Honduras, o laboratório latino-americano do eixo Israel-Estados Unidos
Fonte: brasil247.com | Data: 11/09/2026 05:55:09
Por Giorgio Trucchi em Pagine Esteri – A ofensiva israelense-americana para redefinir o futuro da América Latina e do Caribe não é apenas política e econômica, mas se baseia em um desdobramento militar e tecnológico muito variado. Essa estratégia combina a presença massiva de tropas, bases operacionais, quase-bases (“lily-pad bases“), instalações de segurança, infraestruturas não declaradas, venda de armas e envio de assessores e instrutores, com uma guerra de quinta geração (5GW) cada vez mais sofisticada. É um conflito híbrido e assimétrico, baseado principalmente em desinformação, vigilância e monitoramento em massa, manipulação cognitiva e psicológica, alteração da percepção da realidade e guerra cibernética.
Como explica o analista político internacional Marco Consolo: “Já faz algum tempo, a presença israelense não se limita mais à venda de armas. Nos últimos anos, expandiu-se para o uso de Big Data para manipulações eleitorais ou golpes digitais, para o desenvolvimento e comercialização de spyware, sistemas e operações de inteligência, instrumentos de vigilância digital em massa e plataformas de análise algorítmica usadas tanto por governos quanto por atores privados” (Israel e América Latina: Relações Perigosas II, agosto de 2026).
O objetivo continua sendo garantir os interesses do capital multinacional dos EUA e de Israel, monopolizando o controle dos recursos estratégicos e os corredores logísticos, além de conter a expansão chinesa nos setores de terras raras, minerais críticos, infraestruturas, tecnologias e extrativismo. Ao mesmo tempo, a estratégia visa bloquear, a todo custo e por qualquer meio, os processos de integração e independência latino-americanas e a configuração das forças políticas e sociais de resistência ao modelo neoliberal extrativista.
Um dos “laboratórios” desse projeto é, sem dúvida, Honduras, uma cabeça de ponte histórica dos Estados Unidos desde as décadas de 1970 e 1980, que, atualmente, se tornou um novo polo estratégico para os interesses israelense-estadunidense. O gestor interino desse novo curso é Nasry Asfura (Partido Nacional), paradoxalmente de origem árabe-palestina, designado por Donald Trump como seu candidato durante as controversas eleições de novembro passado. Asfura foi declarado vencedor apesar de sérias acusações de fraude, manipulação de computadores, votos nunca contados, contestações/impugnações nunca analisadas e interferência externa que influíram de maneira decisiva no resultado final.
Mesmo antes de sua posse (janeiro de 2026), Asfura fez uma visita oficial a Jerusalém acompanhado pela futura Ministra das Relações Exteriores, Mireya Agüero. Naquela ocasião, ele realizou reuniões políticas importantes de alto nível com o presidente israelense Isaac Herzog, com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu –que está sob mandado de prisão por parte do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra– e o ministro das Relações Exteriores Gideon Sa’ar. Pouco depois de assumir o cargo, recebeu formalmente suas credenciais das mãos de Nadav Goren. Assim, o embaixador de Israel tornou-se o primeiro diplomata estrangeiro a ser oficialmente recebido pela nova administração.
Em maio, ao final de sua enésima viagem pelos Estados Unidos, o presidente Asfura retornou a Jerusalém para iniciar uma série de reuniões focadas na transferência de competências institucionais e no fortalecimento dos laços bilaterais. Durante uma reunião formal com Herzog, os dois discutiram a agenda de assistência técnica gerenciada pela agência de cooperação israelense Mashav. O acordo entre Agüero e o diretor da Mashav, Eynat Schlein, também resultou em um adendo ao plano de cooperação, expandindo programas dedicados à inovação tecnológica, adaptação às mudanças climáticas e reformas nos sistemas de irrigação agrícola, com questões relacionadas à segurança.
Em agosto, ambos os países atingiram o auge de sua agenda geopolítica anual com a assinatura de um memorando de entendimento (MOU). O acordo, assinado em Israel pelo ministro da Defesa israelense Israel Katz e pelo secretário de Defesa hondurenho Enrique Rodríguez Burchard, formaliza um marco de cooperação de longo prazo para o compartilhamento de informações militares, treinamento tático e fortalecimento institucional das forças de segurança. É difícil acreditar que tal acordo tenha sido elaborado tendo em mente apenas a dimensão interna de Honduras.
