Entre Dívidas e Novas Oportunidades, Expointer Aponta Mudança no Humor do Agro Gaúcho
Fonte: forbes.com.br | Data: 03/09/2026 05:04:27
“Nós temos um perfil de produtor endividado e isso tem impacto na capacidade de tomada de crédito e investimento.” A afirmação do secretário de Agricultura do Rio Grande do Sul, Márcio de Andrade Madalena, em entrevista exclusiva à Forbes Agro resume o ambiente encontrado na 49ª Expointer, realizada em Esteio, na região metropolitana da capital, Porto Alegre.
A Forbes acompanhou de perto o ânimo da feira, e conversou ainda com os executivos Rodrigo Junqueira, vice-presidente da Massey Ferguson para a América Latina, e Paulo Arabian, vice-presidente de Vendas da CNH para a América Latina. O principal encontro do agronegócio gaúcho, iniciado no sábado (29) e que segue até próximo domingo (6), reúne produtores mais dispostos a discutir investimentos, acompanhar lançamentos e planejar a próxima safra, mas ainda sob os efeitos de uma sequência de estiagens, das enchentes de 2024 e das dificuldades de acesso ao crédito.
Mesmo com esse cenário, a percepção predominante entre governo, produtores e fabricantes de máquinas é de que o mercado começa a construir uma retomada gradual. O avanço dependerá menos do interesse do agricultor em investir e mais da recomposição de sua capacidade financeira.
Nos primeiros dias de feira, o ambiente da Expointer mostra um produtor mais presente nos estandes, acompanhando demonstrações técnicas e planejando investimentos. A recuperação ainda depende da renegociação das dívidas acumuladas, da evolução do crédito e do comportamento das próximas safras. Mas, diferentemente do ano passado, a percepção predominante na feira é que o setor voltou a olhar para frente.
Endividamento versus produção agropecuária

Os números ajudam a explicar esse momento. Dados mais recentes do Banco Central (de junho) mostram que o Rio Grande do Sul possui R$ 42,8 bilhões em crédito problemático, equivalente a 39,3% da carteira total de crédito do Estado de R$ R$ 108,8 bilhões. Em junho do ano passado, esse percentual era de 33,8%. Ao mesmo tempo, a agropecuária gaúcha segue apresentando recuperação produtiva. Segundo as projeções mais recentes do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) no Rio Grande do Sul deve alcançar R$ 101,7 bilhões em 2026, crescimento de 7,3% sobre 2025, mantendo o Estado na sexta posição do ranking nacional.
Para Márcio, esse contraste entre produção e dificuldades financeiras explica boa parte do comportamento observado nesta edição da Expointer. “É importante nós lembrarmos que estamos vindo no Rio Grande do Sul de sucessivas estiagens e enchentes, e acabamos chegando a uma situação de endividamento do nosso produtor rural muito forte. Não tivemos a renegociação das dívidas encaminhada da forma ideal, como nós imaginávamos que deveria ser”, diz o secretário.
Segundo ele, esse quadro deverá limitar principalmente a comercialização de máquinas agrícolas, segmento que historicamente responde pela maior parte do faturamento da feira. Em compensação, outras áreas mostram desempenho diferente. A agricultura familiar reúne, pela primeira vez, mais de 500 expositores, enquanto a pecuária registra o maior número de animais inscritos desde 2012, com 7.926 inscrições, além de uma procura crescente por genética bovina.
Faturamento acompanha os ciclos do campo
A própria evolução dos negócios realizados na Expointer demonstra como o desempenho da feira acompanha o cenário econômico da agropecuária. Depois de movimentar R$ 2,7 bilhões em 2019, o evento não foi realizado em 2020 por causa da pandemia. Na retomada, em 2021, os negócios somaram R$ 1,63 bilhão. Em seguida, vieram três anos consecutivos de crescimento, alcançando R$ 7,15 bilhões em 2022, R$ 7,99 bilhões em 2023 e o recorde de R$ 8,1 bilhões em 2024.
No ano passado, porém, o volume caiu para R$ 4,42 bilhões, refletindo diretamente os efeitos das enchentes e da perda de capacidade financeira dos produtores gaúchos.
“No momento em que estamos endividados, volto a dizer que isso vai impactar a comercialização do evento, nós temos muita tranquilidade para falar sobre isso”, diz Márcio. “Sabemos que no domingo, no fechamento desta edição, deve se concretizar uma tendência de redução da comercialização de equipamentos. Estamos tranquilos quanto a isso, mas confesso que podemos ser surpreendidos.”
Apesar da expectativa de menor comercialização de máquinas nesta edição, fabricantes observam um fluxo maior de visitantes nos estandes e maior interesse pelos lançamentos, indicando que parte das decisões de investimento poderá ocorrer ao longo do próximo ciclo agrícola.

