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Viver mais custa caro e pressiona a renda dos idosos

Fonte: odia.ig.com.br | Data: 07/09/2026 05:43:48

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Cerca de 3,7 milhões de pessoas com 60 anos ou mais ingressaram na força de trabalho entre 2012 e 2024Divulgação

Rio – O envelhecimento populacional no Brasil avança em ritmo acelerado. Segundo os dados da Tábuas da Mortalidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida média do brasileiro chegou a 76,6 anos, sendo 73,3 anos para os homens e 79,9 anos para as mulheres.

Já no mercado de trabalho, entre 2012 e 2024, cerca de 3,7 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais entraram na força de trabalho — dos quais 3,5 milhões conseguiram ocupação —, segundo o levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). O avanço dessa geração reflete um salto de 68,9% no número de idosos ocupados no país, que passou de 4,9 milhões (2012) para mais de 8,5 milhões (2024) no período.

Nesse cenário, o conceito de ”Economia Prateada” surge. Ele faz parte do ecossistema de produtos, serviços e atividades voltados ao público com 50 anos ou mais, fazendo alusão aos cabelos grisalhos. Campanhas publicitárias e relatórios de tendências frequentemente associam essa fase da vida a viagens turísticas, busca de bem-estar, autonomia financeira e entretenimento.

Entretanto, por trás desse otimismo, há outra realidade. O custo de vida para a faixa etária cresce em ritmo desproporcional à renda. Gastos com alimentação, medicamentos de uso contínuo e planos de assistência médica consomem boa parte do orçamento, que muita das vezes, no limite, força esse público a adiar a aposentadoria.

Expectativa x realidade

Para a pesquisadora Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o retrato corporativo da Economia Prateada atende a uma fração elitizada e não espelha a base social do país.

Janaína Feijó, economista e pesquisadora do FGV IBRE - Divulgação
Janaína Feijó, economista e pesquisadora do FGV IBREDivulgação

No levantamento divulgado pelo Observatório da Produtividade do FGV Ibre, Janaína identificou que 53,8% dos trabalhadores brasileiros com 60 anos ou mais encontram-se na informalidade. Entre aqueles que possuem apenas até o ensino fundamental completo, essa proporção sobe para 68,5%.

“Sendo a maioria dos 60+ de baixa escolaridade, eles dificilmente ocuparão cargos mais bem remunerados nem terão condições financeiras de arcar com viagens frequentes e altos gastos com lazer. Boa parte dos idosos se encontra em situação de vulnerabilidade no mercado de trabalho”, destaca.

O estudo aponta ainda que a expansão de idosos ocupados tem sido puxada sobretudo pelo setor de serviços, comércio e ocupações. Nesses espaços, são funções que oferecem horários mais flexíveis para complementar a renda. Contudo, pagam salários baixos e exigem maior esforço físico. Segundo a pesquisadora, esta é uma saída para quem precisa fechar as contas do mês e possui somente a aposentadoria.

Ela também explica que a perda do poder de compra continua baixo porque os preços dos produtos essenciais estão sempre aumentando, mesmo quando a inflação oficial perde ritmo. “Houve uma forte elevação de preços no período recente e, embora alguns itens tenham desacelerado, os preços se estabilizaram em patamares já elevados”, pontua.

Para ela, a queda na taxa de desemprego também mascara a vulnerabilidade das famílias, já que quase 38% da população ocupada atua na informalidade, com renda baixa e sem garantias trabalhistas. 

Trabalho pós-aposentadoria: complemento ou necessidade?

Ao DIA, a psicóloga Lucimar Vital, de 60 anos, conta sobre a vida de aposentada, mas afirma que não conseguiu largar o posto de trabalho. Atuando com carteira assinada na mesma instituição onde se aposentou, a profissional teve que recorrer à dupla fonte de renda para cobrir os compromissos domésticos e os gastos com saúde. “Precisei continuar trabalhando para cobrir as minhas despesas”, relata.

Entre os custos prioritários do mês, além da alimentação e das contas residenciais, Lucimar destina cerca de R$ 500 para despesas médicas e farmácia, mantendo um plano de saúde corporativo fornecido pela empresa. 

Ela também afirma que, caso deixasse o emprego hoje para viver exclusivamente do benefício previdenciário, a manutenção do padrão de vida e o acesso a cuidados de saúde ficariam ameaçados.

“Teria que diminuir minhas viagens; seriam viagens mais simples. Consumo de roupas, shows, restaurantes: tudo ia diminuir. Teria que viver uma vida mais tranquila, porque, só com a aposentadoria, não teria condições de fazer tudo o que faço com dois salários. O plano de saúde pesaria muito”, explica.

Lucimar diz que planeja parar de trabalhar em até dois anos e tenta iniciar uma reserva financeira por meio de pequenas aplicações, embora reconheça a dificuldade em poupar diante da alta do custo de vida.

