O que acontece quando uma mulher decide mudar?
Fonte: sulseguro.com | Data: 24/08/2026 08:56:09
A vida profissional de Nadine Della Giustina poderia ter seguido um roteiro bastante previsível. Faculdade de Odontologia, especialização em ortodontia, consultório, pacientes e uma carreira construída dentro da área da saúde. Só que ela nunca teve exatamente o perfil de quem se contenta com um roteiro pronto.
Aos 44 anos, nascida em Porto Alegre e hoje morando no Rio de Janeiro, Nadine divide a vida entre três cidades, Rio, São Paulo e a capital gaúcha, por causa da ExperMed, empresa da qual é CEO. É casada, ainda não tem filhos e mantém uma rotina que mistura viagens, decisões, musculação, corrida e uma agenda que dificilmente caberia em uma semana de oito horas por dia.
Mas talvez a melhor maneira de entender quem está por trás da executiva seja voltar ao começo. Nadine não escolheu a odontologia porque tinha, desde criança, o sonho de ser dentista. O sonho era outro, e, curiosamente, continua sendo o mesmo.
“Desde muito jovem, eu queria construir algo que deixasse um legado, que tivesse impacto positivo na vida das pessoas e que fosse reconhecido pelo valor que agregasse”, conta.
Na época, ela ainda não sabia qual profissão a levaria até lá. Escolheu a odontologia, tornou-se ortodontista e exerceu a profissão por mais de dez anos. O consultório, porém, acabaria ensinando muito mais do que técnica clínica. “A odontologia deixou muito mais em mim do que conhecimento técnico. Ela me ensinou disciplina, responsabilidade, atenção aos detalhes e, principalmente, a lidar com pessoas.”
É uma frase que ajuda a explicar a executiva que viria depois. Porque, antes de comandar uma empresa, Nadine aprendeu a ouvir. Aprendeu a entender expectativas. Aprendeu que confiança também é uma forma de competência. “Quando você atende um paciente, precisa saber ouvir, entender expectativas, transmitir segurança e tomar decisões com responsabilidade. E vejo muito disso na minha forma de liderar hoje.”
A mudança de rota começou quando ela percebeu que gostava tanto do que acontecia dentro da empresa quanto daquilo que acontecia na sua profissão. Foi parar no RH da ExperMed e, dali, começou a descobrir um outro universo: pessoas, processos, cultura, decisões e construção de negócio.
“Não considero que tenha abandonado uma carreira para começar outra do zero. Tudo o que aprendi na odontologia veio comigo e contribuiu para a profissional que me tornei.”
Uma empresa construída para fazer diferente
A ExperMed nasceu em 2013 com uma provocação bastante clara: transformar um mercado considerado conservador e extremamente técnico por meio de tecnologia e uma visão multidisciplinar. Em vez de restringir as perícias ao universo médico, a empresa passou a reunir médicos, advogados, administradores e profissionais de diferentes áreas. O resultado era uma linguagem mais clara e uma análise capaz de conversar melhor com os diferentes envolvidos nos processos.
A tecnologia entrou cedo nessa história. A empresa criou o ExperWeb, plataforma própria que concentra praticamente todos os processos, inclusive etapas relacionadas ao ato pericial. O objetivo não era simplesmente digitalizar o trabalho, mas torná-lo rastreável, auditável e seguro, além de ajudar no combate às fraudes que impactam o mercado segurador.
O crescimento veio sem a necessidade de uma grande explosão de marketing. Vieram clientes. Depois, indicações. E mais clientes.
“Poucas coisas validam tanto uma empresa quanto um cliente colocar a própria reputação em jogo para recomendá-la a outro”, diz Nadine.
A frase poderia estar em uma parede de qualquer empresa. Mas ganha outro peso quando vem de alguém que passou os últimos anos justamente tentando construir valor a partir de relacionamento, confiança e qualidade de entrega.
Até que veio 2020. E, com ele, a pandemia.
O ano em que ela virou CEO
Nadine assumiu a posição de CEO da ExperMed justamente no início da maior ruptura global das últimas décadas. Ela havia feito um MBA no Vale do Silício em 2019 e, ao retornar ao Brasil, recebeu a missão de comandar a empresa. Não houve período de adaptação, tampouco o conforto de um cenário previsível.
O Judiciário praticamente parou. As perícias presenciais ficaram inviáveis. A demanda caiu.
A primeira decisão foi também uma das mais difíceis: a ExperMed decidiu não demitir ninguém e não reduzir salários.
“Financeiramente, foi uma decisão que custou muito para a empresa, mas acreditávamos que precisávamos preservar nosso time.”
