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Zolpidem, clonazepam e trazodona: quando o uso de remédios contra insônia vira novo problema

Fonte: otempo.com.br | Data: 06/09/2026 08:06:09

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Passar a noite acordado, demorar a pegar no sono ou despertar de madrugada sem conseguir voltar a dormir são situações que podem parecer pontuais, mas, quando se repetem e afetam o dia seguinte, trazem um alerta para a saúde. No Brasil, os sintomas de insônia atingem uma parcela expressiva da população: dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), de 2024, indicam que 31,7% dos adultos nas capitais brasileiras e no Distrito Federal apresentaram sintomas da condição. O índice foi maior entre as mulheres (36,2%) do que entre os homens (26,2%).

Nesse cenário, um estudo internacional conduzido por pesquisadores do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) chama a atenção para a frequência com que os fármacos são utilizados na tentativa de resolver o problema. O levantamento revela que os remédios para dormir continuam sendo o tratamento predominante, seja por prescrição médica ou por automedicação.

Entre os 1.158 participantes avaliados, 60% relataram o uso de medicações, com destaque para os hipnóticos (44%), como o zolpidem, e os benzodiazepínicos (37,9%), como o clonazepam. Ambas as classes apresentam riscos de efeitos adversos graves, especialmente no longo prazo.

O trabalho, publicado este ano na revista Sleep Science, não reflete exclusivamente a população geral brasileira, pois avaliou voluntários que haviam buscado participar de um ensaio clínico da USP voltado ao tratamento psicológico da insônia.

“Isso chamou nossa atenção justamente porque eram pessoas em busca de uma alternativa não farmacológica e, ainda assim, muitas já chegavam usando medicação”, explica Renatha El Rafihi-Ferreira, uma das autoras do estudo, professora associada do Departamento de Psicologia Clínica da USP e membro da Academia Brasileira do Sono.

Zolpidem lidera as citações

Entre os participantes com sintomas de insônia, os hipnóticos do tipo Z, grupo que inclui o zolpidem, foram os mais citados, somando 311 relatos. Em seguida aparecem os medicamentos de venda livre (como alguns anti-histamínicos e relaxantes musculares), mencionados por 274 voluntários, e os benzodiazepínicos (como clonazepam, alprazolam e diazepam), relatados por 263.

Individualmente, o zolpidem foi a substância mais frequente no levantamento, com presença ainda mais expressiva entre quem fazia uso contínuo de medicação. Trazodona, mirtazapina, pregabalina e quetiapina também predominaram entre os usuários contínuos, enquanto anti-histamínicos e relaxantes musculares surgiram com mais frequência nos casos de uso ocasional.

Uso prolongado acende sinal amarelo

Renatha pondera que o zolpidem não é um medicamento inadequado por si só. Trata-se de um hipnótico eficaz e bem indicado para quadros específicos, sobretudo para a dificuldade de adormecer. O perigo reside no uso prolongado ou sem acompanhamento. “Nosso estudo mostrou o zolpidem como o mais relatado, mas não investigou a motivação individual de cada prescrição”, ressalta.

Segundo a pesquisadora, a diretriz brasileira recomenda que o tratamento com zolpidem não ultrapasse quatro semanas e, sempre que possível, ocorra de forma intermitente ou sob demanda. O uso prolongado favorece a tolerância e a dependência, além de provocar insônia de rebote após a suspensão e comportamentos anormais durante o sono. Por isso, a interrupção repentina não deve ser feita por conta própria. “O desmame precisa ser gradual e devidamente supervisionado”, reforça.

O alerta se estende aos benzodiazepínicos, cujo uso continuado envolve riscos significativos. Além disso, as drogas Z também podem se relacionar a prejuízos cognitivos e de memória. Em idosos, ambas as classes elevam consideravelmente o risco de quedas.

Disparada nas vendas alterou regras 

Estimativas da Anvisa mostram que as vendas de zolpidem no país saltaram de 13,1 milhões de caixas em 2018 para 21,9 milhões em 2022, uma alta de 67%, concentrada sobretudo durante e após a pandemia de Covid-19.

O crescimento do consumo e o aumento de eventos adversos levaram a mudanças nas regras de controle da substância. Desde agosto de 2024, todas as apresentações de zolpidem passaram a exigir receita azul de controle especial, independentemente da concentração. Segundo dados da Anvisa, as vendas caíram de quase 22 milhões de caixas em 2023 para 15,98 milhões em 2024.

