Veteranos nas artes: reconhecimento existe, proteção nem tanto
Fonte: otempo.com.br | Data: 29/08/2026 07:04:18
Aos poucos, artistas que passaram décadas produzindo cultura começam a encontrar mais espaço para serem reconhecidos na maturidade. Em Belo Horizonte, por exemplo, premiações públicas e iniciativas da sociedade civil valorizam trajetórias, ampliam oportunidades de apresentação e colocam o envelhecimento em debate. Mas o avanço ainda é pontual: não há um diagnóstico específico sobre a situação financeira e previdenciária dos trabalhadores da cultura idosos, nem uma política capaz de enfrentar de forma estruturada a insegurança que pode acompanhar essas trajetórias.
Vale dizer, neste ano, a Prefeitura de Belo Horizonte lançou o 1º Prêmio Mestras e Mestres do Teatro – Edição Teuda Bara, que contemplará 20 artistas e agentes culturais com 65 anos ou mais e ao menos três décadas de atuação na cena teatral da cidade, com R$ 15 mil para cada um. A iniciativa integra as ações de salvaguarda do teatro como patrimônio cultural do município.
A secretária municipal de Cultura, Cida Falabella, é ela própria atriz e diretora, autora do solo “Outono”, que reflete sobre o próprio envelhecer – uma experiência, segundo ela, que atravessa diretamente o olhar da gestão pública sobre o tema. “A minha experiência, o meu olhar sobre velhos e velhas e velhes, ele é bastante cuidadoso com essa questão, e temos debatido isso muito aqui com a fundação e na Secretaria de Cultura”, estabelece.
Falabella lista um conjunto de iniciativas que já existem além do prêmio: os Mestres e Mestras da Cultura Popular, o critério de pontuação para a presença de idosos em equipes que concorrem a editais multilinguagens, e a Escola Livre de Artes – Arena da Cultura, prestes a completar 30 anos, com forte adesão do público 60+. Entre os 350 pontos de cultura da cidade, muitos também atendem comunidades tradicionais e população idosa, no âmbito da política Cultura Viva.
Mas, ao ser perguntada diretamente se a Secretaria possui algum diagnóstico próprio sobre a situação previdenciária desses artistas – quantos vivem apenas de cachês informais, sem qualquer proteção –, ela reconhece haver limitações. “Esse recorte assim de um diagnóstico sobre situação financeira e previdenciária, ele não cabe só à cultura, só à Secretaria de Cultura e às políticas culturais”, argumenta. “Teria que ser feito em conjunto com o Ministério do Trabalho, com os sindicatos de classe, Sated, Sinparc, outros sindicatos de outras áreas artísticas. É um desafio mesmo, porque o país envelhece e, à medida que a gente envelhece como país, nós precisamos ter esse olhar e esse cruzamento de dados para pensar políticas específicas”, reconhece.
É uma admissão que ecoa o que Barbosa da Silva chama de “assimetria de conhecimento institucional”: o Estado sabe monitorar como financia a cultura, mas não sabe, com precisão, como vivem – e envelhecem – as pessoas que a produzem.
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A sociedade civil, aliás, parece hoje mais sensível a essa lacuna. Dedicado a artistas 50+ e hoje na quinta edição, o Voa Sabiá nasceu, segundo sua idealizadora, Simone Gallo, da percepção de que “não havia no mercado um festival realizado para eles” – artistas experientes, mas sem espaço garantido para se apresentar. A intuição se confirmou: o festival recebe pedidos recorrentes de retorno, prova de uma demanda represada. Neste ano, a segunda etapa do evento, realizada nos últimos sábado (29/8) e domingo (30/8), tratou de formação e reflexão sobre arte, cultura e envelhecimento – trazendo debates sobre o que Gallo chama de “Geração Sem Idade”, pessoas que não se deixam limitar pelos estereótipos da idade.
A sensação, entre os veteranos das artes, é a de que a sociedade parece, sim, mais sensível a suas histórias. E ações como as listadas nesta reportagem são encaradas como genuínas e bem-intencionadas, mas ainda pontuais. Nenhuma dessas iniciativas, afinal, se propõe, nem finge se propor, a resolver o problema estrutural que os pesquisadores do Ipea descrevem: um país que envelhece rapidamente, com uma parcela crescente de pessoas acima dos 60 anos ainda trabalhando, enquanto ainda não conhece com precisão as condições previdenciárias e financeiras de parte significativa dos trabalhadores da cultura.
Nas palavras de Luiz Hippert – trabalhador da cultura com passagem por diversas funções, da produção aos palcos, passando pela divulgação, entre outras frentes –, ao avaliar esse tipo de iniciativa a partir de sua própria trajetória, o retrato de hoje é ainda precário, ainda que mais colorido: “(As iniciativas que existem) não resolvem o problema de sustento, porque são muito pontuais, mas ajudam. E trazem a consciência da necessidade do reconhecimento a quem veio antes, algo bem importante numa sociedade sem memória que trata o envelhecimento com tanto descaso”.