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CEO da Engie alerta para risco de “aventureiros” no leilão de baterias

Fonte: cnnbrasil.com.br | Data: 15/09/2026 04:49:05

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O CEO da Engie Brasil Energia, Eduardo Sattamini, alertou para o risco de empresas sem capacidade técnica, financeira ou operacional oferecerem preços inexequíveis no primeiro leilão de baterias do país, previsto para dezembro.

Em entrevista ao Alta Voltagem, programa da CNN, o executivo afirmou que a entrada de “aventureiros” pode prejudicar a competição e resultar na frustração de projetos, repetindo problemas registrados anteriormente em segmentos como o de energia solar e em leilões passados.

O alerta ocorre após a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) registrar um volume recorde de projetos interessados no certame. Os números informados pela estatal indicam aproximadamente 296,8 gigawatts (GW) cadastrados.

Para Sattamini, trata-se de um volume “absurdo”, superior à atual capacidade instalada de geração centralizada do Brasil, de cerca de 220 GW, considerando todas as fontes.

O executivo disse que a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) precisa avaliar não apenas a documentação formal dos participantes, mas também a capacidade efetiva das empresas de financiar, implantar e operar os projetos ao longo dos contratos.

“A Aneel tem a obrigação de olhar a qualidade destas empresas. Teremos uma primeira redução significativa deste número de 300 GW quando a garantia for necessária para que as empresas se qualifiquem para o certame, além da capacidade destas empresas em fazerem investimentos e operarem com a experiência necessária”, disse.

A expectativa é que o número de participantes seja reduzido inicialmente no processo de habilitação técnica conduzido pela EPE e, depois, na etapa de apresentação das garantias de proposta.

Os vencedores terão contratos de 15 anos, com início de suprimento em agosto de 2028. Os sistemas deverão ter pelo menos 30 megawatts (MW) de potência e capacidade para fornecer a potência contratada durante quatro horas consecutivas.

Conhecimento técnico e operacional

Sattamini afirmou que a operação de sistemas de armazenamento exige conhecimentos específicos de engenharia, operação e cadeia de suprimentos.

O grupo Engie já opera baterias no Chile, nos Estados Unidos e na Europa. Segundo o executivo, essa experiência mostra que não basta adquirir os equipamentos e instalá-los. Os empreendimentos precisarão cumprir exigências complexas do sistema elétrico e manter seu desempenho durante todo o contrato.

Entre as obrigações estão eficiência mínima de 85%, capacidade de recarga completa em até seis horas, atendimento aos comandos de carga e descarga do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) e disponibilidade de recursos como controle de tensão, resposta de frequência e operação em modo formador de rede, o chamado “grid-forming”.

“Este aviso é para que a gente não tenha aventureiros sem conhecimento oferecendo preços não factíveis”, afirmou.

Segundo ele, a subestimação dos riscos operacionais e financeiros já levou empresas de outros segmentos a enfrentar dificuldades para gerar caixa suficiente para pagar os investimentos.

“Podemos repetir o que aconteceu com a energia solar, com muitas empresas se aventurando no segmento e acabando por levar suas operações a uma quebradeira ou a um nível de geração de caixa insuficiente para pagar os investimentos”, alertou.

Casos anteriores acendem alerta no setor

O histórico recente do setor elétrico reúne casos de participantes que venceram disputas com ofertas agressivas, mas posteriormente não conseguiram cumprir as exigências ou executar os projetos.

Em junho de 2023, o Consórcio Gênesis venceu dois lotes de um leilão de transmissão da Aneel, com investimentos estimados em aproximadamente R$ 3,4 bilhões.

O maior deles, o lote 1, previa mais de 1.100 quilômetros de linhas entre Bahia e Minas Gerais e investimentos de R$ 3,16 bilhões. O consórcio ofereceu uma Receita Anual Permitida (RAP) de R$ 174 milhões, equivalente a um deságio de 66,18%.

A Aneel, porém, inabilitou o consórcio após analisar sua capacidade jurídica, técnica, econômica e financeira e identificar problemas na documentação e nas garantias apresentadas. Com a desclassificação, a Isa Energia, segunda colocada, foi convocada para assumir o lote.

O episódio gerou críticas no setor. A avaliação de agentes foi que uma análise anterior mais rigorosa poderia ter evitado a interferência de um participante sem condições de assumir o empreendimento e permitido maior competição entre as empresas efetivamente qualificadas, com possibilidade de uma RAP menor para o consumidor.

Outro caso envolveu a MEZ Energia. A companhia conquistou cinco concessões de transmissão em leilões realizados em 2020 e 2021, com lances agressivos — em um dos lotes, o deságio ficou próximo de 70%.

Anos depois, a Aneel constatou avanço físico de 0% e atrasos de aproximadamente três anos nos cinco contratos e recomendou a caducidade das concessões. Uma solução consensual posteriormente aprovada pelo TCU (Tribunal de Contas da União) permitiu que a MEZ mantivesse um empreendimento considerado estratégico para a Região Metropolitana de São Paulo.

Os outros quatro foram devolvidos para relicitação, mediante multas e outras contrapartidas. Além do atraso do cronograma, o consumidor foi prejudicado com deságio menor,

No segmento de geração solar distribuída, o Grupo Pontal-Thopen pediu recuperação judicial com dívidas de R$ 4,56 bilhões.

Segundo a empresa, a crise de liquidez foi provocada pelo descasamento entre o início das receitas dos projetos e o vencimento das dívidas contratadas para implantá-los, além do custo elevado do crédito e de atrasos na conexão de usinas às redes das distribuidoras.

A entrevista completa vai ao ar nesta quinta, às 20h, no CNN Money.