ARTIGO O risco é do produtor
Fonte: telaviva.com.br | Data: 25/08/2026 21:16:12
Há uma década, as placas tectônicas da indústria audiovisual começaram a se mover. Um terremoto lento e irrefreável se desenhava. O streaming ampliou exponencialmente a oferta de conteúdo, transformou hábitos de consumo, alterou o modelo de negócio e inaugurou uma competição inédita pela atenção do público. Nunca se produziram tantos filmes e séries. Paradoxalmente, nunca foi tão difícil produzir obras capazes de permanecer na memória das pessoas.
A originalidade virou uma questão de sobrevivência. Em um mercado saturado, apenas projetos com identidade clara, visão artística consistente e capacidade de dialogar com sua audiência conseguem alcançar relevância. Não basta produzir mais. É preciso produzir obras que justifiquem sua existência.
É justamente nesse contexto que a figura do produtor volta a ser central para o futuro da indústria.
Costuma-se dizer que o produtor identifica projetos, negocia direitos, reúne talentos, direciona criativamente, estrutura o financiamento, implementa a produção e acompanha todas as etapas, garantindo o melhor resultado artístico e comercial da obra. Tudo isso é verdade. Mas essa descrição explica apenas o que ele faz, não o que ele representa em um filme ou em uma série.
O produtor é o guardião de uma obra. Ele precisa ser capaz de dialogar profundamente com a dramaturgia proposta pelos autores. Afinal, é a dramaturgia – mesmo no caso de documentários – que deve funcionar como farol ao longo de toda a jornada, da sinopse ao lançamento. É a partir dela que o produtor identifica fragilidades estruturais, temas e storylines ainda não explorados, personagens e cenas pouco desenvolvidos, estimulando e provocando criativamente os roteiristas. Ele precisa ser capaz de identificar aquilo que, às vezes, ainda não está claro nem para quem escreve. E, ao longo de todo o processo, promover diálogos criativos sólidos, respeitosos e frutíferos com as escolhas da direção, da fotografia, da direção de arte, do elenco, da montagem e de todas as demais áreas envolvidas na obra
Isso exige convicção. Mas exige, igualmente, escuta.
O cinema talvez seja a mais coletiva de todas as artes. Uma grande obra nasce do encontro entre dezenas – às vezes centenas – de profissionais extraordinários, cada um contribuindo com seu talento, sua experiência e sua visão. O produtor precisa ser capaz de criar um ambiente em que essas contribuições floresçam e as divergências atuem como um motor criativo. Precisa saber ouvir um roteirista, confiar em um diretor, desafiar uma ideia, acolher uma solução inesperada e, ao final, tomar decisões difíceis: proteger talentos quando ainda não chegaram ao melhor resultado ou promover mudanças quando o processo já se tornou insustentável.
Liderar, nesse contexto, não significa controlar todas as respostas. Significa fazer com que diferentes visões caminhem na mesma direção.
Foi assim que Irving Thalberg ajudou a estruturar o modelo clássico de Hollywood. Foi assim que David O. Selznick fez do produtor uma liderança criativa. Foi assim que Robert Evans apostou em projetos que redefiniram o cinema norte-americano. Na França, Marin Karmitz construiu uma carreira marcada pela defesa da liberdade criativa e criou um modelo independente de produção, distribuição e exibição.
No Brasil, essa tradição encontra em Luiz Carlos Barreto um de seus grandes representantes – e talvez o exemplo mais completo. Sua trajetória demonstra que uma cinematografia sólida não nasce apenas de grandes diretores ou de grandes roteiristas. Sua recente partida encerra uma trajetória extraordinária. Mas seu legado talvez seja ainda mais relevante neste momento de fragilidade da indústria brasileira independente.
Batalhamos pela melhoria dos mecanismos de financiamento, pela regulamentação do streaming, pela maior capilaridade das nossas produções e pela adoção de novos modelos de negócio. A forma como esses temas vêm sendo tratados tem comprometido severamente nosso potencial no mercado global. Mas, para além disso, uma indústria forte precisa de produtores capazes de reconhecer uma história que merece ser contada e de conduzi-la, com firmeza e sensibilidade, até encontrar seu público.
Essa liderança, porém, carrega consigo uma responsabilidade singular. Em poucas funções da cadeia audiovisual as decisões criativas caminham tão próximas da responsabilidade jurídica, financeira e institucional. É seu nome – e, muitas vezes, seu patrimônio pessoal e empresarial – que responde pela entrega da obra a investidores, distribuidores e plataformas. Se o orçamento estoura, se o cronograma falha ou se o projeto não entrega aquilo que prometeu, é sobre ele que recai, antes de qualquer outro, a responsabilidade. Quando as demais lideranças da cadeia não atuam em consonância com esse nível de responsabilidade, comprometem todo um ecossistema arduamente construído e colocam em risco a credibilidade do mercado.
Fortalecer nossa indústria não significa reinventar funções nem multiplicar nomenclaturas. Significa investir na valorização e na formação de produtores. Significa acreditar em um modelo de trabalho no qual a responsabilidade criativa e a responsabilidade comercial caminham juntas.
É preciso acreditar no incerto para construir a possibilidade de uma grande audiência e de uma grande bilheteria, de um Top 10, do sucesso de crítica, de números globais e de premiações.
E esse continuará sendo, sempre, o maior risco da profissão.
* Gustavo Mello é produtor e sócio da Boutique Filmes