Baixar Notícia
WhatsApp
Email

Bioenergia multiplica produção e empregos e transforma economia de MS em 20 anos

Fonte: canaldacana.com.br | Data: 05/09/2026 12:05:40

🔗 Ler matéria original

Da Redação

A expansão da bioenergia transformou a estrutura industrial de Mato Grosso do Sul nas últimas duas décadas. Entre 2006 e 2025, o estado ampliou a produção de açúcar, multiplicou por mais de oito vezes a fabricação de etanol e consolidou uma cadeia que reúne cana-de-açúcar, milho, geração de energia elétrica, exportações e milhares de empregos.

Levantamento do Observatório da Indústria da Fiems mostra que o número de trabalhadores ligados à atividade passou de 8.276 para 29.098 no período, crescimento de 252%.

O valor bruto da produção saltou de R$ 1,81 bilhão para R$ 23,1 bilhões. Como os valores são nominais, a diferença não representa crescimento real descontado da inflação, mas demonstra a dimensão econômica alcançada pelo setor.

A transformação também aparece nos volumes industriais. A produção estadual de etanol passou de 585,7 milhões para 4,93 bilhões de litros, avanço de 741%. A fabricação de açúcar cresceu 530% e chegou a 2,12 milhões de toneladas.

Os números integram uma série especial da Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul sobre as mudanças ocorridas na indústria estadual ao longo dos últimos 20 anos.

Exportações de açúcar ganham escala

A expansão das usinas elevou a participação de Mato Grosso do Sul no comércio internacional de açúcar.

Entre 2006 e 2025, a receita obtida com as exportações do produto passou de US$ 65,9 milhões para US$ 782,8 milhões.

O volume embarcado aumentou 863%, saindo de 196,6 mil toneladas para 1,89 milhão de toneladas. O resultado mostra que a bioenergia deixou de ter apenas uma importância regional e passou a conectar a produção sul-mato-grossense aos principais mercados consumidores.

Para o economista-chefe da Fiems, Ezequiel Resende, o setor representa um dos exemplos mais claros do avanço da indústria no estado.

“Foi um crescimento bastante significativo, expressivo e vigoroso. Além de produzir alimento, que é o açúcar, o setor produz energia carburante para veículos e energia elétrica renovável”, afirmou.

A combinação entre açúcar, etanol e eletricidade permite que as unidades industriais diversifiquem receitas e ajustem sua produção de acordo com as condições de mercado.

Atividade alcança 42 municípios

Um dos efeitos mais relevantes dessa expansão foi a interiorização da atividade industrial. Atualmente, a cadeia da bioenergia está presente em 42 municípios de Mato Grosso do Sul.

Esse número não significa que existam usinas em todas essas cidades. Ele considera a presença das diferentes etapas da atividade, incluindo produção agrícola, fornecimento de matéria-prima, transporte, manutenção, serviços e outras operações ligadas ao setor.

Para o diretor técnico da Associação dos Produtores de Bioenergia de Mato Grosso do Sul (Biosul), Érico Paredes, os efeitos econômicos vão além dos limites das unidades industriais.

“A atividade demanda produção agrícola, transporte, manutenção, fornecedores, serviços e comércio, além de injetar recursos nas economias locais por meio dos empregos e salários”, explicou.

A instalação de uma usina cria demanda por máquinas, peças, combustíveis, serviços técnicos, alimentação, hospedagem e comércio. Também pode estimular investimentos em infraestrutura e qualificação profissional.

Ezequiel Resende destaca que essa movimentação influencia diretamente a economia das cidades onde as unidades estão instaladas.

“As usinas contribuem bastante para o desenvolvimento dos municípios, empregando muita gente e injetando recursos por meio dos salários e de toda a atividade econômica gerada”, afirmou.

Municípios registram avanço econômico

Alguns indicadores do IBGE ajudam a dimensionar as transformações ocorridas em municípios com forte presença do agronegócio e da bioenergia.

Entre os exemplos apresentados estão Angélica, que registrou crescimento de 627% no PIB per capita, e Ivinhema, onde o PIB industrial avançou 1.556,02%.

Em Rio Brilhante, a arrecadação tributária aumentou 328,81%. Nova Alvorada do Sul apresentou crescimento de 379,08% no PIB agrícola, enquanto Chapadão do Sul registrou expansão de 261,39% no mesmo indicador.

