Artistas refletem sobre a internacionalização da música cearense
Fonte: mais.opovo.com.br | Data: 30/08/2026 05:03:52

Iniciativas ajudam a internacionalizar a música cearense
Se há uma questão cultural que nunca deixou de guiar as discussões em comum nos países do sul global, diante dos ecos coloniais que até hoje se vive ativamente, é a invenção da arte nacional em duelo com as grandes indústrias estrangeiras dois países que se impuseram sobre a fundação da nossa civilização.
No Brasil, esse debate encontra camadas ariscas. Se o consumo do cinema brasileiro é ínfimo em comparação ao que se importa de Hollywood, a música inverte esse espaço para um conflito interno.
No Spotify, principal plataforma de streaming no Brasil, o Top 50 músicas mais ouvidas é totalmente dominado por produções brasileiras — se a presença massiva de sertanejo, gospel e pagode é tão democrática quanto parece, aí é outra discussão.
O fato a ser encarado é que o Brasil consome música brasileira. Mas de que forma essa música consegue fazer o movimento inverso e ser reconhecida pelo mundo afora? Se nessa lista não há nenhuma música cearense, por exemplo, podemos imaginar que ela tem algum espaço para atravessar fronteiras? Experiências recentes de artistas cearenses oferecem um vislumbre recheado de celebração, descobertas e suspense.
A grande mídia nos faz pensar que o mundo já conhece a MPB clássica, a bossa nova e o samba carioca… mas o mundo conhece a música cearense?

Amizade da China
Em maio deste ano, Silvero Pereira celebrou estar se preparando para o seu primeiro show internacional. Conhecido no cinema, no teatro e na música, ele fez as malas para se apresentar em Xangai, maior cidade da China, na programação da Plataforma Música Brasil.
O programa faz parte do chamado “Ano Cultural Brasil-China”, projeto assinado conjuntamente pelos governos federais dos dois países. Defendido como “Uma História de Amizade”, o projeto honra o cinquentenário das relações diplomáticas entre as nações, completado em 2024, abrangendo artes, patrimônio, formação e turismo.
Politicamente, com a aproximação socioeconômica do Brasil com o gigante asiático em meio às constantes ameaças dos EUA, soa como um momento propício. Esse intercâmbio musical rendeu oportunidades únicas, inclusive para os fortalezenses. Em abril, a Camerata da Orquestra Sinfônica Nacional da China fez uma emocionante apresentação única e gratuita em Fortaleza no Theatro José de Alencar.
Junto com Silvero, o evento chinês foi ocupado por uma ampla comitiva de artistas cearenses. Uma delas foi Mel Mattos, que neste ano completa 20 anos de carreira. Aproveitando a excentricidade dessa oportunidade de se apresentar para um público completamente novo e permeado por tantas distâncias culturais, ela fez a estreia de seu novo projeto “Entre Tempos”, atravessando seus próprios álbuns com artistas como Belchior, Ednardo e Fagner.
Ela conta que a experiência ganhou um significado simbólico de pertencimento por estar em outro país com artistas do seu próprio estado. “Na China não tinha uma proximidade musical, era totalmente diferente, eles ficavam encantados com a forma como a gente falava, se comportava. Os chineses são mais recatados, mas são extremamente acolhedores”, conta ao O POVO, destacando a forma como o público tratou a comitiva com respeito e atenção, inclusive pedindo para tirar fotos na rua.
“Eu fiquei horas com um grupo de várias mulheres me fazendo milhões de perguntas pelo tradutor, porque nem eu e nem elas falávamos inglês. Elas tinham muita curiosidade para saber de onde a gente era, então eu senti da China uma grande curiosidade para descobrir sobre a nossa cultura”, acrescenta.
