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Transplante capilar em Istambul: preços baixos, relatos de sequelas, cirurgias feitas por não médicos, mortes e risco

Fonte: bahianoticia.com.br | Data: 21/08/2026 20:53:47

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Turquia se tornou referência mundial no turismo para transplante capilar, mas denúncias de clínicas de alto volume, retirada excessiva de folículos, resultados irreversíveis, dificuldades no pós-operatório e alertas internacionais de segurança mostram que preço e propaganda não podem ficar acima da saúde e da segurança

Istambul se consolidou como um dos principais destinos mundiais para quem busca transplante capilar. Todos os anos, estrangeiros desembarcam na Turquia atraídos por pacotes que podem reunir cirurgia, hotel, traslado entre aeroporto e clínica e milhares de enxertos por preços bastante inferiores aos encontrados em outros países.

O problema começa quando uma cirurgia passa a ser tratada praticamente como um pacote turístico.

Por trás de fotografias impressionantes de “antes e depois”, propagandas nas redes sociais, indicações de conhecidos e promessas de resolver uma calvície extensa rapidamente, existe um procedimento cirúrgico que pode durar muitas horas, utiliza anestésicos, envolve milhares de pequenas incisões e exige avaliação médica, controle de medicamentos, planejamento da área doadora e estrutura capaz de enfrentar intercorrências.

É necessário deixar uma questão clara: existem médicos qualificados, hospitais estruturados e centros reconhecidos na Turquia. Não seria correto apresentar todo transplante realizado no país como irregular ou inseguro.

O que existe, entretanto, é um problema documentado internacionalmente envolvendo clínicas clandestinas, serviços de grande volume e procedimentos em que técnicos ou pessoas sem habilitação adequada podem executar etapas cirúrgicas.

A International Society of Hair Restoration Surgery, a ISHRS, afirma que o chamado mercado negro do transplante capilar é especialmente prevalente na Turquia e descreve situações nas quais vários pacientes são operados simultaneamente por pessoas não licenciadas sob a responsabilidade nominal de um único médico, que pode sequer estar presente no estabelecimento.

CEO do Bahia Notícia chegou a organizar viagem, mas recuou após os alertas

O assunto chegou também de forma muito próxima à redação do Bahia Notícia.

O editor do portal já tinha praticamente organizada uma viagem a Istambul por indicação de um amigo. A proposta envolvia um valor considerado baixo e a expectativa de fazer uma grande quantidade de enxertos em uma única sessão.

À primeira vista, parecia uma excelente oportunidade.

A percepção mudou depois que surgiram alertas sobre os riscos individuais envolvidos, sobretudo em razão de antecedentes cardiovasculares e hipertensão.

A discussão deixou de ser apenas cabelo, preço e aparência e passou a envolver anestesia, duração prolongada da cirurgia, medicamentos utilizados, pressão arterial, monitorização, possibilidade de emergência e capacidade da clínica de responder rapidamente a uma intercorrência.

Esse episódio serviu de alerta dentro do próprio Bahia Notícia: uma indicação de amigo, um preço atrativo e uma propaganda convincente não substituem uma avaliação médica individualizada.

CFM deixa claro: transplante capilar é cirurgia

No Brasil, o Conselho Federal de Medicina é categórico ao classificar o transplante capilar como intervenção cirúrgica e ato médico.

O Parecer CFM nº 3/2023 estabelece parâmetros de segurança e determina que o procedimento seja realizado em ambiente cirúrgico com estrutura física, equipamentos, materiais e medicamentos compatíveis com a cirurgia e com a anestesia.

O CFM chama atenção ainda para a longa duração desse tipo de operação. Segundo o Conselho, com exceção de situações específicas, a maioria dos transplantes pode durar aproximadamente oito a dez horas, exigindo monitorização durante toda a assistência e estrutura apropriada para atendimento de intercorrências.

Isso ajuda a entender por que o transplante capilar não deveria ser encarado como um procedimento banal entre a chegada ao hotel e o passeio turístico do dia seguinte.

O que alguns pacientes dizem ter encontrado depois de desembarcar

Um dos maiores problemas denunciados internacionalmente é a diferença entre aquilo que o paciente acredita estar contratando pela internet e aquilo que encontra quando entra na clínica.

