Marcio Maranhão, o cirurgião que encarou a saúde pública e voltou para contar: ‘O SAMU não julga’
Fonte: estadao.com.br | Data: 05/09/2026 06:23:54
Foto: Caio Albino/Divulgação
Marcio MaranhãoCirurgião e autor do livro ‘Sob Pressão’
“O SAMU não julga.” A frase é de Marcio Maranhão, 55 anos, cirurgião torácico carioca, e resume o que ele considera o núcleo de tudo o que escreveu nos últimos doze anos: a ideia de que a saúde pública é o único ponto de contato que o Estado brasileiro mantém, sem exceção, com qualquer pessoa deste país. “Ele vai à casa de quem é de esquerda, vai à casa de quem é de direita, do rico e do paupérrimo”, completa.
Formado em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em Vila Isabel, Maranhão fez residência em cirurgia geral e serviço militar obrigatório na Aeronáutica, o que o levou ao Hospital de Força Aérea do Galeão, onde trabalhou por 31 anos. Depois de se especializar em cirurgia torácica, passou por hospitais públicos da Baixada Fluminense, entre eles o Hospital Estadual Adão Pereira Nunes, referência no campo do trauma, literalmente situado à beira da rodovia Washington Luís, e deu plantões pelo SAMU na Ilha do Governador, também no Rio, em 2005 e 2006.
Foi dessa vivência que nasceu, em 2014, o livro Sob Pressão: A Rotina de Guerra de um Médico Brasileiro (ed. Fox), que gerou inicialmente o filme e depois a série dirigida por Andrucha Waddington, com Mini Kerti entre os criadores. Foram cinco temporadas e 59 episódios entre 2017 e 2022, vistos por milhões de pessoas na Globo aberta e também em suas plataformas de streaming, além de um especial de duas partes sobre a pandemia, Plantão Covid, exibido em outubro de 2020.
Em agosto de 2026, Maranhão voltou à parceria com Waddington e com o diretor Cláudio Torres em Emergência 53, série do Globoplay com um elenco finíssimo, composto, entre outros talentos, por Yara de Novaes, Emílio Dantas e Valentina Herszage, com o socorrista Vandam vivido com grande desenvoltura pelo ator Jaffar Bambirra e, ainda, a participação especial nobilíssima de Fernanda Montenegro. A trama acompanha uma unidade de atendimento móvel de urgência inspirada no SAMU real, que hoje atende mais de 187 milhões de brasileiros — mesmo assim, ainda distante da meta de cobertura universal prometida pelo Ministério da Saúde para este ano.
A seguir, os melhores momentos da conversa. Você pode ouvir a entrevista completa no player desta página, no Spotify, Deezer, YouTube, Apple Podcasts e em outras plataformas de áudio.
Trip FM: Marcio, antes de falar do seu trabalho no front da emergência, queria ouvir sobre a sua infância e sua família, incluindo as influências que o levaram para a medicina.
Marcio Maranhão: Sou carioca, nasci no Humaitá, numa casa de saúde, e vim ao mundo pelas mãos de um obstetra, meu tio-avô. Ele era muito conhecido no Rio de Janeiro, não teve filhos, mas foi praticamente pai de toda uma geração. Uma figura carinhosa, muito respeitada no meio médico, muito comprometida com os pacientes e com o entorno deles.
Quando soube que eu tinha passado em medicina, ele me entregou, num gesto muito carinhoso, um atlas de anatomia, que na época era um símbolo importante, a porta de entrada máxima da formação médica.
E ele escreveu uma dedicatória que guardo até hoje: “Prepare-se para o longo abraço da sua vida. Se você exercê-la com compromisso e dedicação, terá muita gratidão e será feliz. Mas fique atento ao tempo, que anda célere demais, porque ele tende a alijar o paciente e colocá-lo num plano secundário.” Isso foi em 1989, e ele não imaginava o quanto esse tempo aceleraria. Tenho essa mensagem como a minha base.