No entanto, Sandra Dória Xavier, médica otorrinolaringologista, especialista em Medicina do Sono e pesquisadora do Instituto do Sono, ressalta que a redução no mercado legal não significa necessariamente que o problema tenha sido resolvido. 

“A situação melhorou no mercado legal, mas não integralmente. Pacientes que já eram dependentes migraram para receitas falsificadas e farmácias virtuais irregulares, um mercado para o qual ainda não temos dados oficiais”, observa.

A médica também chama atenção para uma particularidade do cenário brasileiro. “A própria diretriz da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) aponta que países com controle mais rígido não relatam um fenômeno equivalente. No Brasil, a prescrição se expandiu rapidamente, inclusive por profissionais sem formação específica em medicina do sono”, explica.

Para Sandra, a mudança nas regras precisa vir acompanhada de uma transformação na forma de tratar os pacientes que fazem uso contínuo da substância. “A primeira diretriz nacional sobre abuso, dependência e manejo seguro do zolpidem e de outras drogas Z, publicada pela ABN em 2025, formaliza a retirada gradual do medicamento e estabelece a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) como primeira linha, reforçando a ideia de uma ‘prescrição com data de saída’ desde o primeiro dia de tratamento.”

Automedicação coloca em risco vida de pacientes

Outro dado preocupante relatado no estudo refere-se ao uso dos medicamentos isentos de prescrição, citados por 39% dos voluntários. Por não exigirem receita médica, frequentemente são consumidos sem acompanhamento profissional. “Isso evidencia um cenário de automedicação. Muitas vezes, quem recorre a essas drogas de balcão não passa por qualquer supervisão médica”, alerta Renatha.

A história de Andréia Mendes Barros, de 52 anos, ajuda a ilustrar essa situação. Ela afirma que, “no começo, era só eventualmente, para conseguir dormir”. A dificuldade para pegar no sono levou a professora de ensino infantil a buscar, por conta própria, uma solução para as noites mal dormidas. Uma colega de trabalho sugeriu que ela tomasse difenidramina, um anti-histamínico com efeito sedativo. “Eu queria algo que me fizesse dormir a noite toda, porque já estava há dias acordando várias vezes de madrugada e, no dia seguinte, despertava extremamente cansada”, relata.

O uso, que inicialmente seria ocasional, passou a fazer parte da rotina. Sempre que previa uma noite difícil, ela recorria ao comprimido. Com o tempo, Andréia percebeu que já não se sentia segura para dormir sem a medicação. “Eu achava que não me causaria dependência nem me traria problemas, afinal era um remédio comum. Depois entendi que precisava descobrir a real causa da minha insônia. Foi aí que busquei um médico, que me explicou os riscos do que eu estava fazendo e me indicou o devido tratamento.”

Quando a dificuldade para dormir vira insônia crônica?

Uma noite mal dormida não caracteriza, por si só, um quadro clínico de insônia. É preciso avaliar a frequência e os impactos no cotidiano. A insônia envolve a dificuldade para iniciar ou manter o sono, ou o despertar precoce sem conseguir voltar a dormir. Para ser diagnosticada como crônica, a alteração deve ocorrer ao menos três vezes por semana durante três meses ou mais, acompanhada de prejuízos diurnos como fadiga, irritabilidade e falta de concentração.

As causas costumam ser multifatoriais. Segundo Renatha, há indivíduos com maior predisposição genética ou biológica, enquanto eventos estressores – como divórcio, crises financeiras, mudança de emprego ou até transições positivas de rotina – atuam como gatilhos.

Uma vez instalado o problema, determinados comportamentos tendem a perpetuá-lo. Tentar compensar uma noite ruim dormindo até mais tarde, permanecendo tempo demais na cama ou fazendo cochilos durante o dia são estratégias intuitivas, mas que reduzem a pressão de sono para a noite seguinte. “Muitas vezes, a forma como tentamos lidar com a insônia é justamente o que a agrava”, enfatiza El Rafihi.

Tratamento vai além da medicação

É nesse ponto que reside a principal conclusão do estudo: para a insônia crônica, a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) é a abordagem de primeira linha. Diferente de um conjunto de dicas simples de higiene do sono, a TCC-I reestrutura hábitos, horários, comportamentos e pensamentos disfuncionais, transformando a relação do paciente com o ato de dormir.

