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A corrida corporativa por IA generativa esconde uma conta que ninguém está fechando

Fonte: vozdobairro.com.br | Data: 07/09/2026 18:47:45

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A corrida corporativa por IA generativa esconde uma conta que ninguém está fechando

Ricardo Pacheco

A corrida corporativa por IA generativa esconde uma conta que ninguém está fechando

Dashboards comemoram ganho de velocidade. Pesquisas de Harvard, NBER, OIT, OMS e do próprio Judiciário brasileiro mostram outra face da adoção de IA nas empresas: retrabalho, sobrecarga mental e passivos que ainda não entraram em nenhuma planilha. E a legislação brasileira para conter esses riscos já está em vigor

A adoção de Inteligência Artificial generativa nas empresas brasileiras virou corrida nos últimos dois anos. O problema é que a régua usada para medir o resultado, a velocidade, só enxerga metade do quadro.
Cruzando estudos de Harvard Business School e do National Bureau of Economic Research (NBER) com dados da OIT, OMS e Justiça do Trabalho brasileira, surge um cenário menos confortável: o tempo que a IA economiza pode estar sendo devolvido em forma de retrabalho, adoecimento e risco jurídico, sem aparecer nos indicadores de quem aprova o investimento.
Para o Dr. Ricardo Pacheco, médico, gestor em saúde, palestrante, autor e presidente da ABRESST (Associação Brasileira de Saúde e Segurança do Trabalho), as empresas estão otimizando a métrica errada. “Velocidade não é valor. Valor é o que sobra depois de descontar revisão, correção, adoecimento e processo. Hoje ninguém está descontando nada, só somando”.

O ganho que não é ganho

Os números de produtividade existem. Um experimento de Noy e Zhang, publicado na revista Science, mediu 453 profissionais em tarefas de escrita e encontrou 40% menos tempo e 18% mais qualidade no resultado final. Em outro estudo, Brynjolfsson, Li e Raymond acompanharam 5.179 agentes de atendimento ao cliente para o NBER e identificaram ganho médio de produtividade de 14%, concentrado principalmente nos profissionais menos experientes.
Pesquisadores de Harvard Business School, no estudo “Navigating the Jagged Technological Frontier”, observaram que o GPT-4 melhora o desempenho dentro de sua fronteira de capacidade, mas, fora dela, pode reduzir a chance de uma resposta correta. A mesma ferramenta pode ajudar em uma tarefa e induzir erro em outra, gerando revisão, correção e retrabalho que poucas organizações medem.
“O problema não é a IA errar, é a empresa não saber onde essa fronteira está e empurrar o trabalhador para validar, sem tempo e sem autoridade, uma saída que ele não teve como conferir direito”, afirma Pacheco.

Quando o ganho de tempo vira desgaste

Pesquisadoras da Haas School of Business, da Universidade da Califórnia em Berkeley, acompanharam durante oito meses cerca de 200 funcionários de uma empresa de tecnologia americana. Os resultados mostraram que, mesmo sem novas metas, o aumento da produtividade fez os próprios trabalhadores assumirem mais tarefas, inclusive durante o almoço e à noite.
O quadro aparece também em escala global. O Global Talent Barometer 2026, do ManpowerGroup, ouviu quase 14 mil trabalhadores em 19 países: 63% relataram já ter sofrido burnout e 77% dos usuários de IA disseram que a ferramenta aumentou a carga de trabalho ou reduziu a produtividade em pelo menos uma dimensão.
A OIT já havia apontado riscos associados à IA no trabalho, como vigilância intrusiva, intensificação do ritmo, perda de autonomia e baixa transparência. A OMS estima que depressão e ansiedade retirem 12 bilhões de dias de trabalho por ano no mundo, com impacto estimado em US$ 1 trilhão em produtividade.
No Brasil, o cenário de vulnerabilidade já era elevado antes da expansão da IA. Dados do Tribunal Superior do Trabalho mostram que os afastamentos por transtornos mentais passaram de 203 mil, em 2014, para mais de 440 mil em 2024. Os auxílios-doença por ansiedade cresceram 76% no mesmo período.
“Estamos pedindo para o córtex pré-frontal fazer curadoria full-time de uma máquina que nunca cansa. O corpo humano não foi desenhado para validar em escala industrial. Isso adoece, e adoece de um jeito que não aparece em nenhum relatório de produtividade”, afirma Pacheco.