Entrei na UERJ, uma escola pública de medicina em Vila Isabel que a gente costuma dizer que é quase uma faculdade de humanas, porque a formação dá acesso direto ao tecido social. Eu tinha tudo para viver confortavelmente na bolha da Zona Sul do Rio, onde nasci e estudei, mas tanto a UERJ quanto as emergências públicas me abriram a porta para a desigualdade, para o contexto em que as doenças de fato acontecem.
Formei-me em 1994 e fui fazer residência em cirurgia geral. Ao mesmo tempo, entrei para o serviço militar obrigatório na Aeronáutica, ingressei num hospital público federal e encontrei condições de trabalho excepcionais. Fiquei 31 anos no Hospital de Força Aérea do Galeão, onde conheci o lado das Forças Armadas voltado à cidadania, fui a missões cívico-sociais no Vale do Jequitinhonha, na Amazônia e por diversos contextos do Brasil profundo.
Depois me especializei em cirurgia torácica no Rio, num instituto que hoje já não existe com esse nome, o Instituto de Tisiologia e Pneumologia, referência histórica no tratamento da tuberculose pulmonar, ali na zona portuária. Lá tratei não só câncer de pulmão, mas doenças inflamatórias que atingiam pacientes negligenciados pelo sistema, pessoas que viviam sem alimentação decente, sem moradia digna. Era um retrato da sociedade real. Depois ingressei no Hospital Estadual Adão Pereira Nunes, na Baixada Fluminense, referência em trauma à beira de uma grande rodovia, onde fiquei doze anos como cirurgião torácico.
Os dramas que vivi ali fui recolhendo, escrevendo, como uma forma de dar conta de tudo aquilo. Isso foi ganhando substância até que alguém reconheceu um potencial dramático, que virou primeiro o livro Sob Pressão, lançado em 2014, depois um filme e uma série com cinco temporadas e um especial sobre a Covid. Acho que é um tema inesgotável. As histórias da saúde dão acesso a dramas comuns e, principalmente, universais.

Marjorie Estiano recebe consultoria de Marcio Maranhão nos bastidores da série ‘Sob Pressão’
Foto: Mauricio Fidalgo/Globo/Divulgação
Trip FM: Quero falar sobre um assunto que tenho procurado aprofundar por aqui: o processo de mercantilização e produtificação da medicina, com influenciadores fazendo o papel de médicos e médicos fazendo o papel de influenciadores, consultas cada vez mais rápidas, protocolares e com baixo índice de sensibilidade, uma preocupação evidente em ganhar dinheiro se sobrepondo ao cuidado. Imagino que você tenha tido a possibilidade de direcionar sua carreira para um tipo de medicina muito mais rentável. Chegou a ser um dilema optar pela Baixada Fluminense em vez de um consultório chique na Zona Sul?
Marcio Maranhão: Você tocou num assunto preocupante: a mercantilização da medicina. Não tenho nada contra ganhar dinheiro, gosto disso, é uma questão importante, mas não é o propósito.
Tenho 31 anos de formado e tenho presenciado o eixo do que é valor em saúde mudar completamente. Parece que ser bem-sucedido hoje é ter consultório na Zona Sul e ganhar muito dinheiro; ninguém olha com a mesma lente para o colega que escolheu trabalhar no SUS a vida toda e encontra uma realização plena nisso, financeira ou não.
A medicina não é um sacerdócio; também precisamos pagar as contas, criar os filhos. Mas esse tema é muito sensível para todos nós. Tenho uma preocupação grande com a formação do jovem médico: que formação humana ele recebe? A matéria-prima da medicina sempre foi o humano, não um estado biológico alterado. Quando você reduz esse entendimento, vira um cirurgião de órgãos, não de pessoas, e a mercantilização conversa muito bem com isso, assim como os canais digitais, que dão respostas rápidas, mas rasas.
Em Sob Pressão, colocamos um residente filmando um paciente sofrendo, ferindo um dos princípios do código de ética médica, que é não expor o paciente sem autorização. A gente se depara com jovens médicos muito mal preparados, porque a técnica se ensina, mas é muito mais difícil ensinar que você não pode ferir a autonomia de quem está confiando em você. Essa mercantilização precisa ser regulada, e a formação básica dos profissionais de saúde — médicos, enfermeiros e técnicos — precisa ser reforçada.