É curioso pensar como uma cultura distante descobre alguma identificação com a arte produzida no nordeste brasileiro – essa, afinal, não foi uma experiência isolada. Em 2019, o filme “Pacarrete”, de Allan Deberton, fez sua estreia mundial no 22º Festival Internacional de Cinema de Xangai. Filmado em Russas, construído sob um forte tom de humor reconhecido como parte do Ceará, a obra ganhou repercussão com o público oriental.
Em 2026, professores e alunos do Departamento de Artes (Deartes) do IFCE viajaram até a China para levar também o forró e o maracatu. Formada por Marcelo Leite, Elder Alves, Rubens Tadeu, Jéssica Castelo e John Morais, a comitiva viajou numa parceria do instituto federal com a Fujian Vocational College of Art na cidade de Fuzhou.

Na França, do Choro ao Rock
Em 2024, quando Karim Aïnouz estreou “Motel Destino” como o primeiro filme cearense na competição principal do Festival de Cannes, foi a primeira vez que a plateia do evento conheceu um “nordeste brasileiro” distante dos sertões secos de clássicos como “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), vendo as falésias e o mar de Beberibe.
Foi nessa mesma cidade, em 2002, que Mona Gadelha viu sua voz em “Saint-Denis-Ceará” ser remixada por um produtor italiano, ir parar em diversas coletâneas pelo mundo e tocar até mesmo em uma série da MTV americana por conta de um produtor iraniano que também passou por ela na cidade francesa. Essa música ganharia um clipe improvisado com uma câmera mini-dv pelas ruas da Europa.
Em 2025, o Théâtre de Chaillot recebeu programação da 15º Bienal Internacional de Dança do Ceará após o evento passar por Cabo Verde e Portugal. Além dos espetáculos, a ação levou para o palco francês artistas cearenses como Mateus Fazeno Rock, que apresentou o show “Lá Na Zárea Todos Querem Viver Bem”, do seu último álbum.
Dentre os palcos brasileiros que a cidade luz oferece também está o choro. Tauí Castro, produtor que articula principalmente a música instrumental no Ceará, participa há cinco edições do Festival Internacional de Choro de Paris, que acontece desde 2005. A Orquestra Cabulosa, grupo do qual faz parte, também esteve na programação chinesa da Plataforma Música Brasil.
Ele conta que o pontapé se deu por um contato direto com a diretora do festival ao se comprometer em enviar, anualmente, um grupo cearense para integrar a programação, contando com apoios pontuais do estado ou do município. Diante desse contexto, ele celebra que essa estrutura tenha se tornado mais oficial com o tempo.
“A criação recente do edital Ceará Criativo preencheu uma lacuna histórica, uma vez que outros estados já dispunham dessa política pública de fomento. Antes, a captação de recursos dependia de negociações diretas com secretários de cultura e gestores de espaços para viabilizar a compra de passagens aéreas”, conta. “Estruturávamos apresentações locais com cachês mais elevados e a consolidação de políticas públicas voltadas para a circulação nacional e internacional representa um marco de extrema importância para o setor cultural cearense”, afirma.

Falar português
Diferentemente das distâncias culturais da China e da França, a experiência pode ser mais familiar quando a língua está entrelaçada com a nossa história. Em 2024, o projeto Mostra Ceará em Portugal surgiu de um desejo de levar para a esfera internacional um encontro que já existia.
“Ao todo, éramos dez pessoas entre produtores e artistas, reunindo músicos, poetas e artistas visuais. Levamos para Portugal esse formato de sarau itinerante, mantendo justamente essa característica de encontro entre diferentes linguagens artísticas que já existia no Sarau das Terças”, resume Alana Girão, que deu vida à ideia com Doris Maia e Mano Alencar.
Sobre a proximidade com a língua, Alana reforça que sente a música cearense com forte potencial de reconhecimento internacional: “Uma pessoa foi ao evento justamente porque disse que estava com saudade de ouvir música cearense e pediu para que tocássemos ‘Coca-Colas’ e ‘Iguarias’, da Kátia Freitas. Era um brasileiro que vive em Portugal há muitos anos, e aquele pedido mostrou para nós como a música também é capaz de criar um lugar de memória, de pertencimento e de reencontro, mesmo quando estamos longe do nosso país”.
