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Caso Master: a quem interessa jogar M* no ventilador do STF?

Fonte: brasil247.com | Data: 03/09/2026 12:23:39

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O celular de Daniel Vorcaro tornou-se uma arma apontada para o coração do Supremo Tribunal Federal.

Primeiro, suas mensagens atingiram Alexandre de Moraes. Menos de 24 horas depois, revelações do mesmo universo obrigaram André Mendonça a explicar um encontro reservado com o banqueiro, fora do STF, numa instituição privada ligada ao próprio ministro.

As informações precisam ser investigadas, independentemente de quem atinjam. Mas já não basta perguntar o que havia no celular de Vorcaro.

É preciso saber quem escolheu cada informação, por que ela apareceu naquele momento e a quem interessa transformar suspeitas sobre ministros numa crise de confiança em todo o Supremo.

Alguém imaginou que poderia abrir seletivamente a caixa-preta de Vorcaro. O que saiu de dentro dela, porém, começou a atingir todos os lados.

Uma ordem extraordinária

Em 24 de agosto, André Mendonça convocou integrantes da Polícia Federal para uma reunião sobre o caso Master.

Apresentou uma determinação incomum: a PF teria apenas 72 horas para produzir um relatório sobre menções, no material apreendido de Vorcaro, a Alexandre de Moraes, ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da própria PF, Andrei Rodrigues.

Investigadores disseram à imprensa que foram surpreendidos. Alguns classificaram a reunião como uma “cilada”. A ordem foi interpretada dentro da corporação como uma tentativa de colocar a PF para investigar seu próprio diretor-geral, o chefe do Ministério Público e outro ministro do Supremo.

O relatório foi produzido e teve o sigilo retirado por Mendonça em 1º de setembro.

Seu conteúdo era explosivo.

As mensagens mostravam Vorcaro tentando mobilizar Moraes em favor dos interesses do Banco Master, inclusive em questões relacionadas à Polícia Federal. Somaram-se a isso os contratos milionários já conhecidos entre empresas ligadas ao banqueiro e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.

As mensagens demonstram que Vorcaro buscava influência. Não provam, por si mesmas, que Moraes tenha atendido aos pedidos ou cometido algum crime.

Mas o efeito político estava produzido: Alexandre de Moraes, símbolo da reação institucional à tentativa de golpe e aos ataques contra as urnas, aparecia no centro de uma crise envolvendo o banqueiro mais comprometedor do país.

A caixa-preta se volta contra Mendonça

Menos de 24 horas depois, o caso mudou de direção.

Mensagens do mesmo celular revelaram que André Mendonça havia sido procurado por pessoas que buscavam aproximá-lo de Vorcaro.

O personagem central dessa articulação é o advogado Ciro Rocha Soares. Em fevereiro de 2025, ele enviou ao banqueiro uma fotografia ao lado de Mendonça e um áudio: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você!”

A fotografia havia sido feita numa alfaiataria frequentada por Mendonça. O ministro confirmou que encontrou Ciro no local, mas negou ter sido levado até lá por ele ou ter recebido qualquer presente. Não há evidência pública de que Vorcaro estivesse presente ou tivesse pago alguma despesa.

O ponto relevante é outro: enquanto demonstrava proximidade pessoal com Mendonça, Ciro dizia ao banqueiro estar “trabalhando” para ele.

Depois, o advogado informou que o ministro queria receber Vorcaro. Acrescentou ter contado a Mendonça “a situação do Banco Central toda” e tê-lo deixado “balançado”.

O encontro fora do STF

Em 14 de março de 2025, Vorcaro encontrou-se com Mendonça no Instituto Iter, em São Paulo.

A instituição foi fundada pelo ministro e tem como acionista majoritária uma empresa pertencente a Mendonça e sua mulher. Pouco antes da reunião, o deputado Cezinha de Madureira, do PL, avisou ao banqueiro: “Ministro já está te esperando.”

Mendonça afirma que a conversa durou de 20 a 30 minutos e tratou exclusivamente da Suspensão de Tutela Provisória 976, processo em julgamento no STF que envolvia créditos de precatórios de interesse do Banco Master. Ressaltou ainda que posteriormente votou contra a posição defendida pelo banqueiro.

O esclarecimento importa, mas não resolve o problema.

Se o assunto era um processo em julgamento no Supremo, por que Vorcaro foi recebido fora do Tribunal, numa instituição privada vinculada ao próprio ministro e sem registro na agenda pública?

O Estatuto da Advocacia prevê que advogados tratem de processos com magistrados em suas salas e gabinetes de trabalho, embora não proíba expressamente encontros em outros locais. Receber pessoalmente um empresário interessado numa ação, num espaço privado ligado ao julgador, afasta-se desse modelo institucional.

A conduta também entra em conflito com os princípios de transparência, imparcialidade e prevenção da aparência de favorecimento estabelecidos pelo Código de Ética da Magistratura Nacional.

O voto posterior contra o Banco Master pode afastar a suspeita de favorecimento no julgamento. Não explica por que foi criado um canal reservado e não institucional de acesso ao ministro.

O Iter também precisa de transparência

O encontro recupera uma pergunta formulada por Luís Nassif, no GGN: teria existido alguma relação financeira entre Vorcaro e o Instituto Iter?

