ONU discute como unir expansão das energias renováveis e restauração de terras
Fonte: jornalgrandebahia.com.br | Data: 23/08/2026 13:24:10
A expansão das energias renováveis poderá ocupar cerca de 3 milhões de hectares até 2032, segundo estimativa apresentada durante uma conferência da Organização das Nações Unidas sobre desertificação, realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia. O número representa uma ampliação significativa em relação aos menos de 500 mil hectares atualmente utilizados por projetos de energia renovável e levou especialistas a discutir formas de conciliar a transição energética com a restauração e a conservação das terras.
O debate abordou experiências realizadas na China, Índia e África do Sul, além de situações relacionadas a áreas de pastagem, bacias hidrográficas e antigas regiões de mineração. A discussão considera que instalações solares, eólicas e hidrelétricas produzem impactos sobre o território, mas também podem ser planejadas para contribuir com a recuperação ambiental, a produção agrícola e a geração de renda.
A questão central apresentada pelos especialistas é como escolher os locais para novos empreendimentos considerando não apenas a produção de eletricidade, mas também biodiversidade, recursos hídricos, comunidades, atividades econômicas e riscos climáticos. A proposta é incorporar essas variáveis desde a etapa inicial dos projetos.
Energia renovável pode ser associada à restauração ambiental
Muralee Thummarukudy, diretor da Iniciativa Global de Terras do G20 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, afirmou que a expansão da infraestrutura energética deve ser considerada uma oportunidade para integrar geração de eletricidade e recuperação ambiental.
Segundo o especialista, menos de 500 mil hectares são atualmente utilizados para projetos de energia renovável, mas a área poderá chegar a aproximadamente 3 milhões de hectares em 2032. Para ele, o crescimento previsto exige planejamento sobre o uso da terra antes da implantação das estruturas.
A perspectiva apresentada durante o encontro não propõe limitar a expansão das fontes renováveis, mas orientar sua localização e seu desenho para reduzir impactos e, quando possível, produzir benefícios adicionais. Em determinadas condições, painéis solares podem contribuir para reduzir a evaporação, proteger o solo e diminuir a ação dos ventos próximos à superfície.
Planejamento territorial deve considerar comunidades e biodiversidade
A necessidade de avaliar o território de forma integrada foi destacada por Julian Blanc, chefe da Divisão de Biodiversidade e Terras do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Para o especialista, a escolha de uma área para receber infraestrutura energética não deveria ocorrer antes da análise de seus possíveis impactos.
O planejamento, segundo essa abordagem, deve considerar biodiversidade, água, comunidades, rotas migratórias e exposição a secas e enchentes. Somente depois dessas informações reunidas seria definida a localização mais adequada para os empreendimentos.
Blanc também defendeu a participação das comunidades locais nas avaliações. Moradores e usuários tradicionais do território podem identificar riscos relacionados à seca, às enchentes e a outros fatores que não necessariamente aparecem em avaliações exclusivamente técnicas.
Pastagens não devem ser tratadas como áreas vazias
As áreas de pastagem receberam atenção especial no debate. Na Mongólia e em outras regiões, grandes extensões abertas podem apresentar baixa ocupação urbana, mas sustentam comunidades pastoris, rebanhos, biodiversidade e sistemas sazonais de acesso à água.
Thummarukudy ressaltou que pastagens não devem ser classificadas como florestas degradadas aguardando outro uso nem como terras disponíveis para receber instalações de geração de energia. A definição desses espaços como ecossistemas específicos é considerada necessária para evitar decisões que desconsiderem suas funções ambientais e sociais.
A avaliação territorial também pode identificar situações em que energia e produção de alimentos compartilham o mesmo espaço. Essa possibilidade é observada em projetos de irrigação solar na Índia, onde agricultores utilizam a eletricidade produzida pelos painéis e podem comercializar o excedente.
Na Índia, energia solar também gera renda para agricultores
A oficial de programas da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena), Gayathri Nair, apresentou durante o encontro um programa de irrigação movida a energia solar desenvolvido para pequenos agricultores na Índia.
Uma plataforma digital auxilia os produtores na identificação das áreas mais adequadas para a instalação dos painéis. A estrutura também conta com apoio de uma empresa local de energia e com um sistema digital de pagamentos pelo excedente de eletricidade produzido.
A energia solar pode alimentar as bombas de irrigação e, quando há produção superior ao consumo, o excedente pode ser transformado em renda adicional. Nesse modelo, a geração de eletricidade é integrada à atividade agrícola sem necessariamente substituir a produção de alimentos.
Projetos solares são associados à recuperação de áreas desérticas na China
Outro exemplo apresentado foi observado pelo pesquisador He Jijiang, da Universidade Tsinghua, em projetos instalados nos desertos da China. No deserto de Tengger, painéis solares são combinados com vegetação e sistemas de manejo da água e da areia.
As estruturas podem reduzir a evaporação e a velocidade dos ventos próximos ao solo. A água que escorre pelas bordas dos painéis também pode ser coletada e direcionada às plantas, enquanto arbustos auxiliam na fixação da areia.
