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Parar de fumar é possível, mas ainda é um desafio

Fonte: folhape.com.br | Data: 05/09/2026 06:12:01

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“Não é fácil, eu sei bem disso, mas é possível alcançar o resultado. A sua família vai agradecer, você vai agradecer, seu futuro e o mundo vão agradecer. Vale a pena!”

É o que diz o empresário Antônio Cardoso. Hoje com 58 anos, ele decidiu, em 2022, pôr fim à relação tóxica que mantinha com o cigarro há quase quatro décadas.

O empresário Antônio Cardoso, de 58 anos, está há quatro anos sem fumar. | Foto: Ewellin Melo/Reprodução 

Fumante desde os 16 anos, ele passou boa parte da vida convivendo com o hábito até decidir abandonar o vício. Ele está há quatro anos sem fumar.

A história de Antônio não é um caso isolado, mas reflete uma mudança positiva em um dos comportamentos relacionados à saúde pública brasileira. A decisão de abandonar o cigarro na casa dos 50 anos coincide com uma faixa etária que apresentou uma das quedas mais expressivas no percentual de fumantes no país.

Segundo a última pesquisa nacional do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), realizado pelo Ministério da Saúde para monitorar fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais e no Distrito Federal, entre 2006 e 2024, o percentual de fumantes entre pessoas de 45 a 54 anos caiu de 22,8% para 12,4%.

O avanço é significativo diante dos impactos do tabagismo na saúde da população. Diariamente, no Brasil, cerca de 477 pessoas morrem em decorrência de doenças provocadas pelo tabagismo, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca).

A mudança de comportamento apresentada na última pesquisa do Vigitel também é observada pela médica de família  e Comunidade, Keilla Mello, que atua no acolhimento de pacientes na Unidade de Saúde da Família (USF) Dr. Guilherme José Robalinho, no bairro do Pina, Zona Sul do Recife.

Keilla Mello, médica de família e comunidade, atua na Unidade de Saúde da Família (USF) Dr. Guilherme José Robalinho, no bairro do Pina, Zona Sul do Recife | Foto: Arquivo Pessoal

Segundo ela, embora ainda receba pessoas que fumam durante toda a vida adulta, nos últimos anos tem percebido a procura de “pessoas de meia-idade e também idosos” pelo programa de tratamento para conseguir parar de fumar.

Abandonar o cigarro, no entanto, está longe de ser uma tarefa simples. Para a médica, deixar o tabagismo deve ser encarado como um processo que começa pela identificação dos chamados gatilhos, situações ou sentimentos que aumentam a vontade de fumar.

“É importante identificar o que leva a pessoa a fumar. Pode ser ansiedade, estresse, café, bebida alcoólica ou outras situações”, explica.

A partir desse reconhecimento, o acompanhamento profissional pode ajudar o fumante a desenvolver estratégias para lidar com esses momentos sem recorrer ao cigarro.

História de Antônio
Antônio, que contou sua experiência no início desta reportagem, conhece bem as dificuldades desse processo. Antes de conseguir abandonar definitivamente o hábito, ele já havia tentado parar de fumar quando era mais jovem.

Na ocasião, conseguiu permanecer cerca de dois anos sem colocar um cigarro na boca. O período de abstinência, porém, não foi suficiente para afastar completamente a dependência.

Para ele, bastou um único cigarro para que o vício voltasse, e com ainda mais força.

“No cigarro é assim: de um trago, voltou o vício, e voltou muito pior, muito mais forte. É um vício que não é só químico ou físico. É também psicológico. Você para para relaxar, quando está estressado, para desestressar naquele momento. É quase como um momento de meditação”, afirma Cardoso.

A sensação de “relaxamento” descrita por Antônio tem relação com a ação da nicotina, principal substância responsável pela dependência do cigarro.

Segundo o Inca, após inalada, ela é rapidamente absorvida pelo organismo e chega a diferentes órgãos, incluindo o cérebro, o que ajuda a explicar a dificuldade de abandonar o hábito.