Outro país que entrou nessa rota foi Cabo Verde. O cantor, compositor e produtor musical Caio Castelo conta que a experiência nas ilhas africanas foi de acolhimento e descoberta, reforçando o Brasil como um símbolo forte ao redor do mundo. “Eu fui no México, na Argentina, na China, Cabo Verde, e o pessoal conversa cheio de referência. E a gente fica catando referência na cabeça de poucas que a gente tem desses outros lugares. Eu conhecia muito pouco da música cabo-verdiana”, resgata.
A cantora Mel Mattos também passou pelo país em 2019 e destaca a sensação de familiaridade mútua: “Cabo Verde já tem essa proximidade com a música brasileira, com o nosso idioma, já entende o que a gente fala. Eles falam criolo, mas também falam português e consomem muito a cultura brasileira”.
O Ceará é Brasil
Na Espanha, o Ceará pode pulsar de diferentes formas. A cantora Mona Gadelha lembra que em Madrid, no começo dos anos 2000, recebeu o convite para colaborar com o livro-CD “Músicas do Caribe e da América Latina”. Sua surpresa veio do gênero solicitado: o rock.
“A ideia que eu tinha era que a preferência seria por ritmos brasileiros mais conhecidos no exterior na época, como samba e Bossa Nova”, conta. Ao conversar com um jornalista espanhol, ouviu que seu rock tinha um “acento brasileiro e nordestino”.
“Isso foi muito relevante de ouvir, porque eu venho de uma geração que foi muito patrulhada por fazer rock nos anos 1970. Parece anacrônico hoje em dia lembrar isso, mas ficam as marcas. A gente descobriu um campo de muitas possibilidades para a música brasileira, que quase não se fazia presente nessas festas e festivais, e decidimos criar a Brazilbizz, uma produtora independente voltada à divulgação da música brasileira em festivais mundo afora”, diz.
O músico Caio Castelo reflete: “Fica muito borrada essa definição de música cearense. Lá fora a gente é mais música brasileira do que aqui. Quando a gente está aqui, ‘música brasileira’ é mais ou menos a música do Sudeste. A ‘música nordestina’ e a ‘música cearense’ são outras coisas, quando a gente sabe que tudo isso é música brasileira”.
E quando volta?
“No mercado da música instrumental existe um padrão estrutural no qual o artista frequentemente precisa obter uma validação no exterior para ser devidamente valorizado dentro do próprio Brasil”, conta Tauí Castro sobre um dos desafios da sua atividade como músico e produtor. “Embora seja um aspecto a se lamentar, obter esse respaldo em grandes festivais globais ou em mercados encurta caminhos e acelera o reconhecimento do músico dentro do território nacional”.
Radiante com a passagem pela China, reiterando que a experiência lhe deixou ainda mais empolgada com o próprio trabalho, Mattos discute essa relação complexa com a aceitação do Brasil. “Eu fico com muita dó porque eu sinto que a gente tem um Brasil gigante para percorrer e é muito difícil a gente circular, até mesmo dentro do nosso próprio estado”.
Ao comparar as experiências entre Portugal e Brasil, Alana é direta ao apontar que sente pouca diferença do público em si, mas mantendo um estranhamento estrutural: “Eu imaginava que, no Brasil, essa receptividade pudesse ser ainda mais calorosa. Talvez seja uma expectativa minha, ou até uma espécie de fantasia, mas eu acredito que nós deveríamos valorizar ainda mais aquilo que é produzido dentro do próprio país, independentemente da região de onde vem. Não acho que seja uma questão de o público brasileiro não gostar ou não acolher a nossa música, mas talvez de ainda precisarmos criar mais espaços de circulação e de visibilidade para a produção artística que vem de outros lugares”.