Pele de Rinoceronte’: Débora Falabella se inspira em Ângela Diniz
Fonte: otempo.com.br | Data: 18/08/2026 07:16:27
GRAMADO. O nome de Ângela Diniz não é citado em “Pele de Rinoceronte”, segundo longa-metragem da mostra competitiva do Festival de Cinema de Gramado, exibido na noite de domingo no Palácio dos Festivais, na serra gaúcha. Mas a história criada pelo diretor Marcello Ludwig Maia se apropria bastante do assassinato da socialite mineira em 1976, que marcou a sociedade brasileira da época pela maneira como ela foi responsabilizado, tendo motivado o crime passional cometido pelo namorado violento.
Protagonizado por Débora Falabella e Naruna Costa, o filme é dividido em três linhas narrativas. Numa delas, em flashbacks, acompanhamos os últimos momentos de Ângela Diniz ao lado de Doca Street, em Búzios. Já Débora interpreta Helena, uma jornalista que resolve conhecer mais de perto a história da personagem, partindo para a cidade fluminense também como uma espécie de fuga, já que ela mesma sofre de violência sexual por parte do amante e dos chefes do diário onde trabalha.
“Eu conversei com o Marcello para tentarmos fazer um paralelo entre Helena e a própria Ângela, uma mulher que toda a sociedade julgava por suas atitudes. Quis também que ela fosse contraditória. Uma cena muito emblemática é quando ela dança num bar. Ela sendo livre ali, ao lado de um cara que talvez possa representar um novo olhar para o masculino. Fui atrás dessa mulher, inspirando-me muito em Ângela Diniz”, revela Débora.
Tanto “Pele de Rinoceronte” quanto a sua personagem carregam semelhanças com a peça “Prima Facie”, monólogo em que ela faz uma advogada criminalista, defensora de homens acusados de violência sexual, que tem a sua visão completamente transformada após se tornar uma vítima do machismo estrutural. Helena também escreve relatos cheios de preconceito sobre o universo feminino, com um estilo próximo aos jornais sensacionalistas muito populares nas décadas de 1970 e 1980.
“A personagem é meio prima da personagem que faço na peça, porque ela começa com um pensamento sobre uma estrutura (da sociedade) e vai mudando a sua perspectiva por conta de um acontecimento. No caso do filme, eu fui buscando, já na preparação, tentar entender a alma dessa mulher. A Helena é, acima de tudo, uma mulher livre, apesar de reproduzir um pensamento e um julgamento em sua escrita a respeito das mulheres”, compara a atriz.
As histórias de Helena, assim como a da advogada vivida por Naruna Costa, que assume a acusação contra Doca Street, são relatos ficcionais. Mas, no caso da advogada, ela tem muita proximidade com o passado familiar do diretor. “Eu venho de uma família liderada por mulheres, o que não era comum nos anos 70. E duas tias eram advogadas. Todos os crimes passionais no Brasil passaram fortemente por minha casa naquela época. Lembro bem das discussões apaixonadas sobre como lidavam com aquelas questões”, lembra o cineasta.
As tias de Maia não participaram do julgamento real de Doca Street, mas sim o marido de uma delas, Heleno Cláudio Fragoso. No filme, é a esposa quem assume esse papel, culminando num discurso catártico sobre um crime de ódio praticado contra homens que querem as mulheres numa posição de submissão. “Eu busquei honrar as mulheres que vieram antes de mim, que ocuparam espaços para falar sobre esse tema, como a ministra (do STF) Cármen Lúcia, a deputada federal Erika Hilton e a vereadora assassinada Marielle Franco”, afirma Naruna.
“Foi nelas que fui buscar a oratória e a inconformidade. Sou uma atriz que tem, em sua trajetória, o ativismo com as questões relacionadas às mulheres, à comunidade negra e à periferia. Foi a oportunidade de levar para o cinema o que é, para mim, algo tão comum no teatro, que é essa palavra política. No dia de filmar a cena (do discurso), eu tive muito medo e queria honrar realmente cada palavra”, registra.
Naruna lamenta que, passados 50 anos do caso de Ângela Diniz, as violências destinadas às mulheres não tenham diminuído. “Muito pelo contrário. Elas aumentam a cada ano em função de várias coisas, como a política conservadora e o nosso avanço intelectual e profissional, que causam medo na masculinização podre que ainda invade os nossos espaços”, afirma. Débora conta que “foi percebendo, em sua própria vida, violências que sofreu, além de certos abusos em ambientes de trabalho, que não sabia nomear”.
“A gente está falando de um lugar onde as mulheres foram tratadas secularmente”, analisa Augusto Madeira, que interpreta o namorado da personagem Helena. “Eu tive a sorte de fazer filmes sobre comunidades indígenas, hospícios, sobre toda sorte de exclusão. E aqui não deixa de ser diferente. Meu personagem acha que está fazendo o melhor do mundo. A sociedade era assim. Um argumento clássico era chamar a mulher de maluca quando ela botava a cabeça para fora. Neste sentido, busquei uma interpretação em que os homens pudessem se reconhecer e dizer: ‘Putz, eu sou um pouco assim’”, comenta.
(*) O repórter viajou a convite da organização do Festival de Gramado