Curtas brasileiros abrem mostra competitiva de Gramado com três propostas distintas – TELA VIVA News
Fonte: telaviva.com.br | Data: 18/08/2026 22:21:09
Três diferentes curtas-metragens brasileiros abriram a primeira noite da mostra competitiva do formato do 54º Festival de Cinema de Gramado. “Shibal”, de João Rubio Rubinato; “As Gêmeas”, de Vanessa Aguiar; e “Graxa e o Zepelim”, de Camilo Soares, foram exibidos no Palácio dos Festivais na última segunda-feira, 17 de agosto. E na manhã desta terça, 18, os realizadores se reuniram em coletiva de imprensa para falar um pouco sobre suas obras.
Abrindo a mostra, “Shibal”, de São Paulo, mostra uma sucessão de adversidades no dia de Tom (Tavinho Teixeira), um gravurista com uma única tarefa: entregar uma placa para um restaurante coreano. O elenco conta ainda com Bianca Comparato, Marcelo Médici, Suk Kim, Paulo Goya, Boni Tao e Stephanie Kim, numa produção de Enzo Celulari, da IPA Filmes.
“Meu interesse era fazer um filme sobre como temos que lidar com uma burocracia de golpes no dia a dia. Tem uma burocracia nessa coisa de se esquivar das armadilhas da cidade que é tragicômica”, contou o diretor e roteirista, João Rubio Rubinato. “E quis trazer humor para o filme. A inspiração para isso veio do cinema paulista dos anos 90, como Ugo Giorgetti. Gosto muito do seu filme ‘Sábado’, que trabalha bastante esse caos de São Paulo. Ele sempre me inspirou bastante”, acrescentou.
O protagonista é interpretado por Tavinho Teixeira, que traz esse humor e um certo frenesi para a obra. “Foi um grande prazer dirigir esse cara. Ele é muito criativo, propôs muito. Escrevi o roteiro já pensando nele para o personagem principal”, revelou Rubinato. E Teixeira analisou: “A cada golpe que o personagem recebe, ele vai perdendo valor sobre os valores e ganhando a estrada, adquirindo certa alegria”.
Já “Graxa e o Zepelim” tem a assinatura de Camilo Soares na direção, roteiro e direção de fotografia e Thiago Martins como diretor de produção. Num híbrido entre documentário, musical e ficção científica, Graxa, roqueiro de Recife, se depara com a paradoxal passagem do zepelim pelo seu bairro periférico e com a expectativa de um futuro que nunca chega.
Em meio a essa trama central, o curta faz um retrato histórico da comunidade do bairro de Jiquiá. “Sabíamos do potencial do território e das pessoas, mas nos surpreendemos nesse sentido. Tudo o que a gente vê ali faz parte do universo do Graxa. Fomos sendo apresentados a essas pessoas e nos aproximando delas também. Recife é um território pequeno mas, ao mesmo tempo, é uma cidade que não se conhece, não se comunica”, refletiu o produtor Thiago Martins. Um dos objetivos da equipe é, inclusive, que o curta tenha circulação pelas escolas, justamente para que o público mais novo cresça conhecendo mais da cidade.
Já o diretor, Camilo Soares, afirmou que sempre quis fazer um filme sobre o Graxa. “Acho incrível o que ele faz, é algo muito original, punk, com uma pegada própria. Ele é natural do Jiquiá, na periferia do Recife, marcada pela passagem do Zepelim em 1930. De certa maneira, as coisas não mudaram muito de lá pra cá, então o curta é uma metonímia de progresso excludente e modernidade seletiva. Lá, fizeram uma ponte enorme para afogar o trânsito da galera rica e nada fazem para a comunidade mais pobre. A ideia foi explorar esse território a partir do ponto de vista do universal musical do Graxa”.
Graxa, aliás, construi o roteiro do filme ao lado de Soares. “Fomos estabelecendo essa relação com o bairro de dentro pra fora. Houve esse encontro após o momento terrível que passamos na pandemia, de frustração. Fomos externar feridas e cicatrizes através da arte”, disse o artista.
Por fim, “As Gêmeas”, da roteirista e diretora Vanessa Aguiar, do Rio de Janeiro, começa com uma menina de sete anos que chega à escola com ferimentos. Aos poucos, a partir de conversas com as professoras e de desenhos feitos por ela, é revelada a violência que a garota está sofrendo dentro da própria casa.
Uma mensagem em destaque ao final do filme reforça que os desenhos não foram feitos pela própria atriz mirim e que ela também não teve conhecimento do teor da história. “Tivemos muito cuidado com isso. A mãe da atriz, que tem nove anos, esteve presente no set o tempo todo. As atrizes adultas se tornaram praticamente assistentes de direção, cuidando dela também”, contou a diretora.
O curta foi inspirado por uma notícia de jornal que Vanessa leu e ainda por sua própria vivência. Além de realizadora audiovisual, ela é comissária da Polícia Civil do Rio de Janeiro. “Nunca trabalhei diretamente com crianças e adolescentes vítimas, sempre evitei. Mas às vezes acontece, e já entrei em contato com um caso parecido. É um tema muito delicado e importante, e que acontece em todas as classes”, destacou.
E a ideia de usar gêmeas foi justamente para não precisar de nenhuma cena explícita – enquanto uma está no foco da câmera, o que se passa com a outra fica na imaginação do espectador.