Renatha explica que a TCC-I atua, por exemplo, na desassociação entre a cama e a vigília. Quem passa longos períodos acordado na cama acaba condicionando o cérebro a entender aquele local como um ambiente de alerta. “Quanto mais tempo você passa acordado na cama, mais seu organismo associa o estar deitado ao estado de vigília”, afirma.

Sandra Dória Xavier diz que a TCC-I é o “padrão-ouro de tratamento para insônia”. Segundo a especialista, o tratamento busca reorganizar a relação do paciente com o sono a partir de mudanças na rotina e na forma como ele encara o momento de dormir. “Você consegue reestruturar alguns pensamentos, crenças, estabelecer uma rotina, estabelecer um horário de cama, tirar processos que estão inadequados durante o dia e durante a noite”, explica.

A equipe de estudo da qual Renatha faz parte também investigou a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT-I), que trabalha a relação do paciente com pensamentos e emoções que interferem no sono. Em um ensaio clínico com 227 participantes, tanto a TCC-I quanto a ACT-I reduziram significativamente a gravidade da insônia frente ao grupo de controle. A TCC-I destacou-se pela rapidez de resposta e por acumular o maior volume de evidências científicas.

Por que a terapia ainda é pouco acessível?

Se há tratamentos não farmacológicos eficazes, por que o uso de remédios permanece tão difundido? O acesso é a barreira principal. Faltam profissionais capacitados especificamente em Psicologia do Sono e TCC-I. Em contrapartida, os medicamentos são amplamente disponíveis e oferecem alívio percebido de forma imediata.

“A medicação é mais acessível e conhecida. O grande desafio é traduzir a evidência científica em tratamentos viáveis e disponíveis para a população”, pontua Renatha El Rafihi.

Além disso, o fator tempo pesa: a intervenção psicológica exige engajamento e acompanhamento contínuo, contrastando com o desejo de solução rápida para um problema frequentemente construído ao longo de meses ou anos.

E o papel da melatonina?

A popularização da melatonina como uma alternativa “natural” exige cautela. Apesar de ser associada à melhora do sono, a substância não é indicada de forma geral para tratar a insônia crônica em adultos. “Tanto a Academia Americana de Medicina do Sono quanto a diretriz da Associação Brasileira de Sono não indicam a melatonina para tratamento da insônia”, explica a médica Sandra Dória Xavier.

Segundo a médica, a substância tem outra função: ajudar a sinalizar ao organismo o momento adequado para iniciar o processo de adormecimento. Por isso, pode ser útil em situações em que o relógio biológico está desalinhado, como no jet lag, no trabalho em turnos e na síndrome do atraso de fase do sono.

“Ela não induz o sono, na verdade. Ela só regula o nosso ritmo circadiano, mostrando para todas as nossas células que é hora de desacelerar, de que é noite”, afirma. A médica também cita o uso em crianças com transtorno do espectro autista (TEA), que podem apresentar menor produção e maior metabolização do hormônio.

Já Renatha faz uma ressalva sobre os dados encontrados no estudo. A categoria “agonistas dos receptores de melatonina”, com apenas 11 relatos, não corresponde ao suplemento convencional de melatonina, mas a medicamentos específicos, como ramelteona e agomelatina. “São fármacos que atuam nos receptores de melatonina, e não a melatonina em si”, explica a pesquisadora.

O sono dentro do contexto de vida

Para quem enfrenta noites em claro, a tentação de recorrer a uma pílula é grande, mas a raiz da insônia costuma ir além do quarto. Estresse, ansiedade, depressão, dores crônicas, jornadas exaustivas, tempo de deslocamento e contexto sociofamiliar impactam diretamente a qualidade do repouso.

Por isso, o ponto de partida deve ser uma avaliação clínica minuciosa que identifique o histórico do sintoma, os fatores de manutenção e eventuais comorbidades. Não existe fórmula única: as necessidades de quem trabalha em turnos noturnos diferem drasticamente das de quem cumpre horário comercial, assim como orientações padronizadas de higiene do sono têm pouco efeito em ambientes barulhentos ou vulneráveis.

“A insônia tem tratamento. O objetivo não é simplesmente induzir o desacoplamento da consciência à noite, mas compreender as causas subjacentes e propor uma estratégia eficaz, segura e sustentável para a rotina de cada paciente”, conclui Renatha.