Segundo a mídia local, na verdade, Tel Aviv considera Tegucigalpa um parceiro-chave na América Central, tanto pela solidez das relações bilaterais quanto pelo apoio expresso em organizações internacionais. Um dos precedentes mais significativos remonta a 2017, quando o país centro-americano foi um dos nove que votaram contra a resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas condenando o reconhecimento de Jerusalém como capital israelense pelos Estados Unidos. Essa decisão foi interpretada como um claro sinal de apoio diplomático em um momento de forte pressão internacional (cit. Aurora Israel).
Esse cenário representa uma mudança radical em relação à posição de condenação retumbante expressa pela ex-presidente Xiomara Castro (2022-2026) diante das operações militares de Israel. Durante seu mandato, Castro posicionou-se abertamente a favor da causa palestina, qualificando a situação da Faixa de Gaza de genocídio. Além disso, ela chamou de volta o embaixador hondurenho e denunciou o silêncio da comunidade internacional enquanto ocupava o cargo de presidenta pro tempore da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (CELAC).
As relações entre Tegucigalpa e Tel Aviv fazem parte das tentativas israelenses de romper o isolamento diplomático e político em que o país se encontra após a invasão da Palestina e do Líbano, o avanço na Cisjordânia e as sentenças do TPI. Recuperar o consenso mundial e projetar uma imagem de aparente normalidade na mídia representa, para o Estado judeu, um movimento estratégico fundamental.
“A mudança de atitude em relação a Israel é drástica e as consequências serão trágicas. Aqui não estamos falando apenas de assistência e cooperação técnica no campo da segurança, mas também, e acima de tudo, de armas, treinamento e inteligência. Um panorama muito preocupante se abre em relação à importação de tecnologias avançadas de vigilância e de sistemas de controle em massa, que soam alarmes para o controle da população e para a violação da privacidade, especialmente para aqueles que estão política e socialmente comprometidos com um perfil progressista, reformista ou revolucionário”, explica a Pagine Esteri o professor e economista Fernando García.
O professor universitário recorda como o escritor argentino Gregorio Selser escreveu o ensaio Honduras, uma república alugada para descrever a forte dependência e a subordinação do país diante dos interesses das potências estrangeiras. “Agora corremos o risco de passar de uma república arrendada para uma vendida, porque o Governo de Israel, as várias correntes sionistas internacionais e os bilionários libertários (libertarian tech bros) planejam adquirir novas terras e ocupar territórios para construir mais Zonas de Emprego e Desenvolvimento Econômico (ZEDEs), com foco específico na produção e no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial”.
São projetos de cidades-Estado privadas voltadas para entrar em conflito com as populações indígenas e camponesas que habitam esses territórios, , novamente, correm o risco de serem reprimidas, despejadas e forçadas a emigrar. O arcabouço regulatório criado para proteger investimentos agroindustriais, turísticos e de geração de energia segue exatamente nessa direção e já levou a despejos de assentamentos e de comunidades. A população garífuna (*) está entre as principais vítimas, apesar de a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) ter emitido nada menos que três sentenças favoráveis ao mesmo número de comunidades.
“Historicamente, os Estados Unidos usaram Honduras como plataforma para gerenciar os conflitos na região. Faz isso há muito tempo junto com Israel, um parceiro estratégico que executa ações que o governo dos EUA não pode, legalmente, realizar devido às restrições impostas por suas próprias instituições”, disse o analista político Rodolfo “Rudo” Pastor de María y Campos ao Pagine Esteri.
Segundo o cientista político, o sistema bipartidário tradicional hondurenho, de volta ao poder, não faz nada além de retomar os laços históricos que sempre manteve com os Estados Unidos e com Israel. Faz isso sem reservas e à luz do dia, ciente do papel que Honduras desempenhará nesta nova fase geopolítica de reafirmação do domínio e da hegemonia do eixo Washington-Tel Aviv sobre a região latino-americana.
“O vínculo com Israel sempre foi muito forte; basta pensar que o governo de Juan Orlando Hernández permitiu, inclusive, a instalação temporária de sua embaixada dentro do Centro Cívico do Governo, um complexo onde estão sediados os principais Ministérios de Honduras”, recorda Pastor.
