‘Eleição não pode ser discussão de investigador de polícia com promotor e xerife’, diz Boulos
Fonte: estadao.com.br | Data: 04/09/2026 12:13:18
Foto: Reprodução/TV Estadão
Guilherme Boulos Ministro da Secretaria-Geral da Presidência
“Vale para alguém do Supremo o que vale para todos. Se cometer um crime, tem que ser investigado e tem que ser punido”, destacou o ministro.
Responsável pela articulação do Palácio do Planalto com movimentos sociais, Boulos passou os últimos dias dizendo que dava para aprovar o fim da escala 6×1 no Senado. A principal bandeira da campanha de Lula, porém, ficou para ser votada no plenário somente depois do primeiro turno das eleições.
Mesmo assim, o ministro avisou que a cobrança do governo vai continuar. “Qual é a posição de cada um dos candidatos sobre o fim da escala 6×1?”, perguntou ele, na tentativa de provocar o senador Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário do presidente e um dos nomes que lideraram o movimento contra a proposta.
No gabinete decorado com uma coleção de camisas do Corinthians, Boulos minimizou o crescimento de Augusto Cury (Avante) nas pesquisas, viu “manipulação algorítmica” por trás da disparada do autor de best-sellers e disse que o centro político se “esvaziou”.
Questionado sobre o trabalho do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o ministro rasgou o verbo. “É decepcionante”, avaliou. Para Boulos, a taxa de juros no Brasil, hoje em 14% ao ano, cai em “ritmo de tartaruga”, prejudicando o crescimento econômico. “Quantos votos tem o presidente do Banco Central? Eu nunca vi o nome dele na urna”, alfinetou.
Investigações da Polícia Federal sobre o caso Master atingiram o ministro do STF Alexandre de Moraes e a própria Corte. Como esse escândalo influencia no cenário eleitoral e na campanha do presidente Lula?
Vale para alguém do Supremo o que vale para todos. Se cometer um crime, tem que ser investigado e tem que ser punido. Ninguém está acima da lei ou do que quer que seja. Ninguém, em sã consciência, acha bom a imagem do Supremo Tribunal Federal ser vilipendiada na sociedade. Não é bom para a democracia. Ainda mais com o papel que o Supremo e, particularmente, o ministro Alexandre de Moraes tiveram, de linha de frente no embate em defesa da democracia. Quando houve uma tentativa de golpe, este gabinete em que nós estamos foi depredado. Quem estava aqui era o general Mário Fernandes, que está preso hoje e foi quem imprimiu, naquela impressora ali (aponta para o equipamento), o plano “Punhal Verde e Amarelo” para matar Lula, Alckmin (vice-presidente Geraldo Alckmin) e o Alexandre de Moraes.
No caso que veio à tona agora, Moraes cometeu crime?
Eu não sou investigador da Polícia Federal nem procurador de Justiça. Não tenho acesso aos autos. Não cabe a mim achar ou não achar. Cabe ver a investigação acontecer. E que aconteça de maneira autônoma, preferencialmente sem vazamentos seletivos.
O sr. acha que as investigações contra o filho do presidente, Fábio Luís, e o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, estão servindo para ofuscar as ligações do candidato do PL, Flávio Bolsonaro, com o banqueiro Daniel Vorcaro?
O intuito dos vazamentos seletivos certamente era esse. Agora, é importante a gente comparar procedimentos. Quando o Fábio foi citado na investigação do INSS, ainda no ano passado, o que Lula disse? “Se meu filho errou, vai pagar. Eu não vou mexer um dedo para coibir qualquer investigação”. Quando o Marcola foi citado, Lula disse a mesma coisa. Quando aconteceu a mesma coisa com o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, todos vocês viram naquela reunião ministerial ele dizendo: “Eu não vou deixar ferrar o meu filho. Se continuar perseguindo, eu vou mandar tirar o delegado. Se não puder tirar o delegado, eu tiro o diretor da PF. Se não puder tirar o diretor, eu tiro o ministro da Justiça”. Então, um lado investiga; o outro joga para baixo do tapete. Se você não investigar a corrupção, a corrupção não existe.

Guilherme Boulos é responsável pela articulação do Palácio do Planalto com movimentos sociais
Foto: Isabella Almada/Estadão
Toda vez que o tema corrupção é citado vem à tona para o eleitor a memória de escândalos como o do mensalão e do petrolão. No meio de uma campanha acirrada como esta, as investigações envolvendo o filho do presidente e o ex-chefe de gabinete não preocupam?
Você se preocupa quando tem um calcanhar de Aquiles, algo que não consiga responder. Quando você tem fatos concretos para comparar, como nós temos, não.
