Hypera lança variante do Ozempic por R$ 333 e congela preço para fidelizar cliente
Fonte: exame.com | Data: 04/09/2026 05:07:43
A Hypera Pharma (HYPE3) entra nesta sexta-feira, 4 de setembro, em uma das disputas mais promissoras, e também mais concorridas, da indústria farmacêutica brasileira. A companhia coloca nas farmácias de todo o país o Semavy, sua versão de semaglutida, princípio ativo da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, com indicação para diabetes, mas popularizadas como “canetas emagrecedoras”. A estratégia combina preço, disponibilidade e uma oferta de produtos para acompanhar toda a jornada do paciente.
A caneta de 1 miligramas (mg) chega ao mercado por R$ 333, em um combo de três unidades por R$ 999, para o tratamento de três meses. Segundo a companhia, o valor representa um desconto de até 67% em relação ao medicamento biológico de referência.
Mais do que disputar pelo menor preço, porém, a Hypera quer se diferenciar pela manutenção desse valor ao longo do tratamento. O CEO da companhia, Breno Oliveira, afirma que a estratégia é evitar que o custo faça o paciente interromper o uso de um medicamento que, em geral, exige tratamento contínuo.
“Esse é o preço que queremos praticar: um preço acessível, com um produto de qualidade”, disse Oliveira à EXAME. Segundo o executivo, o valor será permanente, diferentemente de promoções de concorrentes que podem valer apenas para o início do tratamento.
A estratégia coloca a Hypera em um mercado que passa por uma transformação justamente com a chegada de versões mais baratas da semaglutida. A patente do princípio ativo da Novo Nordisk terminou em março deste ano, abrindo espaço para fabricantes nacionais. Desde julho, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já aprovamos ao menos cinco novos medicamentos injetáveis à base da molécula, entre eles o Semavy.
A EMS foi a primeira a chegar às farmácias com o Ozivy, lançado em junho. Agora, a Hypera passa a disputar diretamente esse mercado com empresas como EMS e Eurofarma, que comercializa as canetas Poviztra e Extensior, ambas à base de semaglutina.
Sem intenção de entrar na guerra de preços
A chegada desses novos fabricantes deve pressionar os preços da semaglutida. Foi o que aconteceu com outras moléculas após o fim de patentes, e a própria Hypera reconhece que haverá redução de preços à medida que mais empresas entrarem no mercado.
Oliveira acredita, porém, que a semaglutida não deve repetir exatamente a trajetória de medicamentos de produção mais simples. “Com certeza deve ter queda de preços, deve ter mais competição, mas talvez não tão acirrada aí no curto prazo quanto em outras categorias”, afirmou.
Essa característica, na avaliação da Hypera, pode ajudar a evitar uma desvalorização extrema dos produtos mesmo com a entrada de novos concorrentes. Ainda assim, a companhia afirmar estar preparada para esse cenário e não pretende entrar em uma guerra de preços.
“Acreditamos que, à medida que a competição aumente, haverá uma queda nos preços. Não pretendemos entrar em uma guerra de preços, mas sabemos que será um mercado mais competitivo daqui para frente e estamos preparados para isso”, afirmou Oliveira.
A disputa com o mercado informal
A chegada de versões mais acessíveis ocorre em um momento em que a venda de medicamentos à base de semaglutida ainda convive com um mercado informal relevante, incluindo produtos trazidos do Paraguai e medicamentos manipulados.
Para a Hypera, esse cenário representa mais uma oportunidade do que uma ameaça. Segundo Oliveira, o mercado de semaglutida cresceu aproximadamente 40% em unidades nos primeiros meses do ano à medida que houve maior disponibilidade e acessibilidade dos produtos.
A companhia espera contribuir para acelerar a migração desse consumidor para o mercado formal, com medicamentos aprovados pela Anvisa e vendidos em farmácias. “Vemos uma oportunidade, e não um risco, de trazer esse mercado para o Brasil”, afirmou Oliveira.
O movimento acontece em um mercado que já movimenta bilhões de reais no Brasil. Estimativas citadas por analistas apontam que o segmento de GLP-1 pode crescer dos atuais R$ 10 bilhões para R$ 50 bilhões em quatro anos.
Segundo a IQVIA, a receita com GLP-1 no Brasil cresceu 110,5% nos 12 meses até abril. As canetas ajudaram a elevar o crescimento do varejo farmacêutico para 11,7% no período. Sem elas, a expansão teria sido de 8,6%. E é justamente esse aumento da cesta de compras que a Hypera pretende capturar.
Da caneta para toda a jornada de compras dos usuário do GLP-1
A estratégia da companhia não termina na semaglutida. Junto com o Semavy, a Hypera está estruturando uma espécie de “ecossistema” em torno do paciente que utiliza medicamentos da classe GLP-1.
A companhia lançou o Semavy Nutri, inicialmente com dois produtos: Semavy Fibras, voltado à questão intestinal, e Semavy Proteína, direcionado à preservação de massa magra. A empresa também pretende utilizar produtos já presentes em seu portfólio, como vitaminas D e B12 e itens para constipação e queda de cabelo.
A ideia é que o paciente não compre apenas a caneta, mas uma cesta de produtos associada ao tratamento. “Temos uma vantagem competitiva aí, na promoção médica de promover a cesta como um todo, e oferecendo benefícios também para os pacientes”, disse o CEO.
A estratégia conversa diretamente com uma transformação já percebida pelas próprias farmácias. O CEO da Pague Menos, Jonas Marques, afirmou anteriormente que a cesta de produtos do usuário de GLP-1 tende a aumentar, à medida que ele busca produtos associados ao tratamento.
Para Oliveira, o efeito também é positivo para o varejista. “Para a rede de farmácia, para o varejista, é muito bom também, que tem ali uma receita médica, que o paciente chega com a receita médica não só para a caneta, mas para a jornada”, afirmou.
Além dos produtos, a Hypera está lançando o portal Minha Vida na Medida, com informações de saúde e bem-estar voltadas aos usuários de GLP-1.
O movimento reflete uma mudança na forma como a indústria enxerga essa categoria. Segundo a NielsenIQ, cerca de 90% dos usuários de GLP-1 alteraram hábitos alimentares. O fenômeno já alcança segmentos como alimentação, vestuário e lazer.
A dimensão da aposta ajuda a explicar por que a Hypera trata o Semavy como um dos lançamentos mais importantes de seu portfólio. Oliveira não abre projeções de receita ou participação nos resultados, mas afirma que o impacto pode aparecer rapidamente nos números da companhia.
“Tem o potencial de ser um dos medicamentos mais importantes aqui, mais relevantes do portfólio da Hypera”, disse. “Já no curto prazo temos um potencial de que seja um dos medicamentos mais relevantes da Hypera”.