Vacinação não termina na infância: veja os imunizantes que adolescentes não podem deixar de tomar
Fonte: otempo.com.br | Data: 08/09/2026 06:18:44
Quando o assunto é vacinação infantil, é comum que a atenção dos pais esteja concentrada nos primeiros meses e anos de vida. Mas a caderneta não deve ser deixada de lado à medida que a criança cresce. É justamente na infância maior e na adolescência que algumas doses de reforço e vacinas importantes acabam sendo esquecidas.
Segundo a infectologista Martina Zanotti, do Hospital Vitória Apart, a mudança de rotina nessa fase ajuda a explicar o problema. “Nessa fase, os jovens costumam deixar de frequentar regularmente o pediatra, e muitos pais acabam não sendo orientados sobre a necessidade de novas doses. As vacinas contra o HPV, o reforço da meningocócica ACWY e da dupla adulto, que protege contra difteria e tétano, estão entre as mais negligenciadas”, explica.
Manter o esquema vacinal completo é importante porque a proteção não é necessariamente permanente. Com o passar do tempo, os níveis de anticorpos podem diminuir, e algumas vacinas precisam de reforços para reativar a memória imunológica.
“Após a vacinação, os níveis de anticorpos tendem a cair naturalmente. Os reforços estimulam novamente a memória imunológica e elevam a proteção do organismo. Além disso, algumas vacinas precisam ser atualizadas porque os microrganismos sofrem alterações, como acontece com a vacina contra a gripe”, esclarece Martina.
Quando a baixa vacinação aumenta o risco
Uma caderneta incompleta não representa apenas maior vulnerabilidade individual. Quando a cobertura vacinal cai, aumenta também a possibilidade de doenças que estavam controladas ou eliminadas voltarem a circular. O risco se torna ainda maior em um cenário de disseminação de informações falsas sobre imunização.
O sarampo é um dos exemplos mais claros. “Graças à vacinação, a doença chegou a ser eliminada no Brasil, mas pode voltar a circular se a cobertura vacinal diminuir. Por isso, é fundamental que todas as doses sejam aplicadas”, alerta a infectologista.
Embora estejam entre as intervenções de saúde pública mais estudadas e seguras do mundo, as vacinas ainda são alvo de mitos que podem afastar famílias da imunização. Martina cita afirmações de que vacinas causariam autismo, sobrecarregariam o sistema imunológico, provocariam doenças ou de que seria melhor adquirir a infecção naturalmente. “Nenhuma dessas informações tem respaldo científico. As vacinas continuam sendo uma das medidas mais eficazes para prevenir doenças graves e salvar vidas”, reforça.
Perdeu uma dose? Não é preciso começar novamente
Para quem está com a caderneta atrasada, a recomendação é não adiar a atualização por acreditar que será necessário refazer todo o esquema. Na chamada vacinação de resgate, as doses pendentes podem ser aplicadas respeitando os intervalos mínimos indicados.
“Não é preciso reiniciar todo o esquema vacinal. Cada dose recebida gera memória imunológica e o calendário pode ser atualizado conforme a orientação do profissional de saúde”, destaca Martina.
A orientação vale também para crianças e adolescentes que tenham perdido doses previstas anteriormente. O primeiro passo é levar a caderneta a uma consulta com o pediatra ou a uma unidade de saúde para que um profissional confira o histórico e identifique eventuais atrasos.
A maior parte das vacinas previstas no calendário nacional está disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na rede privada, há ainda imunizantes complementares, como as vacinas meningocócica B e HPV nonavalente e, para idosos, a vacina contra herpes-zóster.
Calendário da SBP traz novas recomendações
A importância de manter a proteção ao longo dos anos também aparece na atualização do Calendário de Vacinação 2026/2027 da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), voltado para crianças e adolescentes. Elaborado pelos Departamentos Científicos de Imunizações e Infectologia da entidade, o documento serve como referência técnica para médicos de todo o Brasil.
Entre as mudanças está a inclusão da vacina pneumocócica conjugada 20-valente (VPC20) e o retorno do segundo reforço da vacina inativada contra a poliomielite (VIP) aos 4 anos de idade.
A atualização acompanha as mudanças feitas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) em junho deste ano. A VPC20 substitui a versão anterior e amplia a proteção contra sorotipos da bactéria Streptococcus pneumoniae, responsável por infecções graves em bebês e crianças pequenas, como pneumonia, meningite, otite e sepse.
Outra mudança é a volta do segundo reforço da VIP aos 4 anos. Embora a poliomielite esteja erradicada no Brasil, a SBP destaca a necessidade de manter níveis elevados de proteção para evitar a reintrodução do vírus, especialmente diante da baixa adesão à vacinação em diferentes países.
“O objetivo é garantir níveis elevados e duradouros de proteção da população infantil”, explica o presidente do Departamento Científico de Imunizações da SBP, Eduardo Jorge da Fonseca Lima.
Meningite, VSR, dengue e Covid-19
A atualização da SBP também mantém recomendações para outras doenças. No caso do Vírus Sincicial Respiratório (VSR), principal causador da bronquiolite em recém-nascidos, a entidade orienta duas estratégias de prevenção: a vacinação da gestante ou a aplicação do anticorpo monoclonal nirsevimabe no bebê após o nascimento. As medidas podem ser somadas após avaliação médica.
O calendário reforça ainda a importância das vacinas meningocócicas ACWY e B na proteção contra diferentes cepas responsáveis pela meningite e mantém as recomendações para vacinação contra dengue e Covid-19 nas faixas etárias indicadas.
Para Eduardo Jorge, o princípio vale para todo o calendário: uma dose atrasada não deve ser motivo para abandonar a vacinação. “O calendário vacinal é uma das principais ferramentas para prevenir doenças graves e evitar hospitalizações e mortes na infância. Sempre que houver atraso, a orientação é recuperar as doses o quanto antes, sem reiniciar o esquema vacinal”, conclui.