No deserto de Taklamakan, um dos ambientes mais áridos do país, bombas alimentadas por energia solar são utilizadas para transportar água destinada à irrigação. A vegetação contribui para estabilizar a areia ao longo de estradas e outras áreas de infraestrutura.
Áreas de mineração podem receber projetos de energia limpa
A instalação de empreendimentos renováveis em áreas degradadas pela mineração foi apresentada como outra alternativa para reduzir a ocupação de novas paisagens. O aproveitamento dessas áreas também pode ser facilitado pela existência de infraestrutura de transmissão de energia.
Julian Blanc citou um projeto solar implantado em uma antiga área de mineração na África do Sul. O exemplo demonstra como locais que já sofreram alterações ambientais podem ser considerados para novos projetos, evitando, em determinadas circunstâncias, a transformação de áreas ainda preservadas.
Os especialistas, porém, ressaltaram que não existe um modelo único aplicável a todas as regiões. Projetos solares podem exigir remoção de vegetação, alterar o fluxo da água e interferir na fauna. Dependendo das condições locais, essas mudanças também podem aumentar determinados riscos ambientais.
Impactos precisam ser avaliados em escala regional
A discussão sobre os efeitos acumulados ganhou destaque com o exemplo da bacia do rio Shire, no Maláui. Segundo o Pnuma, diferentes projetos hidrelétricos podem produzir impactos que parecem administráveis quando avaliados separadamente, mas que se tornam mais significativos quando analisados conjuntamente em toda a bacia.
Entre os riscos identificados estão pressões sobre pesca, biodiversidade e comunidades localizadas rio abaixo. O caso foi utilizado para defender avaliações que considerem o conjunto de empreendimentos existentes e planejados em uma mesma paisagem.
A avaliação integrada busca superar uma abordagem limitada à redução individual dos impactos. Para Blanc, a expansão das energias renováveis poderá representar uma das maiores transformações no uso da terra e, por isso, precisa considerar seus efeitos acumulados sobre ecossistemas e populações.
Transição energética também envolve resíduos e minerais
A discussão sobre o uso da terra não se limita às áreas ocupadas diretamente pelas usinas. Painéis solares e baterias dependem de minerais extraídos em outras regiões e, após o fim de sua vida útil, também geram resíduos que precisam ser administrados.
Thummarukudy chamou atenção para o crescimento do volume de resíduos provenientes de equipamentos solares à medida que as primeiras gerações de painéis começam a ser retiradas de operação. O cenário também abre espaço para a recuperação de materiais por meio da reciclagem e da chamada mineração urbana.
Segundo o especialista, novos painéis já estão sendo desenvolvidos considerando princípios da economia circular, com possibilidade de recuperação e reaproveitamento de materiais. A atividade poderá criar oportunidades econômicas para empresas vinculadas à reciclagem e à economia verde.
Incentivos podem orientar escolha de áreas
Outra proposta discutida no encontro é a criação de incentivos econômicos para projetos que contribuam para a restauração da terra. A ideia é fazer com que os custos e benefícios ambientais sejam considerados na escolha dos locais destinados à expansão da energia renovável.
A adoção de critérios territoriais pode favorecer áreas com menor valor ambiental ou já degradadas, além de evitar regiões de elevada biodiversidade e áreas agrícolas produtivas quando existirem alternativas adequadas.
Para os participantes do debate, a localização dos empreendimentos deve ser definida a partir de uma combinação de fatores ambientais, sociais e econômicos. A geração de eletricidade permanece como objetivo central, mas pode ser acompanhada de medidas relacionadas à restauração ecológica, segurança alimentar e geração de renda.
ONU pretende reunir experiências de diferentes países
O Pnuma anunciou uma futura chamada global para reunir estudos de caso de projetos de energia renovável que tenham conciliado uso da terra, recursos hídricos, biodiversidade e participação comunitária.
A iniciativa deverá envolver, além do Pnuma, a Irena e outras organizações, abrangendo projetos de energia solar, eólica, hidrelétrica, geotérmica e infraestrutura de transmissão de eletricidade.
A intenção é ampliar a disponibilidade de exemplos documentados para auxiliar países que estão planejando a expansão das fontes renováveis. Segundo os especialistas, ainda existem poucos casos sistematizados capazes de demonstrar como diferentes objetivos ambientais e sociais podem ser integrados aos projetos.
Transição energética e restauração da natureza entram na mesma agenda
O debate realizado na Mongólia colocou em discussão uma questão que tende a ganhar importância com a expansão global das energias renováveis: como ampliar a geração de eletricidade sem aumentar a pressão sobre terras, água, biodiversidade e comunidades.
As experiências apresentadas indicam diferentes possibilidades, como integrar painéis solares à agricultura, utilizar estruturas para auxiliar no controle da desertificação, reaproveitar áreas de mineração e planejar projetos considerando os impactos acumulados em bacias hidrográficas.
A discussão também reforçou que a transição energética envolve mais do que substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis. O planejamento territorial, a restauração de áreas degradadas, a economia circular e a participação das comunidades passam a integrar a agenda de expansão da infraestrutura de energia limpa.
*Com informações da ONU News.