Trip FM: Você foi trabalhar com a medicina de emergência, que convive intimamente com a morte na Aeronáutica e no SAMU. Isso piorou ou melhorou a sua relação com a própria finitude? Dialogar com a morte todos os dias cria uma casca protetora, gera uma insensibilidade, ou o faz entender melhor a vida?
Marcio Maranhão: Entrei na medicina com formação humanista, mas, ao longo das residências e de uma carga de trabalho muito forte, a profissão tende a produzir uma casca no profissional de saúde. A gente acaba virando um pouco um realizador de tarefas, e isso não é um julgamento: é um mecanismo para permitir dar conta de tudo aquilo. Costumo dizer para jovens que estão se formando: leiam obras não médicas, filosofia, antropologia, para que consigam lidar com a iminência da morte de forma natural.
Filosoficamente, a morte é uma coisa natural. Todos nós estamos morrendo, todo mundo caminha para o mesmo lugar todos os dias. Envelhecer é um destino contraditório: a gente quer chegar lá, mas reclama das dores. O grande paradigma é que, quando a morte se torna inevitável, você não encerra o cuidado, só muda a forma. Ao longo da carreira, encontrei muitos pacientes rotulados como “fora de possibilidade terapêutica”, como se fosse um selo de que não há mais nada a fazer.
É aí que entram os cuidados paliativos, ou proporcionais: o que eu, como profissional, posso fazer para ampliar o cuidado daquela pessoa? O que ela não falou ainda para a família? Qual é o último desejo dela? Isso é cuidar dentro do processo de morrer. O Gil canta que não tem medo da morte, tem medo de morrer, e é justamente o processo de morrer que me interessa, em que posso atuar. Falar sobre a morte, verbalizar desejos, reduz o sofrimento de quem fica. E esse assunto vira uma dramaturgia rica, porque tem conflito ético: o que você faz com uma paciente em situação de vulnerabilidade, com dor, que pede para morrer, quando a eutanásia ainda é crime no Brasil? Esse conflito, o que passa dentro daquele profissional que está diante dela, é o que me interessa discutir.

Marcio Maranhão (à direita), ao lado de Raquel Villar e Emilio Dantas nos bastidores da série ‘Emergência 53’
Foto: Laura Campanella/Globo/Divulgação
Trip FM: Vamos mudar de enfermaria para o set de filmagem. Como foi a sua chegada a esse outro planeta, ao lado do Andrucha Waddington e de outras figuras que fizeram grandes filmes e séries?
Marcio Maranhão: Foi interessante chegar a essa outra enfermaria acompanhado do Andrucha, porque ele me levou para a dele e eu o levei para a minha. Fomos colegas de colégio, e a vida nos reaproximou com Sob Pressão, primeiro no filme, depois na série. O Andrucha é uma pessoa muito sensível à realidade e muito permeável às questões que eu trazia, entendendo que aquela ficção tinha relevância. Conseguimos elaborar 59 episódios, cada um com três tramas, três assuntos de saúde pública.
A gente foi aprendendo junto coisas como a maneira de filmar uma cirurgia, onde se pode tocar, onde não se pode, o que é campo estéril. O elenco também foi se educando, não só na parte técnica, mas se apropriando de um assunto universal: o quanto o SUS está presente na vida das pessoas, muitas vezes sem que elas saibam. Essa imersão deles me permitiu me apropriar do universo deles também, da linguagem de decupar uma cena, do que é um mock-up.
Quando vi a primeira cena pronta, com trilha, luz e cor, tive um impacto emocional enorme, porque eram histórias recontadas por mim que ganharam a roupagem do Andrucha. Entendi que ali havia uma ferramenta poderosa para comunicar o que eu via no front, sempre sem vitimizar o médico, porque eu escolhi estar ali. Uma lente sobre um gesto, como o da doutora Carolina colocando a mão sobre um paciente que está morrendo. É um tipo de diálogo que acontece no silêncio. Isso me encanta.
Trip FM: Vamos falar então do Doutor Evandro e da Doutora Carolina, os talentosíssimos Julio Andrade e Marjorie Estiano. Como foi a interação com essa dupla ao longo dos anos?
