Pesquisa relaciona perda da floresta amazônica a menor volume de chuva no Paraná – Catanduvas em Foco
Fonte: catanduvasemfoco.com.br | Data: 08/09/2026 05:26:33
Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) identificou uma relação entre o avanço do desmatamento na Amazônia e a diminuição das chuvas na Bacia do Rio Iguaçu. A análise considera que aproximadamente 40% da precipitação registrada no Paraná está ligada à umidade transportada desde a região amazônica.
Para chegar aos resultados, a equipe comparou informações sobre a remoção de vegetação na Amazônia com medições de chuva feitas em 64 estações pluviométricas. O período avaliado foi de janeiro de 2011 a dezembro de 2023. Os dados de desmatamento foram obtidos junto ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e ao Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).
O trabalho foi publicado no fim de julho na revista científica Brazilian Journal of Biology. Segundo a pesquisadora Ana Carolina da Silva, uma das autoras, os resultados não permitem atribuir ao desmatamento amazônico toda redução de chuva ou cada episódio de estiagem observado no Paraná. A conclusão é que existe uma conexão entre a perda florestal e a disponibilidade de umidade que chega ao estado.
A Bacia do Rio Iguaçu ocupa áreas das regiões Leste, Sul, Sudoeste e Oeste do Paraná. O território analisado reúne 35 municípios e tem importância econômica e energética para o estado. Conforme o estudo, aproximadamente 60% da produção paranaense de grãos e 23% da pecuária estão concentrados nessa área.
A bacia também abriga cinco grandes reservatórios utilizados na produção de eletricidade. Informações da Companhia Paranaense de Energia (Copel) e da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), apresentadas na pesquisa, indicam que essas estruturas respondem por cerca de 41% da geração hidrelétrica estadual.
Com menos umidade amazônica sendo transportada para o Sul, o regime de chuvas paranaense pode ficar ainda mais sujeito a períodos secos. A consequência tende a ser maior para atividades que dependem de água em momentos específicos, como o desenvolvimento das lavouras e o abastecimento dos reservatórios.
A dinâmica atmosférica que conecta as duas regiões começa na própria floresta. As árvores retiram água do solo e liberam vapor para o ar por meio da evapotranspiração. Depois, correntes de vento transportam essa umidade por grandes distâncias.
Esses ventos, chamados Jatos de Baixos Níveis, são associados ao fenômeno popularmente conhecido como “rios voadores”. Quando o fluxo de ar encontra a Cordilheira dos Andes, parte da umidade muda de direção e segue para áreas do Sul e do Sudeste do Brasil, incluindo o Paraná.
A pesquisadora ressalta, porém, que a chuva do estado não depende exclusivamente da Amazônia. Sistemas atmosféricos e fenômenos como El Niño, La Niña, frentes frias e alterações na circulação do ar também interferem no volume e na distribuição das precipitações.
Os efeitos sobre a agricultura não ocorrem da mesma maneira em todas as áreas paranaenses. O estado apresenta diferentes condições climáticas e recebe massas de ar variadas. Por isso, uma estiagem ou um período de chuva excessiva pode atingir determinadas regiões com intensidade maior do que outras.
Ana Paula Kowalski, coordenadora do Departamento Técnico e Econômico da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), afirma que eventos extremos costumam provocar perdas localizadas. Mesmo quando o resultado estadual não registra uma queda expressiva, produtores de algumas áreas podem enfrentar redução de 10% a 20% na produtividade.
Soja, milho, trigo e cevada aparecem entre as culturas mais expostas. A ausência de chuva em fases decisivas do ciclo das plantas pode comprometer tanto a quantidade colhida quanto a qualidade dos produtos.
A safra de soja de 2021/2022 é apontada como exemplo da vulnerabilidade. Uma estiagem intensa atingiu o Paraná entre dezembro e janeiro, justamente durante uma etapa de forte desenvolvimento das lavouras. De acordo com Kowalski, a produção estadual sofreu uma quebra aproximada de 50% naquele ciclo.
Na avaliação dos pesquisadores, a importância da Bacia do Rio Iguaçu amplia os possíveis impactos de alterações no regime de chuvas. A mesma região reúne expressiva parcela da produção agropecuária e estruturas fundamentais para a geração de energia, tornando a disponibilidade hídrica relevante para diferentes setores ao mesmo tempo.
A relação identificada no estudo não representa uma previsão de que toda redução futura de chuva no Paraná terá a mesma causa. O resultado evidencia, contudo, que a conservação da floresta amazônica pode influenciar a quantidade de vapor disponível para o transporte atmosférico em direção ao Sul do país.
As Cataratas do Iguaçu ficam no trecho final da bacia que foi analisada pela pesquisa.
Via Portal G1