A ISHRS vem combatendo procedimentos realizados por pessoas não licenciadas e clínicas que utilizam preços baixos e propaganda agressiva para captar pacientes. A própria entidade criou uma iniciativa destinada a divulgar casos de reparação de pessoas que afirmam ter sido vítimas desses serviços.

Há relatos em que pacientes afirmam ter conversado durante a contratação com vendedores e intermediários e, somente quando chegaram ao país, perceberam que o profissional anunciado não executaria integralmente o procedimento.

Essa diferença é particularmente preocupante porque transplante capilar exige decisões médicas durante a cirurgia, utilização de medicamentos e avaliação contínua das condições do paciente.

Paciente diz que pediu menos enxertos e terminou com área doadora comprometida

Um dos casos divulgados pela campanha Fight the Fight, ligada à ISHRS, é o de Chris.

Segundo seu próprio relato, ele decidiu procurar a Turquia depois da recomendação de um amigo. Não apresentava calvície avançada e queria principalmente melhorar as entradas.

Chris afirma que recebeu a informação de que um médico com anos de experiência realizaria a cirurgia.

Depois de chegar ao país, porém, diz ter encontrado um tradutor e um técnico, sem a participação do médico que esperava.

Segundo seu testemunho, cerca de 4 mil a 4,5 mil enxertos acabaram sendo retirados, quantidade muito superior à que ele imaginava necessária para seu caso. Posteriormente, apresentou importante comprometimento da área doadora, cicatrizes, baixa densidade e resultado que considerou artificial.

A atualização publicada pela própria entidade relata que ele precisou passar por duas cirurgias de reparação, com possibilidade de uma terceira, transformando a economia inicial em novos procedimentos e novos gastos.

É um relato individual e não pode ser utilizado para condenar todas as clínicas turcas. Mas mostra exatamente a natureza dos problemas denunciados pela sociedade médica internacional.

Área doadora é limitada e pode sofrer dano permanente

Existe uma informação que nem sempre aparece com o mesmo destaque das fotografias de antes e depois: a região doadora não possui cabelo infinito.

Os folículos retirados principalmente da parte posterior e das laterais da cabeça constituem uma reserva limitada.

Quando há retirada excessiva, o chamado overharvesting, o paciente pode apresentar falhas, redução importante de densidade, cicatrizes e menor quantidade de folículos disponível para futuras correções.

A própria ISHRS apresenta o esgotamento da área doadora como uma das possíveis consequências de transplantes executados inadequadamente e mantém casos clínicos de reparação envolvendo pacientes com cicatrizes, áreas rarefeitas e crescimento insatisfatório.

Em seu censo de 2025, a ISHRS informou que, entre seus membros participantes, a média de casos de reparação relacionados anteriormente a transplantes do chamado mercado negro foi de 10%. Quase 60% dos médicos participantes disseram haver clínicas desse tipo em suas cidades.

Preço muito abaixo do mercado deve despertar atenção

A própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária orienta quem pretende fazer procedimento estético a observar três pontos básicos: local autorizado, produto aprovado e profissional qualificado.

A Anvisa também orienta consumidores a desconfiarem de promessas milagrosas, garantias de resultado e preços praticados muito abaixo da média do mercado.

A Agência recomenda ainda a conferência das credenciais do profissional responsável e alerta que propaganda em redes sociais e indicação de influenciadores não substituem a avaliação individual de um profissional habilitado.

Isso não significa que todo procedimento barato seja ruim nem que um procedimento caro seja necessariamente bom.

Significa que uma cirurgia não deveria ser escolhida principalmente pelo menor preço.

Uma única megassessão nem sempre é a melhor solução

Outro argumento muito utilizado comercialmente é a possibilidade de fazer milhares de enxertos numa única sessão.

Isso pode ser tecnicamente possível em determinados pacientes, desde que exista indicação médica e área doadora suficiente.

Mas quantidade maior não significa automaticamente resultado melhor.

