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Lula ladrão’ e totem de Bolsonaro: como a política invadiu a Festa de Barretos

Fonte: exame.com | Data: 29/08/2026 07:17:20

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BARRETOS (SP)* — O horário eleitoral gratuito começou oficialmente na sexta-feira, 28, mas a disputa política já havia encontrado outros palcos. Na Festa do Peão de Barretos, maior rodeio da América Latina, botas texanas, chapéus e shows sertanejos dividiram espaço com manifestações políticas no camping, incluindo faixas com a frase “Lula ladrão”, um totem do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e articulações de nomes ligados ao agronegócio.

A festa, tradicionalmente associada ao universo sertanejo e ao campo, se tornou um retrato da difícil relação entre o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e uma parcela do agronegócio. Entre críticas às políticas públicas, apoio a nomes da oposição e manifestações espontâneas do público, Barretos mostrou que o clima eleitoral já chegou ao campo.

Para Jerônimo Luiz Muzetti, o Jerominho, presidente de Os Independentes, associação responsável pela organização da Festa do Peão, a presença política dentro do evento reflete o perfil de parte do público.

“Quando tem algum político no estádio, automaticamente a gente percebe que o pessoal de direita tem uma visibilidade muito grande, toda ela ligada ao bolsonarismo, ao PL. Eu percebo que tem uma aceitação maior. Quando a gente fala dos partidos que são do PT, tem um pouquinho de restrição, porque o sertanejo agro tem disso”, afirma.

Apesar dessa percepção, Muzetti diz que a festa está aberta a todos os grupos políticos. Segundo ele, todos os candidatos foram convidados, incluindo representantes do governo federal.

“Todos eles são bem-vindos. Aqui é uma associação sem fins lucrativos, a política que cada um faz é o que quiser”, afirma.

Desde que voltou à Presidência da República, em janeiro de 2023, Lula não participou da Festa do Peão de Barretos. A ministra da Cultura, Margareth Menezes, também não esteve presente. Antes disso, durante seus dois primeiros mandatos, o petista também não havia participado do evento.

Na edição deste ano, a presença política, no entanto, foi mais evidente entre nomes ligados à direita.

Flávio Bolsonaro (PL) participou da Festa do Peão de Barretos no dia 21, data de abertura do evento, para reforçar sua campanha presidencial ao lado do governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e do deputado federal Nikolas Ferreira (PL).

O senador subiu ao palco principal na noite de sábado e fez um discurso curto direcionado ao agronegócio, classificando o setor como “coração do Brasil”. A fala durou cerca de um minuto e dez segundos e não apresentou propostas concretas para o setor produtivo.

Flávio evitou citar diretamente o presidente Lula, mas parte do público presente vaiou o petista durante o ato. O senador também relembrou o pai, Jair Bolsonaro, e afirmou que pretendia retornar ao evento no ano seguinte já como presidente da República.

O ambiente político observado em Barretos está ligado a uma insatisfação mais ampla de parte do agronegócio com o governo federal.

Entre as principais críticas do setor estão temas como Plano Safra, seguro rural e políticas de apoio ao produtor. Representantes do campo avaliam que algumas dessas agendas avançaram abaixo das expectativas durante a gestão de Carlos Fávaro (PSD), então à frente do Ministério da Agricultura e Pecuária.

Foi nesse cenário que a oposição encontrou espaço para fortalecer seu discurso.

Lula e o agro

Na Agrishow deste ano, que aconteceu em abril, uma das principais feiras agrícolas do país, Pedro Lupion (Republicanos), deputado federal e presidente da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), afirmou que o produtor rural tinha mais previsibilidade durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

A FPA é uma das principais forças políticas do agronegócio no Congresso Nacional. A bancada reúne mais de 300 parlamentares entre deputados e senadores e atua em temas como crédito rural, infraestrutura, legislação ambiental e segurança jurídica para o setor.

“O produtor tinha previsibilidade. Ele sabia o que ia acontecer e sabia que tinha um governo que estendia a mão ao produtor rural”, afirmou Lupion à época, sendo aplaudido pelo público presente.

A declaração resume uma das principais críticas de parte do agro ao atual governo: a percepção de que Lula não construiu uma relação próxima com o setor.

Durante o terceiro mandato do presidente, a relação entre governo e representantes do agronegócio passou por episódios de tensão. Um dos mais simbólicos ocorreu em 2023, quando Fávaro afirmou ter sido desconvidado da abertura da Agrishow após a confirmação da presença de Jair Bolsonaro no evento.

O episódio aumentou o desgaste entre governo e organizadores da feira e chegou a gerar discussões sobre possíveis cortes de patrocínios estatais, embora a medida não tenha avançado.

Nos anos seguintes, o governo tentou reaproximar-se do setor. Em 2024, Fávaro e o vice-presidente Geraldo Alckmin participaram da Agrishow, quando o governo anunciou medidas de crédito ao agro por meio do BNDES. Em 2025, Alckmin voltou a representar o governo na abertura da feira.

A disputa política em Barretos não ficou restrita ao palco principal. Nas redes sociais, a festa também virou cenário de debates entre apoiadores de diferentes grupos políticos.

A cantora Ana Castela recebeu críticas após publicar uma foto ao lado de Nikolas Ferreira. A imagem gerou repercussão e levou a artista a restringir temporariamente os comentários em seu perfil.

*O repórter viajou a convite do Grupo DVT.