Até agora, não há prova pública de que o banqueiro ou o Banco Master tenham financiado a instituição. A hipótese não pode ser apresentada como fato.

Mas o Iter precisa revelar quem são seus clientes, financiadores e contratantes. O instituto arrecadou pelo menos R$ 4,8 milhões entre maio de 2024 e outubro de 2025, principalmente em contratos com instituições públicas. A Fiesp, que participa como amicus curiae de processos relatados por Mendonça, comprou 95 inscrições em seus cursos, por R$ 142,5 mil.

Nada disso comprova ilegalidade. Mas uma instituição privada diretamente ligada a um ministro do Supremo, que recebe recursos de entidades interessadas em processos e serve de local para uma reunião reservada com um empresário, não pode permanecer sob uma cortina de opacidade.

Serão apenas esses os ministros?

Moraes e Mendonça não são os primeiros integrantes do STF alcançados pelo caso Master.

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro já haviam levantado suspeitas sobre Dias Toffoli, então relator das investigações. A Polícia Federal identificou referências a contatos e negócios envolvendo pessoas ligadas ao ministro.

Toffoli negou ter recebido valores de Vorcaro ou favorecido o banqueiro. Posteriormente, porém, declarou-se suspeito, por motivo de foro íntimo, para participar dos julgamentos relacionados ao caso Master.

O precedente torna inevitável outra pergunta: Quantos ministros aparecem no conjunto ainda desconhecido das mensagens de Vorcaro?

Se novas revelações atingirem outros integrantes da Corte, a crise deixará definitivamente de envolver condutas individuais. Passará a colocar sob suspeita os canais informais pelos quais grandes interesses econômicos procuram alcançar o Supremo — e a capacidade do próprio Tribunal de investigar seus membros com transparência.

Quem imaginava controlar o celular?

Mendonça sabia que havia recebido Vorcaro e que o banqueiro estivera no Iter. O que provavelmente não sabia era tudo o que Ciro havia contado ao empresário sobre a aproximação — e quanto disso estava preservado no celular apreendido.

Quem imaginou que a divulgação das mensagens sobre Moraes terminaria em Moraes pode ter cometido um grave erro de cálculo.

A exposição de Mendonça pode ter sido apenas consequência do trabalho de jornalistas. Mas a rapidez com que ocorreu permite levantar uma hipótese mais inquietante: setores da PF ou do sistema de Justiça, contrariados pela ofensiva contra Moraes, Gonet e Andrei, decidiram mostrar que a caixa-preta também continha informações sobre quem mandara abri-la?

Não há elementos suficientes para afirmar que exista uma guerra organizada. Mas está demonstrado que Mendonça impôs uma ordem extraordinária à PF, que a corporação reagiu e que, logo após a exposição de Moraes, informações comprometedoras atingiram o próprio Mendonça.

Chamar tudo isso de coincidência seria ingenuidade. Apresentar uma retaliação como fato comprovado seria precipitado.

O que não se pode é deixar de investigar.

Quando todos são atingidos, quem ganha?

A extrema direita apresenta o STF, o governo Lula, a Polícia Federal e o sistema eleitoral como partes de um mesmo “sistema” a ser derrotado.

Quando as suspeitas se espalham, o alvo deixa de ser um ministro específico. O alvo passa a ser a confiança no Supremo.

Se Moraes, Mendonça, Toffoli e possivelmente outros ministros aparecem associados a Vorcaro, a mensagem política deixa de ser “determinado ministro precisa se explicar”.

Passa a ser: “Ninguém no STF merece confiança.”

Quem está em melhor posição para explorar eleitoralmente essa percepção é Flávio Bolsonaro.

Sua reação às revelações sobre Mendonça foi reveladora. Flávio classificou o episódio como “cortina de fumaça”, protegeu o ministro indicado por seu pai e voltou imediatamente sua artilharia contra Moraes, Gonet e Andrei Rodrigues.

Há uma ironia incômoda: o próprio Flávio aparece no universo de relações de Vorcaro por causa dos milhões destinados à produção de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.

Ainda assim, procura separar seu caso dos demais e concentrar o desgaste nas instituições que enfrentaram o bolsonarismo.

A política dos vazamentos

Por que Mendonça determinou um relatório especificamente sobre Moraes, Gonet e Andrei? Quem teve acesso ao conjunto das informações extraídas do celular? Quem escolheu os trechos divulgados? Por que as informações sobre Mendonça surgiram imediatamente depois? E quantos ministros ainda podem aparecer?

Informações verdadeiras também podem ser selecionadas e utilizadas com objetivos políticos.

Por isso, investigar apenas o conteúdo das mensagens não basta. É preciso investigar a política dos vazamentos.

O episódio começou como uma crise de Alexandre de Moraes, alcançou André Mendonça, recuperou as suspeitas sobre Dias Toffoli e agora ameaça converter-se numa crise de confiança em todo o Supremo.

A pouco mais de um mês das eleições presidenciais, seria ingenuidade imaginar que isso não produz efeitos políticos.

Ainda não sabemos quem resolveu jogar M* no ventilador do STF.

Mas já sabemos quem trabalha para transformar a sujeira espalhada em votos.


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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.