O NHS britânico informa que, quando uma região extensa precisa ser tratada, o paciente pode necessitar de duas ou mais sessões realizadas em dias diferentes. O próprio NHS também registra que transplantes capilares são geralmente seguros, mas possuem riscos de sangramento, infecção, reação ao anestésico, cicatrizes e falha no crescimento do cabelo transplantado.

Necrose, infecção, sangramento e reações anestésicas existem

Nenhuma cirurgia possui risco zero.

Entre os problemas associados aos transplantes mal executados ou às complicações cirúrgicas estão infecção, sangramento, cicatrização inadequada, necrose, falhas estéticas, perda de densidade e comprometimento da região doadora.

A ISHRS mantém inclusive casos de pacientes que precisaram de reparação após necrose do couro cabeludo em transplantes realizados em clínicas do chamado mercado negro.

O fato de determinadas complicações serem raras não reduz a necessidade de preparação.

Ao contrário: justamente porque uma emergência pode acontecer inesperadamente, é indispensável saber previamente se o local dispõe de profissionais, medicamentos, monitorização e estrutura suficientes para agir.

Britânico de 38 anos morreu após passar mal em clínica de Istambul

Um dos episódios de maior repercussão aconteceu em 2025.

O britânico Martyn James Latchman, de 38 anos, morreu em Istambul depois de passar mal durante a fase preparatória para um transplante capilar.

A clínica declarou que a cirurgia propriamente dita ainda não tinha começado e que o paciente havia realizado exames pré-operatórios. O caso foi submetido a investigação pelas autoridades turcas.

Por isso, é fundamental registrar corretamente: não existe base para afirmar apenas a partir desse episódio que o transplante capilar causou sua morte.

O caso, entretanto, demonstra por que uma cirurgia eletiva exige atenção clínica e estrutura de emergência até mesmo antes da primeira incisão.

Governo britânico registrou sete mortes após procedimentos médicos na Turquia em 2025

A preocupação com turismo médico na Turquia é mais ampla do que transplante capilar.

Na orientação oficial atual para viajantes, o governo britânico informa ter conhecimento de sete cidadãos britânicos que morreram na Turquia em 2025 após procedimentos médicos.

O documento também afirma que cidadãos britânicos sofreram complicações e precisaram de tratamentos ou novas cirurgias posteriormente.

A recomendação é conversar com o próprio médico antes da viagem, pesquisar de forma independente e lembrar que empresas privadas possuem interesse financeiro na venda do procedimento.

O Ministério da Saúde turco mantém no HealthTürkiye uma relação de prestadores autorizados.

Até instrumentos destinados a transplante capilar foram barrados pela Anvisa no Brasil

Em fevereiro de 2026, a Anvisa anunciou uma ação diretamente relacionada ao mercado de transplantes capilares.

Foram proibidas comercialização, distribuição, importação, propaganda e utilização de pinças cirúrgicas, punches e cartuchos com microlâminas de safira fabricados pela empresa turca ERTIP e identificados no mercado brasileiro.

Segundo a fiscalização, esses instrumentos haviam sido importados irregularmente e declarados como materiais utilizados para manicure e pedicure e como itens de uso pessoal, numa tentativa de burlar o controle aduaneiro e sanitário.

A Anvisa informou que os produtos não possuíam registro sanitário no Brasil.

Isso não significa que instrumentos médicos fabricados na Turquia sejam genericamente inseguros. A irregularidade dizia respeito especificamente aos materiais identificados pela fiscalização brasileira e à sua importação.

Além da cirurgia, existe o risco de estar sozinho em um país desconhecido

Outro aspecto merece entrar na conta de quem sai do Brasil exclusivamente para realizar uma cirurgia.

O paciente desembarca a milhares de quilômetros de casa, frequentemente sem dominar o idioma, sem conhecer pessoalmente o médico, os funcionários da clínica, os motoristas, os tradutores ou os intermediários que fizeram a negociação.

Não se trata de afirmar que a população turca seja “desconfiável” ou perigosa. Seria incorreto e injusto generalizar milhões de pessoas por sua nacionalidade.

O problema objetivo é outro: o paciente está em um ambiente que desconhece e pode se tornar extremamente dependente de pessoas que conheceu apenas pela internet ou depois de desembarcar.

