 2025 após identificar um número elevado de eventos adversos relacionados ao uso fora das indicações aprovadas. A regra alcança produtos como Ozempic, Mounjaro e Wegovy.
Há ainda substâncias experimentais. A retatrutida continua em fase de pesquisa e não possui registro sanitário em qualquer país, embora produtos identificados com esse nome já apareçam nas apreensões brasileiras.
Para o presidente do Idesf, a velocidade alcançada pelas canetas mostra que a estrutura não depende de uma mercadoria específica. Quando surge um produto com alta procura e boa margem, fornecedores e redes de distribuição conseguem incorporá-lo rapidamente. “Se hoje aconteceu com esse produto, pode acontecer com qualquer outro”, afirma.