Curso não é governança

O mercado brasileiro foi inundado por cursos de “IA generativa para empresas”. Eles podem ensinar o uso das ferramentas, mas não substituem política interna, limites de aplicação, revisão humana obrigatória e canal de contestação.
“Curso de fim de semana não substitui governança. A empresa manda o time fazer um curso de IA e acha que resolveu o risco. Não resolveu, só transferiu a responsabilidade para quem tem menos poder de recusar”, afirma o médico.
Outro ponto é o risco de redução do pensamento crítico. Estudos já registram preocupação com a erosão da capacidade de solucionar problemas de forma independente e da criatividade quando a integração da IA ocorre sem desenho adequado.
“Não existe regulamentação interna sobre o que pode e o que não pode ser automatizado. Ferramentas de uso pessoal aplicadas a dados sensíveis de clientes e pacientes, respostas geradas sem verificação em contextos de alto risco: o resultado é uma adoção pulverizada, sem dono, sem inventário, sem limite”, ressalta Pacheco.

O tamanho do buraco na governança

 Fundação Getúlio Vargas estima que cerca de 30 milhões de trabalhadores brasileiros já são afetados pela IA generativa, direta ou indiretamente. Pesquisa da FGV em parceria com a ABRE identificou apenas 6,1% das empresas do País com comitê formal de IA, enquanto 22% se consideram preparadas para integrar a tecnologia a sistemas críticos.
Outro levantamento, do NANDA (Networked Agents and Decentralized AI), iniciativa de pesquisa do MIT Media Lab, aponta que 95% dos pilotos de IA generativa não apresentam impacto financeiro mensurável. O dado não significa que a tecnologia não funcione, mas evidencia a dificuldade das organizações em medir e governar seus resultados.
O mau uso já chegou ao Judiciário. No Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região, no Pará, duas advogadas foram multadas em R$ 84 mil após um magistrado identificar um comando oculto em uma petição para manipular uma ferramenta de IA do tribunal. O episódio foi tratado como tentativa de “prompt injection”. “O caso do Pará devia estar em toda reunião de diretoria do País. Não é problema de TI, é confiança institucional sendo manipulada por quem devia zelar por ela”, destaca Pacheco.

A lei já existe, mas quase ninguém a aplica

O Ministério do Trabalho e Emprego revisou a NR-01 pela Portaria 1.419/2024. Desde 26 de maio de 2026, os riscos psicossociais passaram a integrar formalmente o Programa de Gerenciamento de Riscos, com fiscalização e previsão de multa, cuja aplicação foi recentemente suspensa pelo STF.
A NR-17 exige a Avaliação Ergonômica Preliminar, considerando ritmo, conteúdo das tarefas e aspectos cognitivos, abrangendo situações relacionadas a metas automatizadas e vigilância permanente.
O TST já condenou a Telefônica Brasil por cobrança de metas via WhatsApp fora do expediente. O MPT mantém grupo de trabalho dedicado à discriminação algorítmica e à integridade digital. A LGPD também prevê, em seu artigo 20, o direito de solicitar revisão de decisões tomadas unicamente com base em tratamento automatizado. “NR-01, NR-17, LGPD, jurisprudência do TST: tudo isso já existe e já se aplica hoje. O problema não é vazio legal, é ignorância corporativa. E ignorância de norma vigente não é isenção, é exposição”, afirma Pacheco.