Marcio Maranhão: É um processo quase psicanalítico para vestir aquela pele. No começo, eu apresentava o universo médico de forma técnica: “essa é a pinça Kelly, essa é a tesoura Metzenbaum”. O Julio é muito intuitivo, pegava tudo rápido. A Marjorie ficava atrás, observando, e um dia me disse: “não estou interessada em nada disso; quero saber o que você sente quando dá alta para um paciente.” A pergunta me desmontou, porque a gente vai fazendo tarefas em sequência e esquece de revisitar isso. Ela perguntou se eu não celebrava, se não dava um abraço na pessoa.
Teve um episódio em que o Doutor Charles abraça efusivamente um paciente depois de uma cirurgia. Aquela cena me marcou, porque percebi que, por anos, eu tinha deixado de me entregar a abraços assim, e Sob Pressão foi me devolvendo essa gratidão, que é viciante, no bom sentido: fazer o bem nutre muito.
Foi um processo rico de cavucar sentimentos que eu compartilhava com outros colegas, de relembrar pacientes que perdi, crianças, memórias que voltam de um jeito emocionante. Entendi o quanto eu estava sendo bobo em achar que bastava ensinar o nome de uma pinça. A Marjorie dizia que não ia jogar a pinça no campo cirúrgico se não tivesse um gatilho emocional para isso. Fiquei modificado pelos dois, olhando para a minha profissão não como uma mecânica, mas como algo precioso, e hoje até me tornei roteirista por causa disso.
Trip FM: Quando a Marjorie esteve aqui, ela falou do encontro de vocês. A ideia não é expor a intimidade de pessoas reservadas como vocês, mas, ao mesmo tempo, é muito interessante e bonito que, no meio de tanto trabalho e dessa tensão toda, tenha nascido esse afeto entre vocês. Você pode contar como foi?
Marcio Maranhão: A admiração começa sem a gente notar direito. A forma como a Marjorie conduz a carreira é muito parecida com a forma como entendo a minha: se não tem propósito, ela não entra, e, quando entra, mergulha fundo. Observar isso é apaixonante. A medicina te dá acesso a um universo de emoções, que é a matéria-prima do ator, e com ela, com o Julio, com parte do elenco, pude compartilhar esse acervo que eu carregava. Houve uma troca, uma admiração mútua, um encontro no sentido de colocar o trabalho a serviço de alguma coisa maior. Quando a gente consegue isso, não dorme: são sete diárias noturnas e a gente se dedica de corpo e alma, independentemente do valor monetário. Foi esse o grande encontro que me transformou.
Trip FM: Em Emergência 53, há um elenco bem menos experimentado que o de Sob Pressão, apostas novas. Queria falar do Jaffar Bambirra, que faz o Vandam, o condutor da ambulância. Uma atuação muito marcante. Me fala desse ator.
Marcio Maranhão: Foi uma decisão artística acertada escalar o Jaffar. Ele tem um talento enorme e um olhar muito expressivo; tem praticamente um diálogo embutido no olhar. A gente escreve o roteiro cheio de falas, mas, à medida que um ator com esse nível de recurso entrega, vamos suprimindo o diálogo, porque ele entrega tudo aquilo só com um olhar, um gesto, uma postura.
É claro que fazemos uma ficção livremente inspirada na realidade, mas ultimamente a realidade tem dado banho na ficção. O elenco todo veio aberto a essa entrega, por conta do Cláudio Torres, do Andrucha, da própria proposta de contar a história de heróis muito próximos de nós e, de certa forma, invisibilizados. A série pretende ressaltar o serviço do SAMU, que hoje atende à maior parte do território nacional. E o condutor-socorrista, personagem que o Jaffar encarna, tem uma função primordial: ele é a retaguarda da equipe, vê a cena, decide se dá para entrar ou não e protege a equipe. Eles visitaram o SAMU de verdade, foram a atendimentos reais, aprenderam direção defensiva. Estão, com razão, muito orgulhosos da série que estão fazendo.
Trip FM: A gente vive num país tomado pelo crime organizado em boa parte das periferias. O SAMU consegue entrar em qualquer lugar? Você já precisou negociar com o tráfico para atender alguém?
