Despedidas vitais
Fonte: gauchazh.clicrbs.com.br | Data: 28/08/2026 16:29:49

Quem consegue se despedir de uma mãe, não terá dificuldade de se despedir de um casaco. Tema de hoje: desapegos.
Começando pelo casaco. Comprei-o na Argentina, há 18 anos, e o guardo como relíquia — há sete, não me serve mais. Daquelas peças que não se encontra em loja de departamento, design exclusivo, as amigas dizem “é a sua cara”. Hoje embalei para doação.
Assim como livros que não irei reler, apenas gostava de tê-los por perto: tchau, queridos. Outros chegaram, com mais significado. E adeus também à bolsa de festa com o fecho quebrado. Deixando os bens materiais de lado, vamos ao que importa.
Adeus a um ex-namorado que surgia do além, de vez em quando. Não quero mais ser o fetiche de ninguém. Adeus a certos parentes muito simpáticos nas efemérides, mas que, pelas costas, não perdem a oportunidade de te alfinetar. Adeus a músicas que foram entusiasmos passageiros, e adeus categórico a quatro quilos indesejados (mas nem tudo é despedida: pretendo deixar crescerem as unhas que andei roendo até sangrar).
Réquiem para as duas taças diárias de vinho (continuarão sendo duas, mas não diárias). Em recompensa, serão mais raros os despertares no meio da madrugada. Bye, bye, pinot grigio, bem-vindos os sucos naturais. Redução de ansiedades. E mediocridades, nunca mais (aliás, contando os dias para votar).
Gostaria de cortar certas pessoas da minha vida, mas não tenho experiência nisso. Se elas têm vínculo com outras com as quais me importo (é a irmã do, o marido da, o amigo íntimo de), seguirei recorrendo à diplomacia, mas se a pessoa em questão é desvinculada do meu círculo, sobreviverá ao meu sumiço.
O Instagram virou manual de autoajuda, que angústia tanta dica, tanta regra, mas ainda não dá pra desaparecer das redes sociais, então extinguirei ao menos 50% da dependência. Adeus aos verbos xeretar, seguir, clicar. Focarei no trabalho e nos planos de curto prazo. Voltei a dar moral às vontades repentinas.
Uma amiga me disse, em meu último aniversário: “resgate sua audácia”. Acatei como a uma ordem militar.
Concluída a fase do “devo”, inaugurado o ciclo do “quero”.
Empacotar o excesso de vaidade, os sorrisos falsos, a devoção pela autoimagem, dar um nó bem apertado e incinerar os resíduos — trocar todas as artificialidades por mais alma.
Ocupar minha cabeça com arte e beleza, e menos com linchamentos, destemperos e violências sortidas: sei bem onde estamos metidos e meu coração já não aguenta. Cronistas se dedicam ao registro do seu tempo, é o que faço há mais de 30 anos, mas a ideia, a partir de agora, é dar menos moral para a selvageria e investir na paz de espírito, pra valer.
Só não celebre antes da hora: continuarei a escrever.