Alta de até 40% nos combustíveis espalha protestos pela Síria e pressiona governo
Fonte: fup.news | Data: 14/09/2026 15:34:33
Manifestações bloqueiam rodovias e rotas utilizadas por caminhões-tanque, levam o Parlamento a convocar ministro da Energia e aumentam a pressão sobre a frágil recuperação econômica do país
Os protestos na Síria contra o aumento dos preços dos combustíveis se espalharam por diversas províncias nesta segunda-feira (14), pelo segundo dia consecutivo, depois que uma nova tabela de preços elevou em até 40% o valor de derivados de petróleo. As manifestações bloquearam rodovias e rotas usadas por caminhões-tanque e aumentaram a pressão sobre o governo do presidente interino Ahmed al-Sharaa.
Em resposta, o Parlamento sírio convocou o ministro da Energia, Mohammed al-Bashir, para uma audiência na quinta-feira, após mais de 50 deputados pedirem explicações sobre os reajustes e seus efeitos sobre o custo de vida.
A onda de contestação começou no domingo (13), quando entrou em vigor a nova tabela definida pelo Ministério da Energia. O diesel passou de 125 para 175 libras sírias por litro, alta de 40%. A gasolina de 95 octanas subiu de 152 para 195 libras sírias, reajuste de 28,3%, enquanto a de 90 octanas avançou de 147 para 185 libras sírias, segundo dados da agência estatal síria SANA. Manifestantes queimaram pneus, bloquearam rodovias e impediram a passagem de caminhões-tanque em diferentes pontos do país.
Os atos atingiram pelo menos sete províncias: Aleppo, Idlib, Hama, Daraa, Raqqa, Deir ez-Zor e Hasakah. Em Hasakah e Deir ez-Zor, estradas utilizadas por caminhões de petróleo foram fechadas. Em Raqqa, motoristas de caminhões organizaram um protesto diante de uma área de armazenamento de grãos. Motoristas de micro-ônibus também fizeram greve na região de Rif Dimashq, aumentando os efeitos da mobilização sobre o transporte.
Em Hasakah, as tarifas de transporte entre cidades subiram de 300 para 500 libras sírias, o que levou transportadores a paralisar as operações. Segundo a Euronews, os atos incluíram pedidos pela demissão do ministro al-Bashir.
O Ministério da Energia caracterizou os reajustes como temporários e os atribuiu a uma combinação de fatores: aumento dos custos de aquisição de derivados no mercado internacional, manutenção da refinaria de Baniyas e problemas de capacidade de refinação em outras regiões. A pasta também citou a elevação dos custos de transporte, frete e seguros em meio a perturbações nos estreitos de Ormuz e Bab al-Mandeb, no mar Vermelho e no golfo de Aden.
A refinaria de Baniyas está em manutenção integral prevista para cerca de dois meses. Segundo o Al Jazeera, a expectativa do governo é que, ao fim das obras, a capacidade da refinaria suba de 80 mil para 130 mil barris por dia. Enquanto isso, aumentou a necessidade de importar produtos acabados. A Síria produz cerca de 100 mil barris por dia, enquanto a demanda por petróleo e derivados gira em torno de 300 mil barris diários. No caso do diesel, aproximadamente 4,63 milhões dos 7,72 milhões de litros consumidos diariamente precisam ser importados, o que representa uma dependência externa de cerca de 60%.
Os protestos ocorrem em um momento de transição política e econômica ainda instável. O governo de al-Sharaa tenta reconstruir a economia, restaurar instituições e atrair capital estrangeiro enquanto enfrenta uma população pressionada pelas consequências de anos de conflito. Desde o início de 2026, a Síria tem sido palco de manifestações por questões econômicas, incluindo o valor dos salários, o preço do pão e o custo de vida. Este é o segundo aumento dos combustíveis em setembro, após um reajuste menor aplicado em 4 de setembro.
No mesmo dia em que os protestos se intensificavam, uma delegação empresarial dos Estados Unidos visitou Damasco em busca de oportunidades de investimento. O grupo reuniu mais de 80 participantes e representantes de cerca de 50 empresas. O subsecretário adjunto de Estado Jake McGee afirmou que companhias americanas estão sendo incentivadas a explorar o mercado sírio. Empresas como Chevron, HKN, Visa e Mastercard teriam dado passos para entrar no país ou firmar acordos com parceiros locais.
FUP Explica
O que esses protestos revelam, antes de tudo, é a fragilidade da base social sobre a qual o governo de Ahmed al-Sharaa tenta construir uma narrativa de recuperação. Um reajuste de combustíveis, por mais justificado que seja do ponto de vista fiscal, tem efeito imediato e visível sobre transporte, alimentação e custo de vida, e numa população que atravessou anos de guerra isso vira estopim rápido. O fato de o Parlamento ter convocado o ministro da Energia em menos de 48 horas, com mais de 50 deputados pedindo explicações, mostra que a crise saiu do campo econômico e entrou no político.
O bloqueio de rodovias e rotas de caminhões-tanque não é só protesto simbólico: ele interrompe o fluxo de combustível num país que já importa cerca de 60% do diesel que consome. Se os bloqueios se prolongarem, o efeito cascata sobre transporte de mercadorias, abastecimento de grãos e geração de energia pode ser significativo, o que tende a agravar exatamente o problema que gerou os protestos. O governo está numa armadilha: recuar no reajuste compromete as finanças públicas e a credibilidade fiscal; manter pressiona ainda mais a população.
O contraste com a visita da delegação americana no mesmo dia é emblemático. Atrair Chevron, Visa e Mastercard para Damasco enquanto manifestantes fecham estradas e pedem a cabeça do ministro da Energia expõe a distância entre a agenda de abertura econômica que o governo quer vender ao exterior e a realidade do dia a dia de quem vive no país. Para investidores estrangeiros, instabilidade social e política desse tipo é sinal de alerta, e pode tornar mais lenta justamente a entrada de capital que o governo precisa para financiar a reconstrução.