Depois de uma cirurgia prolongada, possivelmente sob efeito residual de medicamentos e com limitações físicas, essa dependência pode aumentar.

Se surgir uma divergência comercial, uma complicação médica, desaparecimento de documentos, problema com pagamento ou necessidade de procurar autoridades, o paciente terá de lidar com leis, idioma, procedimentos e instituições diferentes daqueles com os quais está acostumado no Brasil.

Por isso, segurança da viagem também precisa fazer parte do planejamento.

Terrorismo: o risco é real e consta em alertas oficiais atuais

A possibilidade de terrorismo na Turquia não é invenção nem boato de internet.

Em junho de 2026, o Departamento de Estado dos Estados Unidos mantinha a Turquia no nível 2 — exercer maior cautela, citando terrorismo, conflito armado e detenções arbitrárias.

O alerta americano afirma que grupos terroristas continuam planejando possíveis ataques no país e que locais turísticos podem ser atingidos com pouco ou nenhum aviso. Entre os espaços em que recomenda maior cautela estão aeroportos, mercados, shoppings, transporte, hotéis, restaurantes, clubes, locais religiosos, parques e grandes eventos.

O próprio documento americano registra ocorrências terroristas recentes em diferentes cidades, inclusive Istambul.

Em agosto de 2026, o governo australiano também mantinha recomendação de alto grau de cautela na Turquia por causa da ameaça terrorista, informando que a maioria dos ataques anteriores ocorreu no sudeste do país, em Ancara ou em Istambul.

Isso não significa que um turista que desembarque em Istambul sofrerá um atentado.

Significa simplesmente que esse risco existe oficialmente e deve ser considerado, principalmente por alguém que está viajando para uma cirurgia eletiva e poderia realizar o procedimento em outro local.

Roubo, furto e assalto em áreas turísticas de Istambul também aparecem nos alertas

Há também crimes comuns contra turistas.

A orientação oficial australiana menciona entre os crimes registrados na Turquia assaltos, agressões, furtos e roubos de bolsas.

Segundo o documento, crimes são mais comuns em áreas turísticas de Istambul, entre elas Praça Taksim, Sultanahmet, Grand Bazaar e Spice Bazaar.

A recomendação é manter atenção especial aos pertences, sobretudo em transportes e locais movimentados, evitar áreas isoladas ou mal iluminadas e tomar cuidados ao utilizar caixas eletrônicos.

Novamente, isso não transforma Istambul em uma cidade em que todo turista será roubado.

Grandes destinos turísticos no mundo inteiro convivem com furtos e golpes. A diferença é que alguém recém-operado, com curativos, medicamentos, dinheiro, passaporte e telefone celular pode estar em situação de maior vulnerabilidade.

E os sequestros? Existe alerta, mas não há base para falar em uma onda contra pacientes em Istambul

A questão de sequestro também precisa ser apresentada com responsabilidade.

O governo australiano inclui um capítulo específico sobre kidnapping, afirmando que sequestros podem ocorrer e alertando particularmente para grupos terroristas que atuam na Síria e no Iraque e que podem estender operações para território turco.

Entretanto, durante a apuração desta reportagem, não foi encontrada fonte oficial confiável que sustente a afirmação de que existam “vários sequestros de brasileiros ou turistas que viajam para fazer transplante capilar em Istambul”.

Portanto, não seria correto transformar um risco geral de segurança em uma suposta onda de sequestros de pacientes médicos sem documentação.

O risco existe e consta em alerta governamental. Mas deve ser apresentado no tamanho real das evidências disponíveis.

Há ainda alerta para detenções arbitrárias

Outro ponto que raramente aparece nas propagandas de turismo médico é o ambiente jurídico.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos afirma que cidadãos estrangeiros já foram detidos na Turquia sob alegações relacionadas a grupos terroristas e que houve casos de proibição de saída do país.

A orientação americana também adverte que determinadas manifestações e críticas ao governo, inclusive em redes sociais, podem gerar problemas com as autoridades locais.

Não é um risco específico do transplante capilar, mas faz parte do contexto de uma viagem internacional eletiva.

