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Quase 2 milhões de brasileiros ganham a vida em apps de transporte e entrega, aponta IBGE

Fonte: imagemnews.com.br | Data: 06/09/2026 06:32:57

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Visão geral do trabalho intermediado por plataformas

Segundo a última edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgada pelo IBGE, quase dois milhões de brasileiros exerceram atividade remunerada por meio de aplicativos em 2025. Esse contingente corresponde a 1,9% da força de trabalho nacional, evidenciando a crescente importância da chamada economia de “gig”.

A maioria desses profissionais atua de forma autônoma, porém depende intensamente das regras e dos algoritmos das empresas que operam as plataformas, o que gera um cenário de vulnerabilidade e pouca proteção social.

Distribuição setorial dos trabalhadores de apps

Dos 1,959 milhão de trabalhadores identificados, aproximadamente 1,2 milhão (cerca de 59%) prestam serviços de transporte de passageiros. Desses, 1,1 milhão utilizam as grandes plataformas de mobilidade, como Uber e 99, enquanto 232 mil trabalham exclusivamente com aplicativos de táxi.

Entregadores de alimentos, mercadorias e outros produtos representam 19,2% do total, ou 376 mil pessoas, que atendem a demandas de empresas como iFood, Rappi e Zé Delivery. Já a categoria de serviços especializados – que engloba designers, tradutores, profissionais de telemedicina e similares – soma 313 mil trabalhadores, correspondendo a 16% dos plataformizados.

Quando analisada por atividade econômica, o segmento de transporte, armazenagem e correios concentra 75% dos trabalhadores de apps, ou seja, três em cada quatro profissionais desse universo atuam em funções ligadas ao deslocamento de pessoas ou mercadorias.

Evolução ao longo dos últimos anos

A PNAD ainda está em fase experimental, mas já realizou levantamentos em 2022, 2024 e 2025. Quando se considera apenas quem tem o aplicativo como ocupação principal, o número passou de 1,3 milhão em 2022 para 1,8 milhão em 2025, o que representa um crescimento de 9,1% em um ano e quase 37% em três anos.

O segmento de entregas foi o único que registrou aumento de dois dígitos entre 2024 e 2025, com crescimento de 18,6%, refletindo a expansão dos serviços de delivery impulsionada pela pandemia e pela mudança nos hábitos de consumo.

Perfil demográfico e motivações

Entre os que declararam o aplicativo como principal fonte de renda, 84,4% são homens e quase metade (47%) está na faixa etária de 25 a 39 anos, indicando que a maioria está em fase de inserção ou consolidação no mercado de trabalho.

Ao ser questionado sobre a razão de escolher esse modelo, a maioria dos motoristas e entregadores apontou a dificuldade de encontrar outra colocação. Flexibilidade de horário e a percepção de remuneração superior também foram citadas como fatores relevantes.

Remuneração, carga horária e produtividade

Em média, o trabalhador de plataforma recebeu R$ 3.147 por mês em 2025, valor praticamente idêntico ao dos demais empregados (R$ 3.148). Enquanto os não plataformizados tiveram aumento real de 4,1% após descontada a inflação, os trabalhadores de apps mantiveram o nível salarial de 2024, quando ganhavam R$ 3.151.

A jornada semanal dos profissionais de apps foi de 44,7 horas, superando as 39,3 horas dos demais trabalhadores em 5,4 horas. Essa diferença de tempo reduz o ganho por hora, que ficou em R$ 16,2 para os plataformizados, 12% abaixo dos R$ 18,4 observados entre os não plataformizados.

Informalidade e cobertura previdenciária

Um dos grandes desafios revelados pela pesquisa é a alta taxa de informalidade: 72,1% dos trabalhadores de apps não possuem registro formal, contra 42,7% dos demais empregados. Consequentemente, apenas 34% contam com algum tipo de proteção previdenciária, enquanto 63% dos não plataformizados têm acesso a benefícios como aposentadoria e auxílio por incapacidade.

O IBGE classifica como informal o trabalhador sem carteira assinada ou autônomo sem CNPJ, o que implica ausência de direitos como férias remuneradas, 13º salário e seguro-desemprego.

Autonomia aparente e dependência estrutural

Apesar de 86,8% dos trabalhadores de apps se declararem autônomos – número muito superior à média do setor privado (28,9%) – a pesquisa aponta que a maioria depende totalmente das plataformas para definir valores de cada tarefa, prazos de entrega e forma de pagamento. Entre os motoristas de transporte, 80,2% afirmam que o valor recebido por corrida é definido exclusivamente pela empresa, enquanto 78,3% dos entregadores relatam a mesma situação.

Especialistas apontam que essa dependência cria uma relação de subordinação disfarçada, distinta do tradicional vínculo de empregado, mas que ainda assim gera insegurança e limita a negociação coletiva.

Debate regulatório e posicionamentos

Os dados do IBGE chegam em meio ao impasse judicial sobre a chamada “uberização”. Representantes de motoristas e entregadores pleiteiam o reconhecimento de vínculo empregatício, argumentando que a ausência de proteção favorece a precarização. O Supremo Tribunal Federal ainda não definiu a questão, e a Procuradoria‑Geral da República recomenda que o vínculo não seja reconhecido.

A Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que congrega empresas como Uber, iFood e Amazon, reconheceu a relevância da pesquisa, mas contestou sua metodologia, alegando inconsistências nos números de trabalhadores que consideram a atividade como complementar. A entidade se colocou à disposição para colaborar na melhoria do estudo e defende uma regulamentação equilibrada que proteja os profissionais sem sacrificar a flexibilidade característica da economia digital.

Perspectivas e próximos passos

Com a expansão contínua dos serviços de mobilidade e entrega, espera‑se que o número de trabalhadores de plataformas continue a crescer, sobretudo se a demanda por conveniência permanecer alta. Contudo, a consolidação de um marco regulatório que assegure direitos trabalhistas e previdenciários será decisiva para determinar se essa expansão trará benefícios sustentáveis ou aprofundará a precarização do trabalho no país.