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Setembro Amarelo: o que a prevenção do suicídio exige de cada um de nós | 40graus

Fonte: 40graus.com.br | Data: 01/09/2026 11:34:59

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Por mais que esse tema pareça já suficientemente explorado, é assustador os números de casos de suicídio e depressão que seguem marcando presença em nossa sociedade.

Uma sociedade que reconhecemos que está doente, por apresentar inúmeros sintomas, mas também não sabemos de que forma agir para conter os desdobramentos disso tudo. Por trás de um sorriso, muitas vezes é difícil ler a dor do outro.

A rotina acelerada e o excesso de estímulos criaram um mundo hábil em mascarar o sofrimento — e ainda mais hábil em não perguntar sobre ele. É esse silêncio que a campanha Setembro Amarelo tenta romper, todos os anos, desde que a cor amarela se tornou sinônimo de um compromisso: o de olhar para quem, muitas vezes, aprendeu a esconder a própria dor.

O dia 10 de setembro marca o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, instituído pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio e endossado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A data existe para lembrar governos e sociedade civil de uma responsabilidade coletiva: falar sobre suicídio não aumenta o risco – o silêncio, sim.

A origem do Setembro Amarelo

A campanha nasceu de uma história pessoal. Em setembro de 1994, nos Estados Unidos, o jovem Mike Emme tirou a própria vida aos 17 anos. Ele dirigia um Mustang amarelo, e no dia do velório, familiares e amigos distribuíram cartões com fitas da mesma cor e frases de incentivo, endereçadas a quem também pudesse estar enfrentando um sofrimento invisível.

O gesto se espalhou e, décadas depois, tornou-se movimento global.

No Brasil, o Setembro Amarelo foi adotado em 2015 pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Mais do que uma data no calendário, a campanha trabalha para reduzir o estigma em torno da saúde mental por meio de informação responsável – o tipo de informação que educa sem sensacionalizar.

Um processo, não um acontecimento súbito

Um dos maiores equívocos sobre o suicídio é tratá-lo como acontecimento súbito.

Na prática, ele costuma ser o desfecho de um processo prolongado de sofrimento, no qual a pessoa começa a cogitar a ideia, elabora pensamentos recorrentes e, em alguns casos, chega a planejar o ato.

Esse percurso – silencioso, mas identificável – é também a maior janela de oportunidade para intervenção.

O papel da psicoterapia e da rede de apoio

A psicoterapia é o primeiro passo diante de sinais de sofrimento emocional. A partir de uma avaliação especializada, pode ser indicada a atuação conjunta de um psiquiatra, e, em contextos de vulnerabilidade social, o suporte da assistência social se torna igualmente decisivo. Prevenção, nesse sentido, é rede – não gesto isolado.

Reconhecer sinais de sofrimento exige sensibilidade e prontidão para agir diante de mudanças de comportamento. E exige, sobretudo, compreender uma distinção que parece sutil, mas não é: ouvir é captar o som; escutar é um exercício ativo de compreensão.

Escutar genuinamente significa suspender o próprio julgamento sobre o tamanho de um problema. Uma questão que, sob a ótica de quem escuta, pode parecer administrável, para outra pessoa pode carregar um peso capaz de justificar, em sua percepção, o desejo de morrer.

Validar essa dor – sem minimizá-la e sem dramatizá-la – é o que torna o acolhimento eficaz.

O que dizem os números

Um relatório da OMS divulgado em 2022 apontou que, em 2019, um bilhão de pessoas no mundo viviam com algum transtorno mental.

No mesmo ano, a organização passou a reconhecer oficialmente o burnout como uma síndrome decorrente do estresse crônico no ambiente de trabalho – um dado que aproxima o tema da rotina de lideranças e profissionais de alta performance.

No Brasil, o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde registrou 15.507 suicídios entre 2010 e 2021, dos quais 77,8% entre homens. No período, o suicídio se consolidou como a 27ª causa de morte no país, atingindo principalmente adolescentes e adultos jovens – uma faixa etária em que a intervenção precoce tem o maior potencial de impacto.

Contrariando o senso comum, o suicídio nem sempre está associado a um transtorno mental diagnosticado. É mais preciso compreendê-lo como um sistema concêntrico.

No centro, está o indivíduo – sua biologia, sua história de vida, sua subjetividade. Ao redor, a comunidade imediata, onde certas dinâmicas podem elevar o risco. Na camada mais externa, a sociedade, com seus valores culturais e suas pressões sobre o que significa ter sucesso e ser feliz. Entender essas camadas é o que permite uma prevenção que não se limita ao consultório.

O CVV como porta de entrada

O Centro de Valorização da Vida (CVV) segue como uma das principais portas de entrada para quem precisa de escuta imediata. Criado na década de 1960, o serviço é voluntário, gratuito, sigiloso e anônimo.

Hoje, cerca de 3.500 voluntários atuam em aproximadamente 100 postos de atendimento, funcionando 24 horas por dia, todos os dias do ano, e realizando mais de 3 milhões de atendimentos anuais por telefone, chat, e-mail e presencialmente. Os canais e endereços estão disponíveis em cvv.org.br.

Setembro é o mês em que o amarelo ganha as ruas e as redes. Mas a escuta que previne o suicídio não tem calendário – ela se constrói nos outros onze meses do ano, na disposição diária de perguntar, prestar atenção à resposta e, principalmente, ficar por perto depois dela.

Precisa de ajuda ou conhece alguém que precisa? CVV – 188 (ligação gratuita) | cvv.org.br | atendimento 24h, todos os dias.

*Débora Telles é psicóloga e mestre em psicologia clínica.