O Reino Unido não proíbe viagem a Istambul, mas mantém advertências

Também é necessário evitar outro exagero.

O governo britânico não mantém uma recomendação geral para que seus cidadãos deixem de viajar a Istambul.

As áreas para as quais o Foreign, Commonwealth & Development Office mantém as advertências mais severas ficam principalmente próximas à fronteira com a Síria e em regiões específicas.

Ainda assim, o governo britânico afirma que nenhuma viagem pode ser garantida como totalmente segura e mantém orientações relacionadas ao terrorismo, à instabilidade regional, ao seguro e ao turismo médico.

Esse detalhe é importante para que a reportagem não transforme um alerta legítimo em alarmismo.

O retorno rápido para o Brasil pode trazer outro problema

Existe ainda uma fragilidade frequentemente ignorada nos pacotes que incluem avião, hotel, cirurgia e retorno poucos dias depois: quem cuidará do paciente quando ele voltar para casa?

Infecção, necrose, sangramento, falhas de cicatrização ou alterações importantes na área doadora podem aparecer quando a pessoa já estiver no Brasil.

Nesse momento, o profissional que realizou a cirurgia estará a milhares de quilômetros.

O governo britânico alerta que os padrões de instalações médicas e tratamentos podem variar amplamente e registra pacientes que precisaram de novos tratamentos ou cirurgias depois de procedimentos realizados na Turquia.

Também recomenda possuir seguro adequado, especialmente para pessoas com condições prévias de saúde.

Anvisa, CFM e CRMs não publicaram proibição específica contra Istambul

Outro ponto desta apuração precisa ser muito claro.

Até a consulta realizada para esta reportagem, não foi localizado documento oficial da Anvisa, do Conselho Federal de Medicina, dos Conselhos Regionais de Medicina ou de entidade sindical médica brasileira determinando que brasileiros não façam transplante capilar em Istambul.

Seria incorreto atribuir a essas instituições uma proibição que não foi publicada.

O que existe é suficientemente importante.

A Anvisa recomenda estabelecimento autorizado, produtos regularizados e profissional qualificado, além de orientar a população a desconfiar de preços muito abaixo do mercado e promessas de resultados garantidos.

O CFM, dentro da sua competência no Brasil, afirma que transplante capilar é cirurgia e ato médico e estabelece requisitos de estrutura e segurança.

A ISHRS, por sua vez, mantém alertas internacionais específicos sobre transplantes executados por pessoas sem habilitação e afirma que o fenômeno do mercado negro é particularmente relevante na Turquia.

Antes de comprar a passagem, algumas respostas precisam estar no papel

Quem pretende viajar para Istambul ou qualquer outro país para realizar um transplante deveria exigir respostas claras:

Quem é o médico que fará a cirurgia?

Qual é sua formação e seu registro profissional?

Ele estará presente durante todo o procedimento?

Quem aplicará a anestesia?

Quem fará a retirada dos folículos?

Quem abrirá os canais receptores?

Quem fará a implantação?

Quantas pessoas serão operadas naquela clínica no mesmo dia?

Existe limite definido para a retirada da área doadora?

Existe monitorização de pressão e frequência cardíaca?

O estabelecimento dispõe de estrutura e medicamentos para emergência?

Existe hospital de retaguarda?

A clínica aparece entre os prestadores autorizados pelas autoridades sanitárias turcas?

Quem prestará atendimento se houver complicação depois da volta ao Brasil?

O seguro de viagem cobre complicações decorrentes de uma cirurgia eletiva?

Quem será o motorista responsável pelos deslocamentos?

O paciente possui os endereços reais da clínica, do hotel e do hospital de referência?

Algum familiar no Brasil possui cópia do passaporte, passagem, informações do hotel, clínica e contatos médicos?

E, principalmente:

as doenças preexistentes e todos os medicamentos do paciente foram avaliados por médico antes da confirmação da cirurgia?

O barato pode ficar caro — e o risco vai muito além do cabelo

O objetivo desta reportagem não é afirmar que todo transplante realizado em Istambul termina mal.

Isso não seria verdadeiro.

Há profissionais qualificados na Turquia e pacientes que retornam satisfeitos.