Só que preservar pessoas não significava esperar a crise passar. Era preciso encontrar uma maneira de continuar trabalhando.
Foi nesse momento que a empresa levou a teleperícia para o mercado, inicialmente nas perícias administrativas. Em um cenário em que ninguém podia sair de casa, uma solução criada para uma emergência acabou encontrando uma demanda real.
A crise, que poderia ter sido apenas uma ameaça, virou também uma espécie de teste de resistência.
“Esses momentos me ensinaram que crises podem colocar uma empresa em risco, mas também podem obrigá-la a encontrar capacidades que talvez ela ainda não soubesse que tinha.”
Não seria a última vez.
Em outro momento difícil, uma das verticais de atuação da ExperMed foi descontinuada. Ela representava cerca de 30% do faturamento. Mais uma vez, a companhia decidiu não responder à crise com uma grande demissão. As pessoas foram realocadas, enquanto as outras duas verticais precisaram crescer o suficiente para absorver aquela estrutura. E cresceram.
Talvez seja por isso que Nadine não goste muito da ideia de que um CEO precisa ter todas as respostas.
“Ser CEO não significa ter todas as respostas. Significa saber tomar decisões mesmo quando você não tem todas as informações, formar um bom time, ouvir pessoas que sabem mais do que você em determinados assuntos e assumir a responsabilidade pelas escolhas e pelos resultados.”
E completa: “Eu fui crescendo junto com a posição e continuo aprendendo até hoje.”
O lado de fora da CEO
Existe, entretanto, uma Nadine que não aparece nos organogramas.
Ela corre. Faz musculação. Viaja. Divide a rotina entre diferentes cidades. É casada. Não tem filhos. E não acredita muito naquela versão de equilíbrio perfeito que aparece em tantas apresentações corporativas. “Não acredito muito na ideia de um equilíbrio perfeito todos os dias.”
Para ela, há períodos em que a empresa exige mais e outros em que a vida pessoal ganha espaço. O segredo está menos em encontrar uma fórmula perfeita e mais em estabelecer prioridades.
“Sucesso profissional não pode ser a única medida de uma vida bem-sucedida.”
Talvez seja justamente aí que a história profissional encontre a pessoal. Nadine passou boa parte da carreira construindo uma empresa, mas não parece interessada apenas em construir uma empresa maior. Ela fala em impacto. Fala em pessoas. Fala em legado.
E, nesse ponto, volta ao sonho que tinha quando ainda nem sabia qual profissão escolher.
“Quando olho para profissionais que começaram conosco em posições muito diferentes e que hoje ocupam posições de liderança, percebo que o legado de uma empresa não está apenas nos números. Está também nas pessoas que ajudamos a desenvolver.”
Mudar de caminho não é começar do zero
Talvez uma das partes mais interessantes da trajetória de Nadine seja justamente a que poderia parecer, à primeira vista, um desvio: a dentista que virou executiva.
Hoje, ela olha para trás e não vê desperdício de tempo. “Durante muito tempo, somos ensinados a escolher uma profissão como se aquela decisão tivesse que determinar toda a nossa vida. Eu me formei em odontologia, me especializei e exerci a profissão. Depois escolhi outro caminho.”
E há uma espécie de conselho para a Nadine mais jovem, e talvez para muita gente que ainda está tentando descobrir qual será o próximo passo.
“Não tenha tanto medo de mudar. Às vezes, mudar de caminho não significa abandonar o que você construiu; significa usar tudo o que aprendeu para construir algo ainda maior.”
No fim, a CEO da ExperMed parece ter encontrado uma definição bastante particular para sucesso. Não é apenas faturamento, cargo ou crescimento. É o que fica depois que determinada pessoa passa por uma empresa, por um projeto ou pela vida de alguém.
“Não quero simplesmente passar pelas coisas e pessoas; quero deixar algo melhor do que encontrei.”
É uma frase simples para uma trajetória que está longe de ser simples. Da odontologia à gestão. Do RH à cadeira de CEO. Da pandemia à teleperícia. Das crises à expansão. De Porto Alegre ao Rio, passando por São Paulo.
Nadine ainda não parece muito interessada em dizer que chegou lá.
“Independentemente de tudo o que já construí e aprendi, ainda tenho muito a desenvolver, novas competências, novos conhecimentos e novas formas de enxergar as coisas”, afirma.
Talvez esse seja o detalhe mais revelador sobre ela. A executiva que chegou ao topo continua se comportando como quem ainda está a caminho. E, para alguém que sempre quis deixar algo melhor do que encontrou, talvez esse caminho nunca termine.