A conta que o CFO não vê

O Fator Acidentário de Prevenção (FAP) traduz financeiramente os efeitos de decisões organizacionais que repercutem nos custos previdenciários. A esse impacto somam-se presenteísmo, turnover de profissionais qualificados e passivo trabalhista.
Os indicadores que precisam entrar nessa conta incluem:

  • Absenteísmo: afastamentos por adoecimento, dias perdidos e reincidência;
  • Presenteísmo: trabalhador presente, mas com perda de produtividade, erros e necessidade de retrabalho;
  • Turnover qualificado: saída de profissionais experientes sobrecarregados;
  • FAP: histórico acidentário e impacto sobre o RAT;
  • Passivo trabalhista: ações relacionadas a assédio, jornada, privacidade, acordos e decisões judiciais.

“O CFO olha o dashboard de velocidade e assina o business case. Ninguém está descontando retrabalho, afastamento e processo dessa conta. No dia em que alguém fizer essa subtração, boa parte desses projetos de IA vai deixar de parecer lucrativa”, afirma o médico.

O ângulo que interessa

A pauta não é o binarismo “IA é boa ou ruim”. É a governança. Empresas que ampliam a adoção sem estabelecer baseline de qualidade, sem avaliação ergonômica e sem medir o custo do retrabalho podem transformar ganho de velocidade em intensificação do trabalho.
“Não estou aqui para menosprezar a ferramenta. Estou aqui para dizer que toda tecnologia que muda o ritmo do trabalho é, por definição, uma questão de saúde ocupacional. Essa conversa não pode ficar só com o time de TI. Precisa estar na mesa de SST, de RH, de jurídico e de compliance ao mesmo tempo”, completa Dr. Ricardo Pacheco, que também preside a ABRESST.

Sobre o Dr. Ricardo Pacheco

Dr. Ricardo Pacheco é médico do trabalho, gestor em saúde e empresário, formado pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos. Iniciou sua trajetória com foco na saúde ocupacional e, ao longo dos anos, expandiu sua atuação para a promoção da saúde integral.
         Em 2001, fundou sua primeira empresa de saúde, que posteriormente consolidando-se como uma plataforma de referência no setor.
         Desde 2002, integra a ABRESST (Associação Brasileira de Empresas de Saúde e Segurança do Trabalho), assumindo a Diretoria de Ética e Legislação em 2008. Nessa posição, foi ouvinte na Câmara Técnica de Medicina do Trabalho, representando a entidade, e desenvolveu projetos importantes, como a implantação do Selo de Qualidade ABRESST e o apoio direto à presidência.
         Em 2019, tornou-se presidente da entidade, cargo que ocupa pelo terceiro mandato consecutivo, expandindo significativamente o impacto da entidade, que hoje assiste mais de 4 milhões de trabalhadores.
         Dr. Ricardo teve papel essencial na revisão e criação de Normas Regulamentadoras (NRs), como o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) da NR-01, além da inclusão de riscos psicossociais nas normativas. Também participou da criação da NR-38, voltada à segurança dos trabalhadores na limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos.
         Durante a pandemia da covid-19, liderou protocolos de segurança para grandes produções audiovisuais e promoveu eventos online pela ABRESST, orientando empresas e trabalhadores sobre boas práticas em SST. Ativamente presente nos principais congressos do setor, foi um dos responsáveis pela retomada da 25ª edição do COBRASEMT, um dos mais importantes eventos da área.
         Recentemente, participou do G20 no Brasil, abordando questões como estresse térmico e saúde ocupacional.
         Reconhecido por sua expertise, colabora com entidades como ANAMT e ABERGO e frequentemente participa de veículos de comunicação para divulgar temas relacionados à saúde e segurança do trabalho. Seu compromisso com inovação e resultados faz dele um dos grandes nomes da saúde ocupacional no Brasil.

Dr. Ricardo Pacheco, CRM-SP 87570 I RQE 22.683.

Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a):
SANDRA MARIA DA CUNHA
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FONTE: Ricardo Pacheco, médico, gestor em saúde, palestrante, mentor e presidente da ABRESST.