O alerta está no modelo em que uma cirurgia é comprada essencialmente pelo preço, pela propaganda no Instagram, pela indicação de um conhecido ou pela promessa de fazer milhares de enxertos rapidamente.

Um procedimento mal executado pode comprometer a área doadora, produzir cicatrizes, provocar baixa densidade, gerar resultado artificial e exigir novas cirurgias.

Além disso, a decisão envolve viagem internacional, distância da família, desconhecimento do idioma e do sistema local, necessidade de confiar em intermediários, possibilidade de crimes contra turistas e uma ameaça terrorista reconhecida oficialmente por governos estrangeiros.

Para pessoas com doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes, alterações de coagulação ou utilização contínua de medicamentos, a avaliação precisa ser ainda mais cuidadosa.

Foi justamente a soma desses fatores que levou o editor do Bahia Notícia a reconsiderar uma viagem que inicialmente parecia simples, barata e vantajosa.

Antes do número de enxertos, antes do hotel, antes do preço e antes da fotografia prometida para alguns meses depois, vem uma questão maior:

a vida e a segurança do paciente.

Cabelo pode contribuir para autoestima. Mas um procedimento puramente estético jamais deveria ser realizado sem que o paciente tenha certeza de quem irá operá-lo, onde será operado e quais condições existirão caso alguma coisa saia do planejamento.

Relatos, documentos, informações e fontes consultadas

Esta reportagem foi construída a partir de documentos oficiais, publicações de entidades médicas, informações sanitárias, literatura científica, relatos identificados de pacientes e familiares e reportagens publicadas por veículos de comunicação nacionais e internacionais.

Entre as principais fontes consultadas estão:

Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, com orientações relacionadas à segurança em procedimentos estéticos e fiscalização de dispositivos utilizados em transplantes capilares;

CFM – Conselho Federal de Medicina, incluindo o Parecer CFM nº 3/2023 e as orientações sobre transplante capilar como intervenção cirúrgica e ato médico;

– ISHRS – International Society of Hair Restoration Surgery, entidade internacional especializada em restauração capilar;

– Fight the Fight/ISHRS, projeto que reúne relatos e casos de reparação de transplantes executados em clínicas consideradas irregulares pela entidade;

– NHS – National Health Service, sistema público de saúde britânico, com informações sobre transplante capilar, anestesia, complicações e cirurgias no exterior;

– GOV.UK – Governo do Reino Unido, com orientações oficiais sobre turismo médico, segurança e saúde na Turquia;

– Departamento de Estado dos Estados Unidos – Travel.State.gov, com o alerta oficial de viagem atualizado para a Turquia;

– Smartraveller – Governo da Austrália, com alertas atuais sobre terrorismo, sequestro, crimes e segurança em áreas turísticas de Istambul;

– HealthTürkiye, plataforma das autoridades turcas com prestadores autorizados para atendimento internacional;

– The Guardian, que publicou informações sobre a morte do britânico Martyn James Latchman depois de passar mal na preparação para um transplante em Istambul;

– PubMed Central/National Library of Medicine, para informações científicas relacionadas aos riscos e complicações dos transplantes capilares;

– Relatos públicos de pacientes e familiares, utilizados como testemunhos individuais e não como comprovação isolada de responsabilidade médica ou criminal.

O Bahia Notícia ressalta que um relato pessoal, isoladamente, não comprova erro médico nem permite generalizar a atuação de todas as clínicas, médicos ou habitantes de Istambul e da Turquia.

Da mesma forma, a existência de alertas oficiais sobre terrorismo, crimes e sequestro não significa que todos os visitantes serão vítimas dessas situações.

A finalidade da reportagem é reunir informações que geralmente não aparecem com o mesmo destaque nas propagandas comerciais para que o interessado possa decidir com maior conhecimento dos riscos.

Principais fontes da apuração: Anvisa; Conselho Federal de Medicina; ISHRS; Fight the Fight/ISHRS; NHS; GOV.UK/FCDO; Departamento de Estado dos Estados Unidos; Smartraveller/Governo da Austrália; HealthTürkiye; The Guardian; PubMed Central/National Library of Medicine e relatos públicos de pacientes e familiares.