É nesse contexto que o papel estratégico do ex-presidente hondurenho se torna especialmente relevante. Como mostram os arquivos de áudio divulgados entre abril e maio pelo Canal RED e Hondurasgate, Hernández atuaria como agente político de Trump e do lobby israelense na região. Isso faz parte de um plano estratégico real voltado para reapropriar os territórios e impor um modelo de desenvolvimento econômico ultraneoliberal, elaborado pela administração MAGA (Make America Great Again) e pelo governo Netanyahu para a América Latina. Uma virada à direita no continente é central para os objetivos da aliança geopolítica EUA-Israel.
“Vamos esclarecer, porém, que a mudança para a direita que estamos testemunhando não está apenas ligada à vontade das populações, mas também é resultado de manipulação sistemática para influenciar os resultados das eleições. É isso que emerge das gravações. Basta olhar para o papel desempenhado por Fernando Cerimedo –assessor eleitoral e especialista em comunicação digital, atualmente preso na Bolívia– em importantes campanhas eleitorais da direita latino-americana, incluindo as de Milei, na Argentina; Bolsonaro, no Brasil; e Asfura aqui em nosso país, todos aliados estratégicos do bloco Washington-Tel Aviv”, explica Pastor.
Para o analista político, Honduras continuará atuando como um centro de operações de influência na região para garantir aos Estados Unidos e à Israel o controle territorial e dos recursos estratégicos. O ex-presidente Hernández e o bipartidarismo, como expressões políticas dos interesses das oligarquias nacionais e do capital multinacional, constituirão sua peça fundamental.
Não é surpreendente, portanto, que, em 1º de setembro, um tribunal especializado em crime organizado, meio ambiente e corrupção tenha emitido uma absolvição final em favor do ex-presidente. Na verdade, o juiz determinou que não havia provas suficientes para julgá-lo pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, pelos quais foi acusado no caso Pandora II.
Hernández retornou a Honduras em 26 de julho como um “homem livre” e se colocou à disposição junto ao sistema judiciário hondurenho. Quatro anos antes, ele havia sido preso e extraditado para os Estados Unidos, onde foi condenado a 45 anos de prisão por tráfico de drogas e posse ilegal de armas; posteriormente, foi indultado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, na véspera das eleições hondurenhas.
O lançamento de novo material de áudio do Hondurasgate confirma a estratégia urdida pelo lobby israelense-estadunidense. Entre os principais protagonistas dessas novas gravações estão o próprio Hernández, o presidente Asfura e a vice-presidenta María Antonieta Mejía, assim como as controversas ex-conselheiras eleitorais Cossette López (Partido Nacional) e Ana Paola Hall (Partido Liberal). Segundo setores da oposição, ambas teriam sido “recompensadas” pelo papel desempenhado durante as eleições com sua nomeação como embaixadoras, respectivamente, na Organização dos Estados Americanos e na Espanha.
As novas revelações expõem o controle da máquina midiática com a qual o governo e Hernández pretendem dominar a narrativa em Honduras, reabilitando a imagem do ex-presidente e fortalecendo os laços com a coalizão israelo-estadunidense. As manobras vão desde o financiamento de espaços inteiros de televisão até a sincronização das capas dos principais jornais, incluindo o controle de canais-chave e a contratação, por meio de empresas fictícias, de quase 150 jornalistas como assessores.
O novo escândalo envolve diretamente tanto os apresentadores dos programas com maior audiência em todo o país quanto os proprietários da mídia mais amplamente transmitida, além da própria Associação Hondurenha de Jornalistas.
Ao mesmo tempo, as gravações de áudio revelam um plano para estabelecer um arcabouço legal para monitorar redes sociais e remover o anonimato dos usuários, todos usando softwares fornecidos, obviamente, por operadores israelenses.
Fonte: Pagine Esteri (italiano). Publicado em português em Nova Nicarágua e Mais Lista de Informações: Honduras, o laboratório latino-americano do eixo Israel-Estados Unidos. Revisão: Rose Lima.
(*) Nota da revisão (com base no artigo de Juan Manuel P. Domínguez, Mídia Ninja): “O povo Garífuna é uma cultura ancestral que tem sua origem na união de três culturas; os africanos, aruaques e caribenhos. (…) “Sua origem remonta a 1635, quando dois navios que transportavam negros escravizados da África para as Índias Ocidentais (Antilhas e Bahamas) naufragaram perto da Ilha de São Vicente, no Mar do Caribe”. (…) “A cultura garífuna é considerada Patrimônio Cultural Imaterial e Universal da Humanidade pela UNESCO e os etnógrafos consideram o povo Garífuna como o único povo negro do continente a conservar sua cultura desde sua origem, já que não tiveram ancestrais escravizados”.
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