Uma gestora entre o PCC e o Master
Fonte: piaui.uol.com.br | Data: 26/08/2026 10:12:36
Partiu do investidor Robert John van Dijk, em março de 2025, a ideia de criar um comitê que pudesse colocar a gestora Reag em conformidade com regras mínimas de governança. Van Dijk ingressara na empresa quatro meses antes, depois de vender sua firma de investimentos, a Hieron, para a Reag, e passara a comandar a área de gestão de fortunas do conglomerado. Tinha 45 anos de estrada, boa reputação no mercado e era conhecido por ter liderado, por oito anos, a área de investimentos do Bradesco. Também presidira a Anbima, que representa as empresas do mercado de capitais. Por reunir essas credenciais, chamou a atenção do centro financeiro da Avenida Faria Lima, que ele tivesse aceitado ingressar numa gestora conhecida pela tibieza no cumprimento de regras de transparência.
Naquele momento, já se sabia que a Reag dava pouca importância à origem do dinheiro que entrava em seus fundos e à reputação de seus clientes, como detalhou uma reportagem da piauí. Também se ouvia que João Carlos Falbo Mansur, sócio majoritário e fundador da Reag, tinha uma queda por montar estruturas de investimento que desafiavam a legalidade. Sabia-se, também, que a Anbima frequentemente detectava situações fora das normas de mercado na Reag, que nos últimos dois anos recebera 23 autuações. Mas, como fazia parte do Conselho de Ética da Anbima e acabara de ingressar na Reag, Van Dijk achava que poderia limpar a imagem da gestora e ser o fiador de uma transformação.
Assim, no início de 2025, apesar da fama duvidosa, a Reag ostentava o selo Anbima, indicativo de adesão às boas práticas do mercado, e acabara de estrear na Bolsa de Valores, num processo que exigira o aval da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e auditoria especializada da PricewaterhouseCoopers (PwC). Em treze anos de existência, a Reag, apesar de todos os pesares, se tornara a maior gestora independente da Faria Lima, com mais de quinhentos fundos sob gestão e um patrimônio de 340 bilhões de reais.
Van Dijk calculava que, como ocorrera com outras empresas brasileiras de capital aberto, a Reag nascera desorganizada, mas podia ser posta nos trilhos. “Sabia-se que havia esqueletos no armário” além de “clientes esquisitos, como JBS e Master”, diz uma fonte que participou das conversas e pediu anonimato. O gestor criou então um grupo com nomes prestigiados da Faria Lima para avaliar as falhas da empresa de Mansur e corrigi-las.
O grupo começou a se reunir em abril de 2025. Primeiro, descobriu falhas de governança, como regras de compliance ignoradas e dificuldade para identificar quem eram os donos dos fundos da gestora – informação que, em alguns casos, só Mansur detinha e não estava disposto a compartilhar. Aos poucos, foram surgindo irregularidades operacionais. A Reag alocava ativos em fundos de forma indevida, reavaliava patrimônios sem critérios consistentes e deixava de divulgar demonstrações financeiras obrigatórias. Mais adiante, as inconsistências deixaram de parecer mera desorganização, causando visível espanto até em Van Dijk. Descobriu-se, por exemplo, que a Reag usava terrenos para inflar artificialmente o patrimônio de fundos e criar ativos sem lastro, produzidos apenas para encorpar investimentos. Era uma operação altamente irregular, como ligou ficou claro.
A crise eclodiu em 28 de agosto, quando as operações Quasar, Tank e Carbono Oculto, deflagradas pela Polícia Federal, mostraram que a Reag movimentava ao menos dez fundos para lavar dinheiro de empresas do setor de combustíveis que faziam negócios com o PCC, a maior organização criminosa do país. Mansur não era apenas o dono da gestora. Era também sócio de um dos principais fundos envolvidos no esquema, o Mabruk II.
Além de ter abrigado operações sob suspeita de auxiliar o crime organizado, a Reag também usou sua estrutura para inflar ativos que permitiram ao Banco Master de Daniel Vorcaro expandir e alavancar seus negócios. Sem a Reag na retaguarda, criando ativos fictícios em fundos do Master, o banco não conseguiria irrigar o mercado com a cachoeira de certificados de depósito bancários (CDBs) mais rentáveis que a média, o que terminou causando o rombo fenomenal de 50 bilhões de reais no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o órgão que garante aplicações de até 250 mil reais para qualquer investidor.
A Reag foi liquidada pelo Banco Central em janeiro deste ano, depois de todas essas práticas irregulares virem à tona. Agora, segundo noticiou o UOL, João Carlos Mansur tenta emplacar um acordo de delação premiada junto à Procuradoria-Geral da República para contar o que sabe sobre o Master. Como mostrou uma reportagem da piauí, seus vínculos com o banco de Daniel Vorcaro são antigos. Remontam a mais de dez anos atrás.
Em 2020, Vorcaro foi investigado na Operação Fundo Fake, deflagrada pela Polícia Federal e o Ministério Público em cinco estados. Era acusado, junto com outros investidores e gestores parceiros, de participar de um esquema que aplicou golpes em institutos de pensão públicos entre 2010 a 2017. Um dos lesados foi o fundo de pensão dos funcionários da Prefeitura de Rolim de Moura, em Rondônia. A fraude, feita com a participação do gestor do instituto, Marcelo Dias Franskoviak, gerou um prejuízo de 17,4 milhões de reais para os aposentados e pensionistas do município. O esquema, de acordo com a PF e os procuradores, tinha participação da Reag, além de outras empresas e gestoras de fundos.
Em 2023, junto com a Reag, Vorcaro comprou o Will Bank, que estava em dificuldades financeiras. O Master ficou com parte da instituição e se associou à XP, que ficou com 25% do negócio. Na negociação, levou ainda dois fundos de investimento avaliados em 510 milhões de reais, segundo reportagem da revista Exame. O único ativo do fundo, de acordo com a mesma reportagem, são os direitos de uma ação judicial impetrada pela Construtora Industrial Brasileira (CIB) contra o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) de cerca de 30 bilhões de reais. A ação tramita em segunda instância.
As digitais de Mansur aparecem em diferentes pontos do escândalo do Master. Como mostrou a piauí, a empresa triangulou a compra de uma parte do resort Tayayá por parentes do ministro do STF Dias Toffoli. Além disso, segundo a investigação da PF, foi Mansur quem pagou para o senador Jaques Wagner ingressos caríssimos de camarote para assistir ao show da cantora Taylor Swift em São Paulo. Custaram 63,3 mil reais.
Ainda não se sabe o que Mansur pretende contar aos procuradores em seu acordo de colaboração. Mas o potencial destrutivo, isso está claro, não é pequeno.