Sobrevivência

Se para quem continua a trabalhar para manter a assistência médica viabilizada pela empresa já é difícil, para aposentados e pensionistas a contratação privada de um plano de saúde se tornou artigo de luxo. É o caso da pensionista Elisabete Coelho, de 72 anos, moradora de Campo Grande. Sem condições financeiras para contratar um plano, ela recorre ao Sistema Único de Saúde (SUS). “Não tenho plano por falta de recursos. Faz falta, mas vou à Clínica da Família quando necessário”, afirma.

Elisabete expressa que, além da saúde, as áreas da alimentação e lazer são afetadas. “Alimentação teve um aumento absurdo. E, para viajar, preciso de recursos. Só viajo quando a minha filha me leva”, conta.

Reajustes, brechas nas regras e o risco de ficar sem plano mesmo pagando

O custo do plano de saúde é uma das principais preocupações da população idosa. De acordo com a diretora-executiva do Procon Carioca, Soraia Panella, as queixas contra os reajustes de mensalidade lideram com folga as reclamações de clientes com mais de 60 anos na cidade do Rio de Janeiro.

Soraia Panella, diretora-executiva do Procon Carioca - Divulgação
Soraia Panella, diretora-executiva do Procon CariocaDivulgação

Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostram o reajuste dos planos de saúde de beneficiários por unidades da Federação (UFs), regiões metropolitanas (RM) e capitais em junho de 2026:

Faixa etária Reajuste Beneficiários (Assistência Médica)
50 a 54 anos 49 a 53 anos 2.708.783
55 a 59 anos 54 a 58 anos 2.175.219
60 a 64 anos  59 anos ou mais 2.285.820
65 a 69 anos 59 anos ou mais 1.844.926
70 a 74 anos 59 anos ou mais 1.521.707
75 a 79 anos 59 anos ou mais 1.126.842
80 anos ou mais 59 anos ou mais 1.489.221
Total compilado (50 anos ou mais) 13.152.518

A diretora-executiva do Procon Carioca afirma que a questão está na diferença entre os tipos de contrato oferecidos no mercado. Nos planos individuais ou familiares, o aumento anual tem um teto máximo fixado pela ANS, e a empresa é proibida de cancelar o contrato por conta própria sem motivo previsto em lei.

O problema, segundo Soraia, é que as operadoras diminuiram as vendas dessa modalidade. A alternativa que restou à maioria são os planos coletivos por adesão, contratados por meio de sindicatos ou entidades de classe, para os quais a ANS não impõe limite de aumento anual — e as empresas podem rescindir o contrato quando quiserem, com aviso prévio de apenas 60 dias. É nessa brecha que o bolso do consumidor idoso é mais castigado.

“No plano individual, a mensalidade inicial pode até ser proporcionalmente mais elevada, mas o reajuste anual é estritamente limitado pelo percentual divulgado pela ANS. Já no plano coletivo, por não haver essa trava normativa estrita, os reajustes chegam a patamares muito superiores”, pontua a diretora.

Segundo a diretora-executiva do Procon Carioca, a escalada dos preços atinge em cheio uma faixa etária com receitas fixas e necessidades médicas crescentes:

“Ao analisar o perfil dessa pessoa com mais de 60 anos, vemos que a proporção de despesas essenciais dela é muito mais expressiva do que a de indivíduos de 20 ou 30 anos. Se somarmos medicamentos de uso contínuo a mensalidades de planos de saúde que chegam a R$ 5 mil ou R$ 6 mil — havendo lares com dois idosos onde a conta ultrapassa os R$ 10 mil —, o cenário torna-se insustentável. O idoso vê sua capacidade financeira reduzida pela aposentadoria, enquanto os custos com saúde explodem, empurrando-o para dívidas bancárias ou para a perda da cobertura médica.”, afirma.

A situação piora na última mudança de faixa etária autorizada por lei, quando o usuário completa 59 anos. Como o Estatuto da Pessoa Idosa proíbe novos aumentos por idade a partir dos 60 anos, os planos de saúde antecipam a cobrança:

“Aos 59 anos ocorre o último reajuste permitido por mudança de faixa etária previsto no Estatuto da Pessoa Idosa. Em razão disso, as operadoras costumam aplicar nessa idade um reajuste muito elevado para compensar a proibição de novos aumentos etários a partir dos 60 anos. Como o poderio econômico dessas empresas é imenso, a via administrativa muitas vezes encontra limites para impedir que o idoso seja excluído da cobertura”, alerta Soraia.

A distância entre o país que envelhece ”bem” e aquele que acorda cedo para trabalhar aos 60 anos resume mais um contraste da desigualdade. Enquanto a parte mais rica da população consome mais, os mais pobres continuam presos a uma matemática que não fecha: a aposentadoria que não supre todas as necessidades.

* Reportagem do estagiário Rodrigo Maciel, sob supervisão de Marlucio Luna