Marcio Maranhão: O Rio de Janeiro não é para amadores, e já era assim quando trabalhei no SAMU, em 2005 e 2006. O SAMU entra em territórios onde só ele, como serviço do Estado, consegue entrar. Dava muitos plantões na Ilha do Governador, região com muitas comunidades, e em duas ou três curvas você já estava dentro de um território fortemente armado. Lidar com um jovem traficante encapuzado e armado era comum, no sentido de ser frequente, mas estava longe de ser banal. Isso me afetava muito.
De certa forma, vestir o macacão do SAMU e colocar o estetoscópio no pescoço me protegia, porque eles precisam da gente — e digo eles pensando na população, não em quem é criminoso ou não. A gente tomava cuidados, desligava o giroflex, não entrava de sirene, mas ia a todos os lugares: presídio, favela, hotel cinco estrelas, prédio na Zona Sul, prédio na Baixada. Muitas vezes, o SAMU é o primeiro a chegar onde o paciente nunca tinha visto um médico na vida.
Eu já era pai na época, tenho quatro filhos, e temia essa proximidade com o perigo, mas acabava querendo voltar toda semana. Isso me dava uma jornada antropológica que o consultório nunca daria. O SAMU não julga: vai à casa de quem é de esquerda, vai à casa de quem é de direita, e isso é um elo raro num país tão polarizado. Se você ligar para o 192, chega uma ambulância à casa de quem quer que seja. Em Emergência 53, o primeiro episódio se passa numa comunidade dominada pelo tráfico, o segundo num hotel cinco estrelas, o terceiro acompanha a Doutora Glória em busca de vaga de CTI num hospital público lotado.
Trip FM: A gente está vivendo mais uma eleição, com muita disputa de narrativa em torno da saúde. Tem quem defenda substituir o SUS por telemedicina, quem ache que não precisa investir mais, quem defenda triplicar o investimento. Qual é a sua visão sobre o que a gente devia priorizar?
Marcio Maranhão: A gente sente falta de uma agenda de políticas públicas estruturantes de saúde, e não existe fórmula mágica. A saúde (e o SUS, por consequência) é a maior preocupação dos brasileiros historicamente, mas os programas de governo costumam ser pouco sustentados e mal financiados. Criado em 1988, o SUS teve avanços enormes, mas, para um país do nosso tamanho, tem falhas e oportunidades de melhoria.
Um ponto crítico é a saúde mental, que passa pela atenção primária, a porta de entrada da saúde pública, ligada sobretudo ao município. A atenção primária desafoga os hospitais: não dá para pensar a saúde de forma hospitalocêntrica; ela começa antes, na educação alimentar, nos centros de atenção psicossocial. Outro ponto é a fragmentação: Federação, estados e municípios precisam se integrar para o paciente não perder a linha de cuidado, seguindo os princípios de integralidade, universalidade e equidade, que significa tratar os desiguais de forma desigual, com políticas específicas para cada grupo.
Precisamos de políticas de Estado, não de governo, blindadas às trocas de gestão. Temos exemplos exitosos: o programa de transplantes, o programa de vacinação, o acesso a medicamentos contra a Aids, a Farmácia Popular. Mais de 214 milhões de brasileiros dependem, direta ou indiretamente, desse sistema, e cerca de 75% da população depende dele com exclusividade. É um sistema extraordinário: sem ele, seria a barbárie, como já repetiu o Drauzio Varella.
Trip FM: Você já pode ser considerado um faixa-preta das artes cênicas. Existe chance de o cirurgião virar um galã de televisão, passando para a frente das câmeras?
Marcio Maranhão: [Risos] Não, nenhuma… Prefiro ficar atrás das câmeras. Tenho um prazer enorme em escrever as cenas, tenho proximidade com o Cláudio, com o Andrucha, com a Mini, e eles sabem do meu desejo de dirigir. Tenho outros projetos engavetados, e as coisas no audiovisual demoram: a obra precisa descansar, a gente volta nela, reescreve. Estou trocando o bisturi pela caneta e a caneta, aos poucos, pela direção.