A leitura feita pela indústria acompanha a percepção do governo estadual. Para Paulo Arabian, do grupo CNH, um dos importantes fabricantes de máquinas agrícolas e dono das marcas Case e New Holland, e que faturou globalmente US$ 18,1 bilhões (R$ 92,2 bilhões, na cotação atual) em 2025, afirma que o produtor passou a avaliar os investimentos com maior rigor, priorizando tecnologias capazes de elevar a produtividade, reduzir custos e aumentar a eficiência operacional. Mesmo assim, considera que a movimentação da Expointer está dentro da média das últimas edições.
Segundo Paulo, juros elevados, menor rentabilidade no campo e um ambiente econômico ainda incerto continuam limitando uma recuperação mais acelerada do mercado de máquinas agrícolas. A expectativa da companhia é de retração nas vendas em 2026, principalmente de colheitadeiras. Para 2027, a projeção passa a ser de retomada gradual, condicionada à evolução do crédito e da renovação da frota agrícola.
“Sabemos que hoje o agricultor gaúcho está mais atento à relação entre investimento, produtividade e custos, buscando soluções que entreguem maior eficiência operacional e tecnologia”, diz Paulo. “Apesar dos desafios impostos pelas questões climáticas e pelo endividamento de muitos produtores, temos visto uma boa feira até o momento, dentro da média se comparada às edições anteriores.”

Na Massey Ferguson, pertencendo ao grupo AGCO, e que faturou mundialmente US$ 10,1 bilhões (R$ 51,5 bilhões), o diagnóstico é semelhante. O vice-presidente para a América Latina, Rodrigo Junqueira, afirma que a melhora recente nos preços do milho alterou parte do humor do mercado nas últimas semanas e voltou a estimular negociações.
“É preciso ver o filme e não a foto”, afirma o executivo. “O produtor não está deixando de fazer negócio, mas pede um tempo para se recuperar e entender todo este momento.”
Na avaliação de Junqueira, a Expointer funciona como o primeiro termômetro da safra seguinte. Embora a expectativa seja encerrar 2026 com vendas ligeiramente inferiores às do ano passado, a empresa vê condições mais favoráveis para 2027, sustentadas pela recuperação do milho, pelo bom desempenho da pecuária, do café e de outras atividades que continuam gerando renda no campo.
“O nosso foco é entender como entregar a tecnologia que o agricultor precisa para superar desafios, trabalhando com soluções tecnológicas sirvam ao produtor de forma simples, rápida e eficiente”, diz Rodrigo.
Agroenergia ganha espaço nas discussões
Se as vendas de máquinas caminham em ritmo moderado, a principal discussão desta Expointer está voltada para o futuro da produção agrícola. Segundo Márcio, a expansão da cadeia de biocombustíveis deverá alterar a dinâmica do agronegócio gaúcho nos próximos anos. Biodiesel, etanol, combustível sustentável de aviação (SAF) e novos investimentos em esmagamento de grãos passam a criar demanda por matérias-primas produzidas dentro do Estado, ampliando o uso das áreas cultivadas durante o inverno, principalmente com canola.
“O nosso produtor rural, para além de produtor de alimento, vai ser produtor de energia”, afirma.
Na avaliação do secretário, essa transformação permitirá agregar valor à produção antes da exportação, fortalecendo um parque agroindustrial voltado ao processamento de grãos e à produção de energia renovável. Outro eixo estratégico apresentado pelo governo estadual está na pecuária. A proposta passa por ampliar o rebanho bovino, acelerar a implantação da rastreabilidade individual dos animais e direcionar a carne gaúcha para mercados que remuneram melhor produtos de maior valor agregado, como Japão e Coreia do Sul. Segundo Márcio, o perfil genético predominante no Estado oferece condições para disputar nichos hoje abastecidos principalmente por Austrália, Nova Zelândia, Argentina e Uruguai.
Em 2025, as exportações de carne bovina do Rio Grande do Sul foram de 94,5 mil toneladas por US$ 451,8 milhões (R$ 2,3 bilhões). Em comparação com 2024, a quantidade e o valor foram respectivamente maiores em 48% e 69,4%. Só no acumulado deste ano até julho, foram exportadas 50,3 mil toneladas por US$ 270,3 milhões (R$ 1,4 bilhão) de carne bovina produzida no Rio Grande do Sul.
Acompanhe a cobertura da Expointer no site da Forbes Agro.
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