Esses resultados não podem ser atribuídos exclusivamente à bioenergia, porque também refletem inflação, crescimento populacional, expansão de outras atividades e mudanças na economia local. Ainda assim, ajudam a ilustrar o avanço econômico de regiões onde a cadeia ganhou importância nas últimas décadas.

Municípios como Rio Brilhante, Nova Alvorada do Sul, Angélica e Ivinhema tornaram-se polos da produção de cana, açúcar, etanol e eletricidade. Chapadão do Sul, por sua vez, ganhou espaço com a expansão dos grãos e do etanol produzido a partir do milho.

Estado possui 22 unidades de bioenergia

Dados da Biosul indicam que Mato Grosso do Sul possui atualmente 22 unidades de bioenergia em operação. Desse total, 19 processam cana-de-açúcar e três utilizam milho.

Todas as unidades produzem etanol hidratado, combustível comercializado diretamente nos postos para abastecimento de veículos flex.

Quatorze também fabricam etanol anidro, utilizado na mistura obrigatória com a gasolina. Outras 14 produzem açúcar.

A geração de eletricidade está presente em todas as unidades. Quatorze delas produzem volume superior às necessidades industriais e comercializam o excedente no Sistema Interligado Nacional.

Nas usinas de cana, a energia é gerada principalmente a partir da queima do bagaço. Esse processo permite aproveitar um resíduo da moagem para produzir vapor, movimentar equipamentos e gerar eletricidade renovável.

MS chega a 5 bilhões de litros de etanol

Na safra 2025/26, Mato Grosso do Sul alcançou aproximadamente 5 bilhões de litros de etanol e 2,1 milhões de toneladas de açúcar.

Com esse desempenho, o estado aparece como quarto maior produtor brasileiro de cana-de-açúcar e etanol, segundo os dados apresentados pela Fiems e pela Biosul. Também ocupa a quinta posição nacional na produção de açúcar.

No etanol de milho, Mato Grosso do Sul já é o segundo maior produtor do país, atrás apenas de Mato Grosso.

Dados da Conab indicam que o estado produziu 2,128 bilhões de litros de etanol de milho na safra 2025/26. O volume correspondeu a aproximadamente 21% da produção brasileira do combustível derivado do cereal.

A fabricação estadual cresceu 33,9% em relação à temporada anterior, quando havia alcançado 1,589 bilhão de litros. Os dados da Conab confirmam o avanço de Mato Grosso do Sul.

Milho abre nova etapa de crescimento

A chegada do etanol de milho representa uma nova fase da indústria de bioenergia sul-mato-grossense.

Há cerca de quatro anos, o estado ainda não produzia o combustível em escala relevante a partir do cereal. Atualmente, mais de dois bilhões de litros já saem das unidades instaladas em Mato Grosso do Sul.

Segundo Ezequiel Resende, esse crescimento demonstra a capacidade de inovação e diversificação da indústria ligada ao agronegócio.

A produção com milho permite aproveitar a elevada oferta regional do grão e manter as biorrefinarias em funcionamento durante períodos mais longos. Além do etanol, o processamento gera óleo de milho e ingredientes proteicos destinados à alimentação animal.

O avanço não substitui a cana-de-açúcar. As duas matérias-primas formam cadeias complementares e ampliam a capacidade estadual de produzir combustíveis renováveis.

Também existem unidades flexíveis, capazes de integrar o processamento da cana e do milho, reduzindo a ociosidade industrial e diversificando suas fontes de receita.

Bioenergia amplia peso industrial de MS

O crescimento registrado entre 2006 e 2025 mostra que a bioenergia passou a ocupar posição estratégica na economia de Mato Grosso do Sul.

O setor transforma matérias-primas agrícolas dentro do próprio estado, agrega valor à produção, gera empregos industriais, amplia exportações e leva atividade econômica para municípios distantes dos grandes centros urbanos.

Ao mesmo tempo, produz diferentes formas de energia: etanol hidratado para veículos flex, etanol anidro para mistura à gasolina e eletricidade renovável destinada às usinas e ao sistema nacional.

A continuidade dessa expansão dependerá da disponibilidade de matéria-prima, da produtividade das lavouras, dos preços do açúcar e dos combustíveis, da infraestrutura logística e das políticas de descarbonização.

Depois de multiplicar a produção e o número de trabalhadores em duas décadas, Mato Grosso do Sul entra em uma nova fase. A integração entre cana e milho coloca o estado em posição de ampliar seu protagonismo na produção de alimentos, combustíveis renováveis e eletricidade de baixo carbono.