Aumento no número de fumantes
Outro dado relevante apresentado pelo último monitoramento do Vigitel (2006–2024) é o aumento no número de fumantes nas capitais brasileiras e no Distrito Federal.

O percentual de fumantes passou de 9,0%, em 2021, para 11,5%, em 2024. Em apenas três anos, o aumento acende um alerta para uma possível interrupção, ainda que pontual, da trajetória de queda do tabagismo registrada nas últimas décadas.

Embora o Ministério da Saúde considere a tendência recente estável, devido às margens de variação da pesquisa, o aumento observado merece atenção.

Percentual de adultos (≥18 anos) fumantes, no conjunto das capitais de estados brasileiros e no Distrito Federal | Imagem: Vigitel, 2006-2024

Outra preocupação apontada pelo relatório é o avanço do uso de cigarros eletrônicos, popularmente conhecidos como vapes.

Segundo o Vigitel, o percentual de adultos que declararam usar esses dispositivos diariamente ou ocasionalmente oscilou de 2,3%, em 2019, para 2,4%, em 2024.

Quando o recorte é feito por faixa etária, o cenário chama ainda mais atenção entre os jovens. Entre aqueles de 18 a 24 anos, 24,8% já haviam experimentado o cigarro eletrônico, o equivalente a praticamente um em cada quatro jovens.

Para a médica Keilla, no entanto, o cigarro eletrônico é tão prejudicial quanto o cigarro comum, e também não é uma opção segura para quem quer parar de fumar.

Segundo ela, o dispositivo “pode ter altas concentrações de nicotina”, o que pode “manter ou aumentar a dependência”, além de expor o organismo a diversas substâncias tóxicas.   

O alto nível de nicotina nos cigarros eletrônicos pode prejudicar o combate ao vício | Imagem: Unsplash/Reprodução

Segundo o Inca, o hábito de fumar está relacionado a cerca de 90% das mortes por câncer de pulmão e ao desenvolvimento de diversos outros tipos de câncer, além de estar associado a doenças como tuberculose, úlceras gastrointestinais, impotência sexual e infertilidade. Diante dos riscos, a médica alerta para os sinais que indicam que o corpo precisa de atenção.

“Falta de ar intensa, dor no peito, tosse persistente, presença de sangue no escarro, rouquidão prolongada ou perda de peso sem explicação são alguns dos sintomas que devem ser investigados. Nesses casos, a orientação é procurar atendimento médico.”  

Ajuda médica
Em Pernambuco, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento gratuito e integral para pessoas que desejam parar de fumar. No Recife, 66 unidades de saúde disponibilizam o Programa Municipal de Controle do Tabagismo. Saiba onde encontrar atendimento.

O usuário interessado em parar de fumar pode procurar a unidade mais próxima de sua residência para receber orientações. O tratamento inclui abordagem cognitivo-comportamental e, quando indicado, o uso de medicamentos.

“Não precisa desisitir”
Para Antônio, que começou a fumar ainda na adolescência, vencer o vício, há quatro anos, trouxe mudanças que vão além da saúde. Uma das mais perceptíveis foi superar algo que, durante décadas, havia se tornado incômodo: o cheiro do cigarro. 

Ele também passou a olhar para o próprio consumo com outra perspectiva. Chegou a fumar até duas carteiras por dia, um hábito que também pesava no bolso. Hoje, além de comemorar a mudança, ele deixa um alerta para quem ainda tenta abandonar o cigarro:

“Recaídas podem acontecer, mas não significam que seja preciso desistir”.

Para quem ainda enfrenta a dependência, Antônio acredita que o primeiro passo é tentar e buscar ajuda. “Quem hoje está viciado no cigarro, faça um esforço sobrenatural. Vale a pena. Procure uma orientação médica, procure ajuda, porque vale a pena mesmo. Sua família vai agradecer”, aconselha.

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