Dia de Campo no Paraná mostra como transformar dejetos de suínos em energia e fertilizantes
Fonte: opresenterural.com.br | Data: 17/08/2026 17:11:53
Tatiana Carolina Gomes Dutra de Souza, médica veterinária, PhD em Ciência Animal, gerente de Serviços Técnicos – Hipra
Durante muitos anos, a doença do edema foi reconhecida como uma enfermidade aguda do período pós-desmame, caracterizada por elevada mortalidade (10 a 20% na fase de creche), edema de pálpebras, sinais neurológicos e morte súbita de leitões aparentemente saudáveis. Entretanto, o avanço do conhecimento sobre a patogenia da Escherichia coli produtora de toxina Shiga 2e (Stx2e ou verotoxina 2e) vem mudando essa percepção. Atualmente, sabe-se que a apresentação clínica clássica representa apenas uma parte do impacto causado por esse agente. Em setenta por cento das granjas, a infecção ocorre de forma silenciosa, subclínica, comprometendo o desempenho zootécnico sem provocar os sinais clássicos da doença do edema.
Essa condição, denominada Doença Associada à Verotoxina (VAD – Verotoxin Associated Disease), tem recebido crescente atenção por estar relacionada à redução do ganho de peso, maior desuniformidade dos lotes, necrose auricular (Figura 1) e maior predisposição a infecções secundárias, gerando perdas econômicas importantes mesmo quando a mortalidade permanece baixa.
Muito além do edema: o impacto econômico silencioso da VAD
A E. coli é transmitida pela via oro-fecal e após colonizar o intestino delgado, ela produz a verotoxina, que atravessa a barreira intestinal e alcança a circulação sanguínea. A toxina promove lesões vasculares, aumento de permeabilidade vascular e formação de microtrombos. Sabe-se que a manifestação dos sintomas clínicos é dose-dependente, assim, quantidades moderadas a altas de verotoxina são capazes de provocar edema localizado, encefalite e morte súbita.

Figura 2: Diagnóstico específico para verotoxina em fluido oral
Entretanto, quantidades menores de verotoxina promovem agressão vascular mais discreta, tornando a clínica silenciosa. É um cenário de baixa mortalidade e leitões desuniformes, com diarreia e necrose de orelha. Assim, o quadro sanitário passa despercebido na maioria das vezes, e pode ser confundido com algum problema nutricional ou de micotoxicose.
Esse contexto reforça que grande parte das perdas econômicas relacionadas à verotoxina ocorre de maneira silenciosa, passando despercebida quando o foco da avaliação sanitária se limita apenas à mortalidade.
Em condições de campo, em granjas com VAD, os leitões deixam de ganhar em torno de 600 g/animal na creche e 3 kg/animal ao abate. Além disso, os leitões apresentam 36% mais necrose auricular, maior desuniformidade de leitegada, 30% mais uso de antibiótico e maior suscetibilidade às infecções secundárias.
VAD e sua relação com Streptococcus suis
Um dos resultados mais interessantes encontrados mundialmente foi a associação consistente entre a presença da verotoxina e o aumento da ocorrência de doença por Streptococcus suis. No Brasil, as granjas positivas para Stx2e relataram recorrência 2 vezes mais problemas por S. suis do que as granjas negativas. Essa associação encontra respaldo na fisiopatologia da doença. As lesões vasculares e intestinais provocadas pela verotoxina comprometem a integridade da mucosa intestinal, favorecendo maior translocação bacteriana e aumentando a exposição do organismo a agentes oportunistas.
Diagnóstico da doença
Monitorar a circulação da verotoxina tornou-se uma estratégia importante para identificar precocemente granjas sob risco. Por meio da coleta de fluido oral (Figura 2) ou de amostras de fezes, é possível detectar a Stx2e de forma simples, específica e não invasiva, mesmo quando os leitões aparentam estar saudáveis e houver baixa mortalidade do lote, como ocorre nos casos da VAD. O diagnóstico permite direcionar as medidas de controle de maneira mais rápida e eficiente, reduzindo o impacto da doença sobre o desempenho dos animais.
