Ex-dono do Banco Master acusa PF de forjar imagem de ‘chefe de máfia’ para silenciá-lo
Fonte: tmc.com.br | Data: 03/09/2026 05:26:10
O empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, afirmou em depoimento sigiloso ao Supremo Tribunal Federal (STF) que a Polícia Federal construiu uma narrativa para apresentá-lo como um “chefe de máfia” e justificar sua prisão e isolamento. Segundo ele, a estratégia teria como objetivo impedi-lo de avançar em uma colaboração premiada e mantê-lo afastado de autoridades e de possíveis interlocutores.
Vorcaro sustenta que o inquérito policial teria sido conduzido de forma enviesada para caracterizá-lo como um criminoso perigoso, alguém que “manda bater, que manda matar”. De acordo com o empresário, essa imagem foi construída a partir da seleção de quatro ou cinco mensagens entre centenas de milhares de conversas extraídas de seu celular.
Segundo o relato apresentado ao STF, as mensagens foram escritas em momentos de irritação, principalmente após episódios que envolveram sua filha. Vorcaro afirma que os investigadores teriam destacado apenas os trechos mais agressivos e deixado de lado as mensagens posteriores nas quais ele recuava das declarações.
O empresário citou como exemplos frases como “esquece isso aí” e explicações de que estava nervoso. Para ele, a ausência desse contexto teria contribuído para criar a imagem de uma pessoa disposta a recorrer à violência.
O ex-banqueiro classificou a caracterização como o “oposto” de sua personalidade. Durante o depoimento, afirmou que sempre atuou como um “pacificador” e que era procurado para resolver conflitos. Também negou ter ligação com o crime organizado, ter usado arma ou ter ameaçado ou feito mal a qualquer pessoa.
A acusação de que seria um líder mafioso, segundo o empresário, teria servido ainda para desviar o foco das informações que ele pretendia apresentar às autoridades sobre integrantes do sistema político e outras pessoas ligadas às investigações envolvendo o Banco Master.
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A investigação da PF apontou, por exemplo, uma mensagem de abril de 2025 na qual Vorcaro comparou o funcionamento do setor bancário ao de uma máfia, ao afirmar que “esse negócio de banco sempre falei que é igual máfia”. Para a defesa, porém, a frase não comprovaria participação em uma organização criminosa.
A PF também sustenta ter encontrado elementos que, na avaliação dos investigadores, indicariam o uso de pessoas para fazer cobranças e ações de intimidação, além de uma rede de relações políticas e empresariais utilizada para proteger os interesses do Banco Master. Essas conclusões são contestadas por Vorcaro e por sua defesa.
Prisão e supostas ameaças
No mesmo depoimento, Vorcaro relatou ter sofrido violações de direitos, humilhações e ameaças durante o período em que permaneceu preso. Segundo ele, os episódios teriam ocorrido em diferentes unidades e durante transferências.
O empresário afirmou que, em uma carceragem da Polícia Federal, ficou um dia inteiro sem comida e água e classificou o local como um “calabouço”. Também relatou que pessoas passavam diante da cela em atitudes que, segundo ele, tinham o objetivo de intimidá-lo.
Ao chegar ao Sistema Penitenciário Federal, Vorcaro afirmou ter sido obrigado a ficar completamente nu e teve os pelos do corpo raspados. Segundo o relato, depois teria sido questionado se preferia ficar no pavilhão do Comando Vermelho ou do PCC, apesar de negar qualquer relação com as duas organizações.
Ele também afirmou ter permanecido em uma cela com uma luz piscando de forma intermitente durante 24 horas. A defesa considera que esses episódios configurariam uma forma de pressão psicológica.
Durante uma transferência de São Paulo para Brasília, Vorcaro disse ter ficado seis horas dentro de um compartimento sem ar-condicionado, em meio ao calor. Ao chegar à capital federal, afirmou ter sido recebido por agentes da PF com os rostos cobertos.
Segundo o empresário, um desses agentes teria feito uma ameaça relacionada às informações que ele poderia revelar sobre o caso. Em outro episódio, durante uma transferência de helicóptero, afirmou que foi obrigado a usar óculos que impediam sua visão e que ouviu de um agente que seria mais fácil “jogar ele daqui”.
Ameaças contra familiares
Vorcaro também relatou supostas ameaças contra familiares. Segundo o empresário, a mãe e a irmã ficaram sozinhas em Belo Horizonte depois que homens da família foram presos.
Ainda de acordo com o depoimento, as duas teriam recebido ligações telefônicas e e-mails anônimos com ameaças de morte contra ele. A defesa afirma que as intimidações teriam ultrapassado o ambiente prisional e atingido pessoas próximas ao empresário.
As alegações fazem parte do depoimento sigiloso prestado por Vorcaro ao STF. As acusações sobre a atuação de agentes públicos e a suposta manipulação das mensagens são afirmações do empresário e de sua defesa. A TMC não conseguiu contato com a Polícia Federal ou com o diretor-geral da corporação. O espaço permanece aberto para manifestação.