Trafigura e Czarnikow veem clearing como caminho para ampliar liquidez no mercado
Fonte: megawhat.uol.com.br | Data: 21/08/2026 15:03:06
As tradings globais de commodities Trafigura e Czarnikow veem a criação de uma contraparte central como um passo importante para ampliar a segurança e a liquidez do mercado brasileiro de energia. As empresas avaliam que uma estrutura centralizada de garantias pode reduzir o risco das operações bilaterais, atrair novos participantes e favorecer o crescimento das negociações.
Na Czarnikow, a expectativa de uma evolução da infraestrutura de gestão de risco já fazia parte da aposta da companhia no mercado elétrico brasileiro. Segundo Tiago Medeiros, diretor-geral da empresa no Brasil, a empresa esperava que agentes com maior capacidade financeira passassem a assumir parte do risco de crédito das operações.
“Quando a gente começou, já escutava que o mercado operava com risco muito alto e que iria para um processo de se autorregular em algum momento. A gente apostou nisso. Empresas com mais capacidade financeira iriam se apresentar, como bancos e tradings, para assumir um pouco a gestão desse risco de crédito entre os participantes”, afirmou Medeiros, durante participação no MinutoMega Talks.
Hoje, as negociações de energia no Brasil são feitas majoritariamente de forma bilateral, o que exige que cada agente avalie individualmente o risco de crédito de suas contrapartes e mantenha estruturas próprias de garantias. Uma clearing centraliza parte dessa gestão, com uma contraparte entre compradores e vendedores.
Trafigura vê espaço no mercado brasileiro
A Trafigura obteve autorização da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para atuar como comercializadora no Brasil em junho deste ano e fechou sua primeira operação com a CGN, braço da China General Nuclear Power Group (CGN), dois meses após a autorização.
A entrada da empresa no mercado brasileiro de comercialização de energia ocorreu em um cenário marcado por pedidos de recuperação judicial e por uma postura mais cautelosa de diversos agentes, diante de problemas de crédito e da elevada volatilidade dos preços de energia.
Segundo Pedro Vidal, head de Comercialização de Energia da Trafigura, a companhia identificou oportunidades com a saída de comercializadoras com maior liquidez e a redução dos volumes negociados por grandes players. Com experiência no mercado de power nos Estados Unidos e na Europa, a Trafigura agora adapta sua atuação às características do mercado brasileiro.
“Temos um book limpo e queremos aproveitar esse vácuo para atuar em contratos de energia, produtos financeiros e operações estruturadas, adaptando a experiência global da Trafigura às características do mercado brasileiro”, afirmou.
Mesmo com as oportunidades identificadas, Vidal afirmou que antes a entrada da empresa no país foi postergada pela ausência de uma contraparte central, o que exige atualmente um trabalho mais intenso de análise de crédito das contrapartes, gestão jurídica e negociação dos contratos.
“Cada contraparte tem seu próprio contrato, enquanto nós também temos os nossos modelos, o que exige uma negociação e uma análise individualizada. Esse processo acabou atrasando nossa entrada no mercado, principalmente pelo trabalho necessário para estruturar as áreas de crédito, contratos e gestão de risco”, afirmou.
Para a Trafigura, a ideia de uma criação da clearing não foi determinante para a entrada no mercado brasileiro, mas pode funcionar como um catalisador adicional para a liquidez.
“Quando a Trafigura decidiu vir para o Brasil, efetivamente não contava com isso. Eu acho que é um plus, que vai aumentar a liquidez e trazer outros participantes. Mas o mercado de energia do Brasil já é um mercado muito bom, com muitas oportunidades”, afirmou.
De acordo com o executivo, a companhia já identificou oportunidades em operações estruturadas, produtos financeiros e trading de energia e avalia que a liquidez do mercado está se recuperando.
“Hoje já vemos o mercado brasileiro como um mercado muito bom e apto para a gente operar. Acho que a clearing seria um passo a mais.”
Czarnikow eleva régua de risco
A experiência recente com o mercado brasileiro também levou a Czarnikow a elevar os critérios de avaliação de risco no negócio de energia. Para Tiago Medeiros, é difícil avaliar, apenas a partir do balanço de uma companhia, seu nível de alavancagem e a dimensão do risco assumido.
“Uma empresa pode ser enorme e, ainda assim, estar tomando um risco 20 vezes maior. É muito difícil prever e antecipar esse tipo de movimento. O que estamos fazendo agora é elevar a régua de risco no negócio de energia. Estamos em uma fase de manutenção e gestão do portfólio, aguardando o mercado se enxugar um pouco mais. A partir daí, queremos iniciar um novo ciclo de crescimento, de preferência utilizando novos instrumentos de garantia”, disse.
O executivo também afirmou que a empresa possui uma área de crédito estruturada, mas que o ambiente litigioso trouxe um nível de incerteza maior do que o esperado.
“Esperávamos um cenário menos incerto, mas as decisões podem depender muito do juiz responsável pelo caso e da tese apresentada pelo devedor. Algumas decisões, inclusive, foram bastante inesperadas”, afirmou.
Ele também avaliou que a criação de uma bolsa de energia no Brasil, com o estabelecimento de uma contraparte central para as negociações, é “fundamental” para o desenvolvimento do mercado.