As apurações da PF mostram que Vorcaro atuava não só do lado de Flávio, mas também do PT, tanto que Jaques Wagner é alvo de investigações. Como a campanha de Lula vai tratar disso sem falar do que aconteceu com o PT?
A respeito de Jaques Wagner, ele está se defendendo. Em comum acordo com o presidente, saiu da liderança do governo. Não houve uma blindagem para o Jaques Wagner. Se errou, vai pagar. Agora, o Wagner não é candidato a presidente da República. O Flávio Bolsonaro é. O Wagner não tem um áudio pedindo R$ 134 milhões para o Vorcaro. O Flávio tem. E visitou Vorcaro na prisão domiciliar. Cláudio Castro (PL), ex-governador do Rio, passou R$ 3 bilhões do fundo de aposentadoria para o Master. Esse escândalo coloca suspeita sobre várias pessoas da política, só que de forma desigual.
A que o sr. atribui o crescimento da candidatura de Augusto Cury nos últimos dias?
Tem coisa muito estranha aí. Já dizia Leonel Brizola: quando tem rabo de porco, focinho de porco, orelha de porco, é porco. Como o Augusto Cury explode em crescimento, em busca e engajamento na Índia? Vocês têm alguma explicação razoável para isso que não seja o uso de fazendas de robôs, como o bolsonarismo usou em 2018? A aproximação do Augusto Cury com o Pablo Marçal é pública e notória. O método é exatamente o mesmo: cortes nas redes sendo difundidos. O que ainda se precisa descobrir é quem está por trás dessa operação, do ponto de vista financeiro e logístico, e se tem dedo de outros candidatos interessados nisso.
Cury é psiquiatra e autor de best-sellers de autoajuda. O sr., que tem formação psicanalítica, acha que a linguagem usada por ele, ligada a progresso e crescimento pessoal, pode render dividendos eleitorais?
Tem outros 300 coaches de autoajuda igual a ele, que têm a mesma linguagem. O que gera volume e faz alguém crescer não é só o que ele diz: é o modelo de difusão e para quem chega. O nome disso é manipulação algorítmica. A gente já viu isso acontecer em eleições, e não só no Brasil. Isso custa caro, implica numa operação política e digital sofisticada, e precisa ser investigado.
Mas não está havendo agora uma inclinação por outsiders na política?
Esse anseio por uma terceira via existe faz tempo. É lógico que tem um setor do eleitorado que não quer votar no Lula e que não quer votar no Flávio Bolsonaro. Desde 2018, quando houve a polarização entre esquerda e extrema-direita, você tem um segmento do eleitorado que não se sente representado por nenhum deles. Só que, no frigir dos ovos, o eleitor também é muito pragmático. As pessoas votam por aquilo que é possível e viável ganhar. Olhando o mundo, o centro se esvaziou. Com raras exceções, as posições políticas de centro, embora tenham eco, sobretudo entre o setor mais intelectualizado de classe média urbana, perderam a capilaridade social. Eu acho muito improvável que a gente tenha o surgimento de uma via dessas na eleição.
Diante de tantas dificuldades, a campanha de Lula vai pregar o chamado “voto útil” no primeiro turno?
Há quem queira que a agenda da eleição seja chafurdar na lama, sem discutir os temas do Brasil. Nós queremos discutir soberania nacional. Qual é a posição de cada candidato sobre minerais críticos, terras raras e geopolítica mundial com a ofensiva dos Estados Unidos sobre a América Latina? Como o Brasil deve se portar? O eleitor precisa saber disso. Qual é a posição de cada um dos candidatos sobre o fim da escala 6×1, sobre maior investimento no SUS e na educação e sobre segurança pública? Eleição presidencial não pode ser uma discussão de investigador de Polícia com o promotor, com o xerife. Deixa isso com as autoridades judiciais e policiais. Eleição presidencial tem que discutir o País. O que está em jogo nessa eleição não é Lula contra Flávio Bolsonaro, não é esquerda contra direita, pura e simplesmente. O que está em jogo é se o Brasil permanece soberano ou se vai virar uma colônia dos norte-americanos.
O comitê de Lula tem cobrado muito a prestação de contas do dinheiro que Flávio recebeu de Vorcaro para o filme Dark Horse. Para onde o sr. acha que foi o dinheiro?
