Naufrágio de 133 anos ameaça expansão do porto em Santa Catarina
Fonte: aventurasnahistoria.com.br | Data: 22/08/2026 10:40:22
Um naufrágio ocorrido há 133 anos voltou a chamar atenção em Santa Catarina por causa dos planos de expansão do Complexo Portuário de Itajaí e Navegantes. Os destroços do navio Pallas, que estão no fundo do rio Itajaí-Açu, representam atualmente um obstáculo para o projeto de ampliação da capacidade de operação do porto.
O objetivo das obras é permitir a ancoragem de navios maiores. Para isso, a região onde estão os restos da embarcação precisa passar por intervenções que incluem o aprofundamento do espaço para 16 metros e o alargamento para um diâmetro de 530 metros.
O Pallas está localizado entre as boias 9 e 11, próximo à Bacia de Evolução nº 2. O local é utilizado pelas embarcações para realizar manobras, mudar de direção ou se posicionar antes de seguir pelo canal. Por isso, a remoção dos destroços é considerada essencial para melhorar as condições de navegação e reforçar a segurança das operações.
Retirada ainda depende de estudos

De acordo com a revista Galileu, apesar de a remoção ser considerada necessária para as obras portuárias, ainda não existe uma operação definida para retirar o Pallas do fundo do rio.
Antes disso, é preciso descobrir o que permanece submerso e em quais condições estão os destroços. Para realizar essa etapa, a Universidade do Vale do Itajaí (Univali), o Porto de Itajaí e a Autoridade Portuária Federal assinaram, em maio, um convênio destinado à realização de estudos técnicos no local.
O investimento previsto é de R$ 310 mil e inclui diferentes atividades. Inspeções subaquáticas deverão identificar a posição e o estado das estruturas metálicas e dos fragmentos de madeira. Sondagens ajudarão os pesquisadores a compreender a relação dos destroços com o leito do rio, enquanto a análise estrutural servirá para avaliar como as partes remanescentes podem reagir às técnicas de retirada.
A partir dessas informações, os responsáveis deverão definir a melhor estratégia para remover a embarcação: inteira, em grandes partes ou de forma fragmentada.
A escolha é especialmente importante porque levantamentos anteriores indicaram que o navio se partiu ao meio, característica que pode dificultar sua recuperação.
Naufrágio também é patrimônio histórico
A retirada do Pallas não envolve apenas questões de engenharia. Por se tratar de uma embarcação histórica, os materiais retirados do rio precisarão ter uma destinação definida.
A Univali, em articulação com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Marinha do Brasil, deverá avaliar como lidar com partes metálicas, madeira e outros objetos que eventualmente sejam encontrados entre os destroços.
Assim, o projeto precisa conciliar dois objetivos: liberar uma área considerada estratégica para a atividade portuária e preservar adequadamente vestígios que podem contribuir para a compreensão de um episódio histórico do final do século 19.
Pallas afundou durante a Revolta da Armada
Construído na Inglaterra em 1891, o Pallas pertencia à Companhia Frigorífica Fluminense e realizava a rota entre Rio de Janeiro e Buenos Aires, com escalas em Itajaí. A embarcação transportava cargas e passageiros e era considerada moderna para os padrões da época.
O navio afundou em 23 de outubro de 1893, durante a Revolta da Armada, conflito que colocou setores da Marinha brasileira contra o governo do marechal Floriano Peixoto, então presidente da República.
Segundo relatos históricos reunidos no comunicado à imprensa da Univali, o episódio também teve desdobramentos em Santa Catarina, onde ocorreram operações militares e confrontos relacionados à revolta.
Nesse contexto, o Pallas teria sido abordado e saqueado. Depois, ao entrar durante a noite no canal do rio Itajaí-Açu, a embarcação colidiu com pedras submersas nas proximidades do atual molhe norte e acabou afundando.
Outra versão apresentada pelo NSC Total afirma que o comandante do Pallas teria se recusado a apoiar os revoltosos que tentavam derrubar Floriano Peixoto. A recusa teria colocado a embarcação no centro das disputas políticas e militares daquele período.
Mais de um século depois, os restos do navio voltam a ocupar um lugar importante nas discussões sobre Santa Catarina. Desta vez, o desafio é encontrar uma maneira de retirar os destroços sem deixar de considerar o valor histórico do naufrágio, ao mesmo tempo em que se busca liberar espaço para a expansão do complexo portuário.
*Sob supervisão de Giovanna Gomes