Vorcaro aponta ACM Neto e Rueda como sócios ocultos do Master
Fonte: ocafezinho.com | Data: 10/09/2026 09:09:33
O banqueiro Daniel Vorcaro, à frente do colapso do Banco Master, afirmou em proposta de delação premiada que o candidato ao Governo da Bahia ACM Neto e o presidente nacional do União Brasil, Antônio de Rueda, intermediaram a captação de recursos públicos para o banco em troca de comissões de 10% sobre os valores investidos — uma cifra que, segundo o próprio Vorcaro, teria gerado uma obrigação de R$ 200 milhões com os dois dirigentes partidários, ainda que o documento não detalhe quanto foi efetivamente pago.
Segundo a proposta de delação, revelada pela coluna de Cezar Feitoza no UOL, ACM Neto e Rueda teriam aberto as portas do Master junto a institutos de previdência do Rio de Janeiro, Amapá e Amazonas, além da Cedae, estatal de água e esgoto fluminense — movimentação que teria permitido ao banco captar cerca de R$ 2 bilhões em recursos públicos. Vorcaro descreveu que os dois políticos passaram a ter uma espécie de “conta corrente gerencial” de valores a receber junto ao banco, alimentada por diferentes mecanismos: pagamentos em espécie via empresas ligadas a Antônio Freixo — o “Mineiro”, já conhecido pela delação sobre o Dark Horse — e Augusto Lima, contratos de consultoria com a A&M Consultoria, e contratos de advocacia com o escritório Rueda & Rueda, que somariam cerca de R$ 3 milhões por mês.
A proposta também detalha o episódio mais grave: em junho de 2024, segundo Vorcaro, Rueda teria articulado um encontro em Brasília com Paulo Henrique Costa, presidente do BRB (Banco de Brasília), que enfrentava dificuldades para fechar um aumento de capital de R$ 1 bilhão. Vorcaro relatou ter socorrido a operação com cerca de R$ 750 milhões via fundos administrados por gestoras ligadas a ele — em troca, o BRB teria comprado cerca de R$ 6 bilhões em carteiras do Master no mesmo período. Sobre essa operação específica, a delação afirma que Rueda e Paulo Henrique Costa passaram a cobrar comissão de 10% sobre os valores desembolsados pelo banco público, “divididos em três partes” entre os dois e ACM Neto.
Procurados, os dois políticos negaram as acusações. Rueda disse ter “dificuldade em se pronunciar sobre documento ao qual não teve acesso”, e ACM Neto classificou as informações como “insinuações absurdas, completamente fantasiosas e mentirosas”.
É importante registrar, com o rigor que este site pratica mesmo diante de adversários políticos, as fragilidades da própria delação: a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República já haviam rejeitado o acordo por falta de dados inéditos e ausência de garantias de devolução de valores por parte de Vorcaro. O documento não especifica quanto foi de fato pago a ACM Neto e Rueda, e há divergência relevante entre os R$ 2 bilhões citados na delação e os R$ 3,62 bilhões que os próprios institutos de previdência (Rioprevidência, Amprev, Cedae e Amazonprev) efetivamente aportaram no Master, segundo dados já conhecidos. Relatórios do Coaf enviados à CPI do Crime Organizado indicam valores bem menores do que os descritos por Vorcaro: R$ 6,4 milhões a escritórios ligados a Rueda entre 2022 e 2025, e R$ 5,4 milhões à consultoria de ACM Neto no mesmo período — uma fração do que a narrativa do banqueiro sugere.
Ainda assim, a espinha dorsal factual da denúncia já era conhecida antes mesmo da delação: a quebra de sigilo do Master havia revelado contratos formais de consultoria com ACM Neto e de advocacia com Rueda, e a relação entre dirigentes de fundos de previdência e o União Brasil já vinha sendo investigada pela Polícia Federal — o ex-presidente do Rioprevidência, indicado por Rueda em articulação com o governador do Rio, Cláudio Castro, foi preso em fevereiro. No Amapá, o aporte de R$ 400 milhões foi aprovado por um indicado do senador Davi Alcolumbre; no Amazonas, por um dirigente empossado 28 dias antes da autorização de R$ 50 milhões.
O episódio ganha contornos adicionais de disputa institucional: a investigação sobre ACM Neto e Rueda só veio à tona depois que o ministro Alexandre de Moraes divulgou relatório de inteligência da PF apontando suposta demora do ministro André Mendonça — relator do caso Master no STF — em autorizar uma operação contra Rueda. Mendonça, por sua vez, alegou que a própria divulgação do relatório por Moraes atrapalhou a operação, argumento que usou para justificar o afastamento (posteriormente revertido) do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. A PGR, pelo seu lado, já havia se manifestado contra busca e apreensão contra Rueda, alegando fragilidade probatória — e o próprio relatório da PF aponta que foi Mendonça quem decidiu separar a investigação sobre Rueda e ACM Neto do restante do caso.
Para o eleitorado baiano, que acompanha a disputa acirrada entre ACM Neto e o governador Jerônimo Rodrigues (PT) nas pesquisas mais recentes, a revelação chega em momento sensível da campanha — embora, dada a fragilidade formal da delação e a ausência de valores confirmados, ainda seja cedo para tratar as acusações como fato estabelecido, e não apenas como mais uma frente de disputa dentro da crise institucional que já consome o STF.