A Polícia Federal vai ter que dizer. Flávio Bolsonaro é um mentiroso compulsivo. Ele grava um vídeo e diz que é dinheiro privado, que terminou em maio de 2025. Hoje nós temos documentos dizendo que ele recebeu pelo menos até setembro. O fato é o seguinte: esse cidadão recebeu R$ 75 milhões do Vorcaro. Alguém, em sã consciência, acha que isso foi para um filme? Há suspeitas de que parte expressiva do dinheiro tenha sido gasta nos Estados Unidos, sendo que a produção do filme estaria sendo feita no Brasil. Se foi gasta lá, isso leva a uma suspeita de que tenha sido ou enriquecimento ilícito da família ou para patrocinar a campanha feita pelo irmão dele (Eduardo Bolsonaro) contra o Brasil nos EUA.
O presidente se reuniu com empresários e banqueiros, nesta semana, e ouviu a preocupação de todos com a trajetória da dívida pública. O sr. e o PSOL têm ressalvas ao ajuste fiscal. Quais mudanças devem ocorrer nessa área em um eventual quarto mandato de Lula?
A opção que o presidente Lula fez, não somente neste, mas no conjunto de seus governos, foi de não sacrificar o povo trabalhador nas políticas sociais e buscar fazer com que a conta, quando é preciso fazer ajuste, seja paga pela unidade de cima, não pelo andar de baixo. Fazer ajuste fiscal covarde, cortando médico do SUS, salário de professor, é de uma irresponsabilidade tremenda. O debate que precisa ser feito, e que uma parte importante dos economistas liberais que fazem esse clamor permanente por ajuste fiscal não se digna a fazer, é: por que a gente não faz um ajuste fiscal nas desonerações, nos benefícios tributários deste País? Por que a gente não faz um ajuste nos grandes benefícios fiscais do agronegócio e na despesa de quase R$ 1 trilhão por ano que o Brasil gasta nos juros escorchantes da dívida pública?
Então, o sr. está defendendo uma flexibilização do ajuste fiscal, caso o presidente seja reeleito?
O que eu estou defendendo é a garantia da política que deu certo. O presidente Lula aumentou o investimento público nos quatro anos de governo em relação a Bolsonaro. Nós temos um crescimento do PIB acima de 2%, que não se tinha desde 2012. Nós temos a menor inflação acumulada em quatro anos. Nós chegamos no menor desemprego da série histórica para o mês de junho e julho, desde que se mede isso no Brasil. Temos aumento real do salário. Essa política que ampliou investimento público deu certo.
Mas como resolver o crescimento da dívida pública?
Dizem que o crescimento da dívida pública no Brasil está chegando a 80%. Você sabe qual é a dívida pública do Japão? 200%. Sabe qual é a dívida pública da Itália? 160%. Sabe qual é a dívida pública dos Estados Unidos? Mais de 100%. Então, considerando essa base, qual é o critério para os oráculos da Faria Lima saírem repetindo a torto e a direito que a dívida pública está explosiva e descontrolada no país?
São países muito diferentes do Brasil, com outro nível de renda e desenvolvimento.
São. Inclusive, uma das diferenças é ter uma dívida pública muito maior que a nossa. Nenhum deles tem um juro escorchante. Eu acho muito curioso que, quando falam de aumento da dívida pública, ninguém da turma da Faria Lima cita os juros.
Que avaliação o sr. faz do trabalho do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em especial sobre o ritmo de queda da taxa de juros?
É decepcionante. O ritmo de queda da taxa de juros é absolutamente decepcionante. O presidente Lula, quando indicou Galípolo, foi bastante expresso naquilo que esperava: uma política de redução dos juros. Você tem um problema real de finalidade do Banco Central. O FED (Banco Central dos Estados Unidos) tem um mandato múltiplo. Tem o objetivo de conter a inflação, mas também de monitorar e conter o desemprego. A maior parte dos bancos centrais em países desenvolvidos não tem um mandato único para conter a inflação. O Banco Central do Brasil continua tendo. Ele vai pensar a taxa de juros na reunião do Copom apenas olhando a inflação. Se você tivesse um mandato múltiplo que envolve, inclusive, conter o desemprego, como é o FED, talvez tivesse uma outra leitura.
Mas o Banco Central tem autonomia.
A autonomia que foi aprovada no governo Bolsonaro visivelmente gera um problema para a democracia. Quantos votos tem o presidente do Banco Central? Eu nunca vi o nome dele na urna. Se quem teve 60 milhões de votos e a confiança do povo brasileiro para definir a economia não puder ter nenhum tipo de incidência na taxa de juros…
Esta opinião sobre Galípolo é compartilhada por outros integrantes do governo e pelo próprio presidente?
Eu falo por mim. Não sou porta-voz econômico do governo. Minha percepção é que o nível de manutenção (da Selic) por um período, depois de queda a ritmo de tartaruga dos juros no Brasil, é bastante decepcionante.