Honestino resgata a memória da resistência à ditadura
Fonte: brasil247.com | Data: 28/08/2026 14:55:40
247 – Em um momento em que o Brasil volta a se confrontar com as marcas deixadas pela ditadura e com a permanência de forças políticas identificadas com o autoritarismo, o cinema brasileiro transforma a memória em instrumento de reflexão sobre o presente. É nesse cenário que “Honestino”, dirigido por Aurélio Michiles e produzido por Nilson Rodrigues, chega às salas de projeção para recuperar a trajetória de Honestino Guimarães, liderança estudantil perseguida durante o regime militar, e lançar luz sobre a resistência de uma geração que enfrentou a repressão dentro e fora das universidades.
Em artigo, o poeta Pedro Tierra, militante da resistência à ditadura e ex-secretário de Cultura do Distrito Federal, situa o filme em uma produção audiovisual empenhada em revisitar um dos períodos mais violentos da história recente brasileira. Ao analisar “Honestino” pelas dimensões histórica, política, estética, econômica e humana, Tierra sustenta que a obra não apenas recupera a memória do movimento estudantil e de suas lutas, mas reafirma o papel do cinema brasileiro na defesa da democracia, no enfrentamento ao fascismo e na construção da soberania cultural do país.
Leia a íntegra do artigo de Pedro Tierra:
Honestino: o filme
O lançamento, nas salas de projeção, do “HONESTINO”, de Aurélio Michiles, produzido por Nilson Rodrigues, dois realizadores experientes nessa aventura de fazer cinema no Brasil, nos interpela a partir de diferentes dimensões:
Do ponto de vista histórico, seguindo a trilha de “Ainda estou aqui” e “Agente secreto”, entre outras produções brasileiras, o filme recupera na trajetória de um líder estudantil – um dos mais relevantes de sua geração – a própria memória das lutas da juventude brasileira como segmento fundamental da resistência ao regime dos generais. Oferece, portanto, para o espectador de hoje, particularmente para os jovens, instrumentos para a construção e consolidação da memória recente do que significou a ditadura civil-militar (1964-1988) e sua herança nefasta para três gerações de brasileiros.
“HONESTINO” lança luz sobre uma característica inseparável dos regimes ditatoriais impostos sobre o continente, pela política imperial dos EUA, nos anos 60/70: o permanente assédio, ou a pura e simples violação da autonomia universitária, pela força do aparato repressivo contra os centros de produção do conhecimento. Sobre a UnB, convertida em alvo específico do obscurantismo do regime e sobre o movimento estudantil que dentro da universidade e fora dela, em fina sintonia com a sociedade, inventava múltiplas formas de resistência contra a brutalidade dos “gorilas”.
Os depoimentos dos protagonistas, colhidos com a aguda sensibilidade de quem viveu o quotidiano daquele processo, sua generosidade, em alguma medida sua ingenuidade diante da força colossal desencadeada pelo Império na disputa geopolítica daquele momento, capturam a nua humanidade de uma juventude que se lança contra a ditadura civil-militar até as últimas consequências.
Sob um olhar político para além do imediato, “HONESTINO”, o filme, conduz o expectador, ao dar a palavra para a nova geração do movimento estudantil que hoje dirige a UNE, a uma constatação: a geração que resistiu à ditadura e foi aparentemente derrotada nos anos 70 do século passado, foi, a rigor, vencedora ante o olhar da História. Por sua resiliência – registrada pela voz dos contemporâneos de Honestino – e sua ação, a sociedade brasileira retornou à democracia liberal, ainda que imperfeita, para alcançar objetivos mais amplos de justiça social e soberania nacional. E derrotados foram os habitantes dos porões que perpetraram os sequestros, torturas, assassinatos e desaparecimentos forçados durante a ditadura e seus descendentes ideológicos detidos no golpe de estado derrotado em 8 de janeiro de 2023.
Do ponto de vista estético, Michiles e Nilson Rodrigues recuperam uma linguagem cinematográfica capaz de equacionar, de forma convincente as dimensões de documentário e ficção, que estrutura a obra sem justaposições artificiais do passado de horror que pretende denunciar com o presente desafiador que mobiliza a juventude contemporânea contra a ressurreição do fascismo sob novas formas.
Oferecem, assim, ao audiovisual brasileiro uma contribuição valiosa para alcançar o objetivo histórico de modelar uma linguagem própria, brasileira, não tributária das matrizes cinematográficas dominantes no mundo, mas afirmativa de um discurso anticolonial em defesa do direito de uma nação de cultura complexa de ver-se na tela e afirmar-se em suas múltiplas expressões. Desafio cujo impulso inicial foi dado pela experiência do Cinema Novo, nos anos 60, sufocada justamente pelo regime ditatorial que renunciou, de antemão, a qualquer pretensão de soberania, sobretudo no campo da cultura.
Do ponto de vista de investimento financeiro, encaram o desafio que significa fazer cinema no Brasil, sem contar com uma indústria do audiovisual consolidada e uma política pública para esse setor ainda aquém de suas exigências, embora o país já disponha de uma infraestrutura de grande alcance que estruturou um sólido mercado para realizadores… estrangeiros.
A rigor, o exercício de produzir cada filme no Brasil representa uma aventura de alto risco por múltiplas razões, como as mencionadas acima. Estamos ainda numa etapa artesanal que só será superada quando o programa democrático e popular compreender, explicitar e investir recursos financeiros a curto, médio e longo prazos, na centralidade da produção, distribuição e exibição dos conteúdos audiovisuais brasileiros como exercício permanente de educação da sociedade e consolidação da soberania cultural do país.
E, por fim, do ponto de vista existencial, no sentido mais profundo, HONESTINO encara o desafio de devolver à sociedade brasileira do século XXI o personagem histórico Honestino Guimarães. O jovem que ao se engajar da forma mais generosa e radical na resistência à tirania não renunciou a amar, a manter por meio das cartas uma afetuosa relação com a mãe, o pai, os irmãos, que buscou, mesmo nas difíceis condições da clandestinidade e da separação, os momentos fugazes com Juliana, a filha, ou ainda manter viva a paixão pelo futebol…
Enfim uma figura humana que foge ao perfil caricatural do militante de tempo integral que toma café, almoça e janta Política, frequente na nossa produção cinematográfica sobre aquele período. Humanizado em suas múltiplas dimensões, HONESTINO não é apresentado como um herói, ele é mais uma síntese da vasta teia de sonhos de liberdade entrelaçados, a dimensão heroica fica por conta do ente coletivo, a sociedade brasileira que, ao preço do sacrifício dos seus melhores filhos resistiu e soube derrotar uma tirania de mais de duas décadas.
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