Evidências da doença em granjas brasileiras
Recente estudo de prevalência, conduzido em 77 granjas distribuídas em diferentes estados, totalizando aproximadamente 125 mil matrizes e 684 amostras de fluido oral coletadas entre 2023 e 2026, demonstrou elevada circulação da verotoxina nas granjas brasileiras.
84,79% das amostras foram positivas para Stx2e, enquanto 76,62% das granjas apresentaram pelo menos uma amostra positiva. Essa prevalência foi superior à relatada em levantamentos realizados na Europa (62%).
Outro achado relevante foi que apenas cerca de um terço das granjas positivas apresentava doença clínica, com edema, sinais neurológicos e mortalidade elevada. 70% das granjas positivas não apresentava manifestações clássicas da doença, mas relatava baixo desempenho, refugagem, necrose auricular e episódios esporádicos de diarreia, caracterizando a VAD.
Outra observação é que houve maior frequência em leitões entre 49 e 77 dias de idade, coincidindo com a fase de maior desafio nutricional e sanitário dos leitões, sugerindo que alterações na dieta e na microbiota intestinal favorecem a multiplicação das cepas produtoras de Stx2e.
Controle da doença: evidências recentes
Uma recente metanálise reuniu 43 estudos de campo demonstrando que a vacinação contra a Stx2 Stx2e promove benefícios consistentes mesmo em granjas sem surtos clínicos evidentes. Há relatos de redução de até 100% da mortalidade em granjas com doença clínica e redução média de 3% na mortalidade em apresentações subclínicas. Em granjas com VAD, a vacinação promoveu incremento médio de 17,5 g/dia durante a creche e de 26 a 45,7 g/dia até o abate, maior uniformidade de lote, redução do uso de antimicrobianos, de necrose de orelha e na ocorrência de problemas associados ao Streptococcus suis. Além disso, outro estudo demonstrou que o uso da vacinação pode controlar desafios para E. coli, que normalmente aumentam em momentos que os animais estão consumindo dietas com menor digestibilidade proteica, comum em cenários de alto custo de produção. Assim, pode-se reduzir o custo de produção nutricional e ao mesmo tempo melhorar o desempenho dos animais devido ao controle da VAD.
Um novo olhar para a E. coli
O conjunto das evidências disponíveis demonstra que a doença do edema deve deixar de ser interpretada apenas como uma enfermidade de alta mortalidade. A forma clínica representa apenas a manifestação mais evidente de um problema muito mais amplo.
A elevada prevalência da verotoxina nas granjas, associada às perdas produtivas observadas mesmo na ausência de sinais clínicos clássicos, reforça que a Doença Associada à Verotoxina merece atenção especial dos médicos-veterinários e produtores. Diagnósticos baseados apenas na mortalidade tendem a subestimar a importância desse agente, retardando a adoção de medidas de controle.
A investigação da circulação da Stx2e, aliada ao monitoramento de indicadores como ganho de peso, uniformidade dos lotes, ocorrência de necrose de orelha e aumento de doenças secundárias, representa uma abordagem mais abrangente para identificar o impacto da VAD nas granjas. Nesse cenário, estratégias preventivas surgem como ferramentas importantes não apenas para reduzir mortes, mas também para preservar o desempenho produtivo e melhorar a rentabilidade dos sistemas de produção.
O maior desafio da verotoxina talvez não seja provocar surtos clínicos, mas permanecer circulando de forma silenciosa enquanto reduz, dia após dia, a eficiência produtiva da granja. Reconhecer essa mudança de paradigma é o primeiro passo para transformar perdas invisíveis em oportunidades concretas de prevenção, melhoria do desempenho e maior rentabilidade da produção suinícola.
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Fonte: O Presente Rural