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Gentileza gera gentileza; desinformação gera desinformação – Money Report

Fonte: moneyreport.com.br | Data: 29/08/2026 00:55:06

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Em 1976, uma banda canadense chamada Klaatu lançou seu primeiro álbum. A gravadora, porém, fez uma capa sem nenhuma informação sobre os membros do grupo ou autores das músicas. Não se sabe ao certo como, mas um boato de que a banda era uma espécie de reunião dos Beatles tomou conta do mercado – e chegou inclusive ao Brasil.

As “pistas” eram bastante improváveis, uma vez que nem as músicas tinham a ver com o que produziram John, Paul, George e Ringo ou as vozes gravadas tinham a mais remota semelhança com os quatro rapazes de Liverpool. A mais forte delas seria a de que o nome da banda canadense foi tirado de um filme de 1951, chamado “O Dia em que a Terra Parou” (imagem), cujo herói é um alienígena chamado Klaatu, vivido por Michael Reenie. E o que isso teria a ver com os Beatles? É que dois anos, Ringo Starr lançara um álbum solo cuja capa era baseada em uma cena daquele filme, com o baterista dos Beatles vestido como o personagem de Reenie.

Depois de alguns meses, o boato foi oficialmente desmentido. Enquanto isso não ocorreu, o disco dos canadenses vendeu mais do que mereceria (há, no entanto, uma boa faixa neste disco: “Calling Occupants of Interplanetary Craft”, que foi regravada pelos Carpenters. A curiosidade aqui é que o sobrenome da dupla de irmãos que regravou a canção é o mesmo que Klaatu adota no filme de 1951 para andar incógnito pelas ruas de Washington).

Como se pode ver neste caso, a falta de informações pode levar à criação de boatos ou ao surgimento de teorias da conspiração. O mesmo mecanismo que fez do disco dos canadenses um sucesso baseado num engano se repete continuamente na era digital, só que em velocidade muito maior. Sempre que uma instituição ou empresa fica em silêncio num momento decisivo, o público preenche esse vazio com a hipótese mais dramática disponível. No entanto, a correção, quando chega, raramente alcança quem já formou opinião com a versão especulativa.

Em 2024, a princesa Kate Middleton sumiu da vida pública por mais de dois meses após uma cirurgia, período em que o Palácio de Kensington praticamente não se pronunciou. Quando a família real divulgou uma foto dela com os filhos, agências de notícias apontaram sinais de edição digital na imagem. O resultado foi uma onda mundial de teorias, incluindo boatos de que ela teria morrido durante a cirurgia, episódio que ficou conhecido como #KateGate.

Em novembro de 2023, o conselho da OpenAI demitiu Sam Altman com uma nota genérica sobre falta de “sinceridade nas comunicações”, sem detalhar os motivos, o que alimentou especulações sobre um suposto avanço perigoso em inteligência artificial escondido do próprio conselho. Um padrão parecido apareceu no apagão que derrubou a energia de Espanha, Portugal e parte da França em abril de 2025: como a causa técnica demorou semanas para ser confirmada, o período foi tomado por teorias de ataque cibernético e sabotagem.

Um caso semelhante ocorreu no Brasil em agosto de 2023, quando o próprio Operador Nacional do Sistema Elétrico admitiu publicamente desconhecer a causa de um apagão que atingiu boa parte do país. O acionamento da Polícia Federal para investigar o episódio bastou para alimentar especulação sobre um possível ataque cibernético na imprensa e a explicação técnica só veio no dia seguinte. Décadas depois do disco do Klaatu, o ingrediente que gera boato e teoria da conspiração continua sendo o mesmo: a ausência de informação oficial no momento em que ela é mais do que necessária.

É a tal história: gentileza gera gentileza, como diz o ditado carioca. Mas desinformação gera ainda mais desinformação.

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