Ricardo Ribenboim, artista e gestor cultural, tem sua obra mutante revista em livro
Fonte: www1.folha.uol.com.br | Data: 01/09/2026 10:07:48
Há artistas, como Ricardo Ribenboim, que não fazem duas vezes a mesma obra. Ele colocou uma agulha gigante costurando os traços brancos do asfalto da rodovia Anchieta, deixou grandes barras de gelo derretendo nas plataformas da Estação Júlio Prestes, usou band-aids imensos para remendar os buracos das ruas de São Paulo, jogou bolas infláveis no mar de Ipanema para alertar sobre a preciosidade da água.
Após dialogar com as metrópoles e a natureza, criou esculturas em que a imobilidade da madeira encontra a elasticidade da borracha e dispôs, de forma geométrica, folhas de ouro e cinzas do incêncio do Museu Nacional sobre um pedaço de lona. Entre um trabalho e outro, fez carreira como gestor e produtor cultural, estruturando projetos e lidando com a burocracia da arte.
A trajetória de Ricardo Ribenboim, de 73 anos, é agora repassada num livro organizado pela curadora Denise Mattar. Intitulado “Ricardo Ribenboim”, as 300 páginas do volume mostram, em fotos e textos críticos, a evolução do pensamento plástico do artista em ordem cronológica.
Para a curadora, a produção de Ribenboim pode ser entendida como um exemplo de metamorfose eterna, de mudança constante —ele “transforma a impermanência em método criativo”, ela escreve no texto de abertura do livro, valendo-se do conceito japonês de “mujō”, que expressa a ideia de que tudo no mundo está em mutação contínua.
Neste sentido, Ribenboim se põe em oposição às regras não escritas da cultura ocidental. “A gente meio que fixa tudo, acha que as coisas vão ser iguais ao que sempre foram. E na cultura oriental eles têm profundamente impregnada essa questão da impermanência. Embora o Ribenboim seja totalmente ocidental, o trabalho dele é permeado por esses conceitos”, diz Mattar.
Nos anos 1990, o artista fez uma série de intervenções no espaço público, como as mencionadas no primeiro parágrafo deste texto. Tais obras, diz Ribenboim, queriam “criar impacto, não necessariamente um incômodo, mas levar uma reflexão” aos espectadores. O gelo que derretia na plataforma de trem em São Paulo era uma metáfora da energia da saudade que fica depois das despedidas. E a agulha gigante sugeria uma “costura urbana”, ele afirma.
Outra série de trabalhos seus bastante conhecidos —e amplamente documentados no livro— são as garrafas de Coca-Cola quebradas ou desconstruídas. Se Andy Warhol reproduziu os recipientes em serigrafias para criticar e celebrar a cultura de consumo, e Cildo Meireles imprimiu mensagens subversivas nos cascos, Ribenboim estilhaça os contêineres de vidro para mostrar como eles são reconhecíveis mesmo em pequenos pedaços.
Segundo a curadora, “você se dá conta do quanto essa garrafa está impregnada na nossa mente, não consegue se livrar da imagem da Coca-Cola”. O artista acrescenta que se trata de um estudo de “como a gente consegue destruir esse ícone do capitalismo”.
Assim como outros nomes que não viveram exclusivamente de sua arte, a exemplo de Anna Bella Geiger e Claudio Tozzi, ambos professores, Ribenboim teve uma carreira paralela como gestor cultural. Ele trabalhou no Paço das Artes numa época em que a instituição era mais influente do que é hoje e criou o projeto Rumos, do Itaú Cultural, responsável por mapear a produção de arte brasileira contemporânea.
O Rumos, ele afirma, “é um trabalho de artista, e eu só vim a perceber isso muito tempo depois”. Além disso, com sua produtora Base7, montou exposições e publicou catálogos, como o raisonné de Tarsila do Amaral. Ele agora se dedica ao raisonné de Sérgio Camargo e em seguida vai para o de Frans Krajcberg.
Ter outra fonte de renda proporcionou uma liberdade artística maior do que a produção em ritmo de mercado exigida por uma galeria, ele conta, lembrando que teve representações comerciais em diversos momentos e agora negocia outra. “Tem certo momento em que a gente precisa vender, pôr pra fora”, diz.